|
Na semana em que se disputou o torneio
BIG TENNIS CUP em Braga, o primeiro de uma série de ITFs dotados de
10.000$ em prémios monetários, a equipa do LusoTénis teve a
oportunidade de conhecer uma das jogadoras referência do panorama
nacional – Frederica Piedade.
Frederica Piedade é até hoje, a jogadora
portuguesa que atingiu o melhor ranking de sempre – 142ª mundial.
Venceu 10 títulos internacionais singulares e 16 de pares. Tem uma
carreira de 10 anos como profissional e logrou a participação em 8
qualificações dos Grand Slams, contudo sempre sem sucesso. Em 2008,
atingiu as meias-finais da vertente de pares do torneio Tier III, em
Bogota, melhor resultado de sempre de uma portuguesa. Fã de Edberg,
Sampras, Nuno Marques e Steffi Graff, Frederica prefere jogar em
piso rápido. A entrevista não podia vir em melhor altura. Em
vésperas de completar 26 anos de idade (entretanto já completados),
podia ser a altura ideal para fazer um balanço, numa fase em que
tenta re-estabelecer novos objectivos.
Frederica tinha terminado o seu encontro
dos quartos de final diante da italiana Eleonora Punzo, contudo
aceitou falar com o LusoTénis imediatamente. A portuguesa estava um
pouco alheia ao nosso trabalho. Segundo a própria, foge um pouco à
imprensa especializada e aos comentários dos cibernáuticos. “Adoro a
Internet, sou uma utilizadora frequente e antes gostava de ir ver o
que os interessados diziam sobre os meus resultados e o meu jogo.
Deixei-me disso porque acabava por ler comentários muito cruéis e no
final isso não me trazia nada de bom”, referiu Frederica.
Assistir à ex-número 1 nacional jogar um
torneio de 10.000$ e ainda por cima em Portugal não é uma situação
muito frequente. Segundo a mesma, o regresso a esta categoria de
torneios foi uma questão de opção. “Não é porque ache que tenha de
passar por isto novamente. Não foi por achar que estou a jogar mal e
que preciso de confiança, mas a verdade é que viajei muito desde
Dezembro do ano passado e queria parar um pouco. Queria estar a
descansar um pouco em casa, estar em Portugal, estar com a minha
família (…), juntei o útil ao agradável, em vez de estar parada em
casa só a treinar, vim fazer jogos”, explicou Frederica.
Foi com essa postura que vimos Frederica
ao longo do torneio. Sempre muito relaxada, nunca pareceu sofrer da
necessidade de defender o estatuto de 1ª cabeça de série e vencer o
torneio. Nas palavras da própria “sempre tenho o objectivo de ganhar
e dar o meu melhor mas a motivação para jogar estes torneios já não
é a mesma. Antes eu tinha mesmo de passar por isto para subir nos
rankings e conseguir vitórias era o único modo de atingir esse
objectivo. Hoje em dia, estes torneios que vou disputar em Portugal
foram uma escolha e como tal não sinto essa pressão de os vencer a
todos”. Contudo, não se pense que a portuguesa perdeu o desejo de
vitórias. “Obviamente que se o fizer será muito melhor para mim”.
Simplesmente hoje em dia define os objectivos a curto-prazo. “Quando
atingi o melhor ranking de sempre, elevei demasiado a fasquia.
