Luso Ténis

 

Luso Ténis

 

Texto: Vítor Espírito Santo

Entrevistas/Reportagens

Fotos: Rui do Carmo/Lusotenis.com  
18 de Julho de 2008 (publicado a 1 de Agosto)  
 

ENTREVISTA COM... FREDERICO GIL

 

A entrevista a Frederico Gil não podia vir em melhor altura. Numa altura em que se encontra a rondar o top 100, objectivo tão perseguido pelo tenista luso, Gil viverá seguramente um período entusiasmante na sua carreira. Após a sua vitória e a de Rui Machado no primeiro dia da eliminatória da Taça Davis diante da selecção do Chipre, o número 1 nacional mostrou-se disponível para trocar algumas impressões com o LusoTénis, e com o seu estilo habitual, mostrou-se bastante pragmático, sem grandes receios do futuro. O top 100 é um objectivo mas Gil enfrenta-o com cautela. Contudo mostra vontade de não se ficar por aqui e quer mais. Sente que é capaz de o fazer. Coloca Federer e Nadal noutra galáxia mas quer voltar a encontrar o suíço para mostrar aquilo que vale. Este é Gil, ao vivo e a cores.

 

Balanço

“Gostava de voltar a defrontá-lo (Federer) porque acredito cada vez mais em mim e nas minhas qualidades”

 

Luso Ténis (LT): Actualmente estás perto do teu melhor momento da carreira, encontras-te perto do top 100, isso é uma coisa que está constantemente na tua cabeça quando entras em campo ou normalmente não afecta o teu jogo?

Frederico Gil (FG): Neste momento eu estou no melhor momento de carreira em termos de ranking e especialmente para mim, em termos de confiança e nível de jogo. Com certeza que tenho na cabeça esse objectivo, é um orgulho pessoal entrar nos 100 melhores jogadores do mundo mas também tenho a noção da realidade porque neste momento é um objectivo bastante difícil de alcançar pois existem muitos pontos a defender. Vão-me cair muitos pontos do ano passado, portanto vou tentar manter-me o melhor possível nos torneios e fazer os melhores resultados que conseguir para continuar a subir.

LT: Até agora qual consideras ter sido o melhor momento da tua carreira? Algum torneio em especial agora que te qualificaste para estes dois Grand Slams?

FG: Estes dois Grand Slams que joguei o quadro principal foram momentos altos da minha carreira devido ao facto de eu nunca os ter jogado. Neste momento fico satisfeito por jogá-los mas quero continuar a fazer resultados e continuar a conseguir passar rondas nesses torneios e principalmente continuar a evoluir o ténis que apresento pois dá-me jogar esse tipo de torneios dá-me imensa motivação.

LT: Curiosamente defrontaste o mesmo jogador, o Jeremy Chardy e até te saíste melhor em relva quando és mais associado a um jogador de terra batida.

FG: Não sei porquê, os outros jogadores também não jogam em relva, quase não há torneios nessa superfície, por isso todos temos que nos adaptar melhor possível à situação.

LT: Então achas que estiveste mais próximo de vencer o francês por já conheceres melhor o seu jogo?

FG: Não só porque já o conhecia mas também porque enfrentei o jogo de outra maneira que não consegui em Roland Garros. Lá joguei de uma forma muito mais defensiva a pensar que ia ser um jogo mais lento por ser em terra batida mas tal não aconteceu. Contra um tipo de adversário que arrisca muito, eu também tenho que arriscar porque se jogo sempre na defensiva, mais cedo ou mais tarde vou perder portanto também tenho que arriscar. Em Wimbledon tomei alguns riscos e por acaso não consegui a vitória mas estive bastante perto de o conseguir.

LT: Relativamente ao Open da Austrália, este ano não o incluíste no teu calendário, já sabes que opção tomarás para o ano?

FG: Não sei, vamos ver com que ranking consigo acabar o ano mas jogar a qualificação do Open da Austrália é complicado porque nós acabamos a temporada muito tarde devido aos interclubes e ao Masters-CIMA o que não deixa grande tempo para fazer uma pausa de descanso e férias e a pré-temporada, portanto acabei por decidir não ir jogar a qualificação, apenas um único torneio na Austrália. Optei por ficar, fazer a pré-temporada como deve ser e começar a competir 3 ou 4 semanas mais tarde.

LT: Relativamente ao Estoril Open, nos últimos anos tens obtido excelentes resultados. Este ano defrontaste o Roger Federer, nº 1 mundial, como foi essa sensação?

FG: Foi óptima. Para mim o Federer e o Nadal são jogadores de nível bastante superior a todos os outros e é um prazer jogar com eles. Ficou-me um pouco atravessado porque achei que podia ter feito mais, senti que podia ter feito um melhor resultado.

LT: Aquela interrupção foi prejudicial? (o jogo dos quartos de final da edição de 2008 do Estoril Open entre Roger Federer e Frederico Gil foi interrompido pela chuva, tendo o suiço vencido uma grande série de jogos seguidos após o regresso ao court)

FG: A interrupção predicou-me um pouco mas se calhar a ele também o prejudicou…Se calhar ele soube gerir essa pausa de uma melhor maneira do que eu mas gostava de voltar a defrontá-lo porque acredito cada vez mais em mim e nas minhas qualidades.