Pretendi chegar a top 100 e fiquei algo obcecada com isso,
infelizmente as coisas não me correram bem e desci para o nº 300…não
foi definitivamente o percurso que desejava” confessou Frederica
adicionando ainda “Agora tomo as coisas de um modo mais relaxado e
vou propondo objectivos alcançáveis a curto prazo”. A portuguesa não
teve muita sorte em alguns momentos cruciais da sua carreira. Lesões
no joelho esquerdo, ombro, pé e ainda algumas intoxicações
alimentares pareciam sempre surgir em fases decisivas das temporadas
ou em torneios onde podia fazer um bom percurso. Frederica destaca
um dos momentos “Quando estava com um ranking por volta do nº 140,
tive uma lesão na pé que me obrigou a parar completamente durante
dois meses. Não podia sequer treinar a parte física. Obviamente,
perdi muita da forma que trazia e depois cometi o grave erro de me
atirar à competição sem qualquer preparação, tendo começado a perder
sucessivamente em primeiras rondas de torneios”. Este período foi
negro para Piedade, que entre Abril e Agosto de 2006 apenas venceu
três encontros e perdeu doze, tendo sido derrotada por dez vezes na
1ª ronda. Essa altura coincidiu também com uma abordagem a torneios
mais cotados, outra decisão que Frederica se arrepende de não ter
tomado mais cedo: “Penso que tenho ténis para atingir o top 100,
simplesmente quando estive mais perto de lá chegar, fiz uma má
gestão de calendário e joguei demasiado pelo seguro. Continuei a
entrar em torneios de 25.000$, que mesmo os vencendo, não me
permitiriam subir muito na classificação. Deveria ter dado o salto
quando estava mais confiante e como não o fiz, foram surgindo
derrotas inesperadas na 1ª ronda desses torneios onde era uma das
grandes favoritas e quando dei por mim, estava a perder
sucessivamente. “
Na altura em que a portuguesa, desde
sempre orientada pelo seu pai – Miguel Horta, arrancou
definitivamente em busca do top 100, a dupla decidiu seguir caminhos
diferentes. Ambos concordaram que seria a altura ideal para cortar o
cordão umbilical, de modo à, na altura número 1 nacional, atingir o
tão desejado objectivo. “A escolha da Argentina como base de treino
deveu-se a um preparador físico. Acho que nunca vou trabalhar com
ninguém tão bom como ele. Ajudou-me imenso na parte física, algo em
que eu sentia algumas dificuldades e acima de tudo uma dimensão
essencial para quem pretendia atingir o top 100”, explicou
Frederica. “Acordámos trabalhar juntos e mais tarde também cheguei a
acordo com um treinador”. Infelizmente para a portuguesa, também
isto não correu muito bem. “Ele acabou por mudar de ideias e foi
trabalhar para o México. Disse-me para ir com ele mas recusei-me”.
Em resposta à pergunta do LusoTénis, Frederica disse que não se
arrepende de ter ido para a Argentina, contudo “se fosse hoje, não
teria escolhido a mesma direcção técnica”, concluiu.
Mas nem tudo foi mau na carreira de
Frederica. Na verdade, a portuguesa teve a oportunidade de viver
muitos dos seus desejos. “Chegar à qualificação dos Grand Slams foi
um sonho concretizado” disse a portuguesa, afirmando mesmo ter sido
esse o seu momento mais alto. Wimbledon foi especial para Piedade
porque foi nesse onde obteve os melhores resultados. Algo natural,
tendo em conta que adora jogar em relva. Contudo, o Australian Open
é o seu Grand Slam preferido, pelo país, pessoas, ambiente e
recepção das jogadoras da qualificação. “Em Roland Garros e
Wimbledon, as jogadoras do quadro principal e da qualificação são
tratadas de modo completamente diferente, nem parece que estamos no
mesmo torneio. No final nem se consegue sentir que se está num Grand
Slam”, confessou. “O Open dos Estados Unidos é um caso à parte”,
referiu entre sorrisos, “Parto sempre de pé atrás relativamente aos
americanos”.
Neste momento, F. Piedade é a portuguesa
detentora de maior número de títulos ITF – 10 de singulares, contudo
a portuguesa não consegue eleger um especial: “Todos eles foram
importantes…foram em diferentes fases da minha carreira…mas talvez o
primeiro”, destacando assim o torneio em Mollerussa, em 2002. Antes
ainda destas vitórias e no seguimento de uma pergunta do LusoTénis
relativa ao encontro do qual tinha saído mais satisfeita com o seu
jogo, Frederica destaca a sua vitória na 1ª ronda da qualificação
para o Estoril Open, em 2000. Na altura ainda muito jovem e com um
ranking baixo (844ª WTA), a portuguesa derrotou a romena Raluca
Sandu (162ª WTA) num encontro a três parciais. 7-6(4) 5-7 6-4 foi o
resultado final de uma “vitória muito saborosa”, como confessou
Frederica.
Frederica não tem papas na língua e
normalmente diz o que pensa. Este tipo de atitude já lhe valeu
alguma incompreensão por parte dos dirigentes supremos do ténis
nacional, contudo a portuguesa não muda de comportamento. Foi com
bastante pragmatismo que Piedade respondeu às perguntas do LusoTénis
relativas ao estado do ténis nacional e às polémicas que esteve
envolvida. Não nos foi capaz de dizer se o ténis nacional está
melhor do que na altura em que surgiu em cena, muito por culpa de
viver afastada de Portugal a maior parte do tempo. No entanto,
afirma convictamente que “a mentalidade em Portugal não favorece a
formação de grandes jogadores. Os miúdos são demasiado mimados e as
culpas são sempre atribuídas aos treinadores. No meu caso, como
sempre senti que não podia competir só em Portugal para chegar mais
longe, fiquei mal vista. A Federação não tem muito dinheiro para
apoiar os mais jovens mas penso que a gestão deste dinheiro não é a
melhor”. Foram públicos os problemas que Frederica enfrentou com a
Federação Portuguesa de Ténis (FPT). Hoje em dia, os mares estão
mais calmos. “Tive problemas com a Federação no passado porque a
minha natureza nunca foi a de ficar calada quando senti que estava a
ser prejudicada. O ultimato de jogar os Campeonatos da Europa com o
risco de perder o subsídio Olímpico que me foi atribuído por outra
instituição por meu próprio mérito foi muito difícil de digerir.”,
confessou a jogadora. O regresso à selecção nacional é uma questão
de boa gestão de calendário. “Tenho maior orgulho em representar a
selecção nacional mas tenho uma carreira internacional e não resido
em Portugal, logo as coisas têm de ser marcadas com antecedência”
diz ainda a portuguesa. Este foi um problema que viveu com o
anterior director técnico nacional Paulo Lucas, com quem nunca teve
grande relação. “Não gosto muito de falar nesse assunto porque isso
já tomou proporções de novela cor-de-rosa. Temos divergências
pessoais naturais que já vem desde há muitos anos. Penso que ele não
cumpriu o que prometeu antes de chegar à direcção técnica. O facto
de não me ter dirigido a palavra na Quinta da Beloura no ano passado
é também imperdoável”.
Durante toda a entrevista, Frederica
teve sempre resposta pronta, contudo quando questionada sobre Gastão
Elias e Michelle Brito, mostrou-se algo cautelosa. “Tudo o que eu
disser pode ser interpretado como um certo desagrado pelo sucesso da
Michelle pelo facto de ela poder ultrapassar o meu record” disse
Frederica, reforçando de imediato “Contudo não tenho qualquer
problema com isso. Nunca foi o meu objectivo ultrapassar a Sofia
Prazeres, apenas quis chegar o mais longe que podia. Espero que a
Michelle tenha um objectivo bem mais alto do que aquele que atingi e
só lhe desejo o melhor. No entanto, não deixo de dizer que estes
casos devem ser geridos com muita precaução. Parece-me que o Gastão
está sobre enorme pressão e não sei até que ponto tem sido muito
favorável a sua presença nos Estados Unidos e a gestão de carreira
por parte da IMG. Para muitos, isso pode funcionar bem, mas não sei se
isso se adapta bem à personalidade dele”. Quanto ao sucesso de Michelle Brito, Frederica respondeu “ela é capaz de chegar aos
grandes torneios e vencer as melhores jogadoras do mundo como a
seguir é capaz de entrar na qualificação de um 25.000$ e perder
logo. No fundo, ela entra em campo sempre com a mesma postura, não
“respeita” a adversária, seja ela número 1 ou número 1000 do
ranking. Contudo, quando se apercebe que quando não pode jogar
sempre do mesmo modo contra todas as jogadoras independentemente do
seu ranking, treme um pouco”. Frederica diz ainda que Michelle deu o
salto sem passar pela fase de ITFs e que essa “bagagem” poder-lhe-á
fazer falta mais tarde, quando o entusiasmo acalmar.
Questionada sobre as diferenças entre a
Frederica dentro e fora de campo, a portuguesa referiu que não
existiam muitas. “Sou uma pessoa tímida e recatada, não gosto muito
de borgas”. Quando confrontada com a capa de uma edição do Jornal do
Ténis de 2003 em que Piedade posava na capa diante de 5 troféus
internacionais, após a vitória no 1º 25.000$, em Campos do Jordão,
no Brasil, a jogadora disse “estou hoje em dia mais madura e capaz
de viver mais as emoções. Tenho outras perspectivas sobre o jogo em
si e apesar de neste momento não ter tão bons resultados como na
altura, sinto-me uma jogadora muito mais completa e inteligente”.
|