 

Ténis Português

“Muitas vezes olhamos para o ténis de um modo ainda muito amador, muito pouco profissional"

 

LT: Falando um pouco de ténis nacional, tu e o João Cunha e Silva fazem uma dupla de sucesso há anos, o que funciona bem na vossa combinação?

FG: Quanto à nossa relação, tenho um enorme respeito pelo João, gosto imenso da maneira como ele analisa as situações. É uma pessoa muito organizada, nunca vi uma pessoa tão organizada e tão profissional naquilo que faz. Também tenho uma relação com o André Ferreira, um dos treinadores que normalmente me acompanha nas viagens, tenho uma relação muito boa com ele, é uma pessoa muito chegada a mim e gosto imenso de viajar com eles. Temos sido bem sucedidos mas temos de continuar a trabalhar e como em todas as relações, há aspectos a limar, portanto vamos tentando melhorar todos os dias as situações.

LT: No ano passado houve uma altura em que cortaste a ligação com o teu treinador durante poucas semanas, até venceste o teu maior título, o challenger de Sevilha, durante esse período. O que se passou nessa altura, houve algum motivo em especial para esse corte?

FG: Bem, nessa altura tive alguns problemas a nível pessoal e acabei por tomar certas decisões um pouco precipitadas tanto na minha vida como na minha carreira, senti-me um bocado com a “cabeça quente” sobre outros assuntos da minha vida pessoal. Mais tarde acabei por me arrepender da decisão que tomei, que foi um bocado precipitada e retomámos a ligação.

LT: Em termos nacionais, já venceste praticamente tudo, apenas te falta o Masters-CIMA.

FG: É verdade, perdi sempre com o Leonardo…

LT: O Leonardo parece sempre que se agiganta naquele torneio.

FG: É verdade, naquele torneio o Leonardo é o dominador, é o gigante, normalmente ele joga muito bem nessa fase da temporada, em Dezembro, no final da época. Também a superfície é mais rápida e ele gosta imenso dessa superfície. Se jogar este ano vou tentar ganhar pela primeira vez.

LT: Como avalias o estado do ténis nacional comparativamente com há 5 anos atrás?

FG: Aquilo que sinto é que está a melhorar bastante, sinto que precisamos de alguém… (pausa)

LT: Sentes-te como uma referência para esses novos jogadores?

FG: Neste momento, sinceramente começo a sentir mas muito pouco. Acho que cada vez mais irá crescer se tivermos jogadores que comecem a fazer resultados e que as pessoas comecem a dar valor e a acreditar, a ver mais ténis e a motivarem-se para nem que seja ver à Internet os resultados, virem à Taça Davis, ver os jogos, divulgar mais na Internet…Acho que a modalidade está a crescer e principalmente precisamos de referências, é aquilo que eu sinto…olhamos ainda muito para os outros como que os outros fossem capazes e nós nunca fossemos, acabamos por ter uma mentalidade pequena… eu vou tentar, pessoalmente gostaria de mudar isso, acho que posso e tenho capacidades para ser melhor jogador e para subir mais, portanto vou tentar ajudar naquilo que puder o ténis nacional para os jogadores acreditarem cada vez mais que é possível e que façam disto uma profissão e uma vida. Muitas vezes olhamos para o ténis de uma maneira ainda muito amadora, muito pouco profissional, é tudo à base de jogar ao ténis e às raquetas e não jogar ténis profissional, jogar ténis como uma vida, como uma profissão.

LT. Relativamente à Michelle e ao Gastão, que são dois dos nomes mais falados hoje em dia, a Michelle ainda esta semana chegou à 2ª ronda em Stanford (na semana da Taça Davis), o que prevês para o futuro deles?

FG: Gosto muito dos dois. Já tive a oportunidade de vê-los várias vezes a jogar ao vivo. Acho que ambos vão conseguir chegar longe, não sei que rankings mas ambos vão conseguir com certeza chegar lá para cima, para o topo. Gosto muito, principalmente da Michelle, gosto muito do Gastão, teve agora uma fase menos boa mas esta semana já está outra vez nos quartos de final de um challenger. Eu penso que mais tarde ou mais cedo vão acabar por subir e vão dar o salto e vão ser duas referências a nível nacional.

 

Secção Preferidos/Curiosidades

 

LT: Agora uma secção mais lúdica, jogadores preferidos, quais são os teus jogadores preferidos, quer a nível nacional como a nível internacional? Já falaste do Federer e do Nadal…

FG: A nível nacional não tenho assim nenhuma referência, gosto muito da Michelle e do Gastão mas gosto muito mais de mim (entre risos). A nível internacional, as minhas referências, os meus dois ídolos são o Federer e o Nadal, acham que são bastante superiores aos demais embora às vezes percam com alguns mas são muito superiores, a meu ver.

LT: E o Djokovic, não se intromete?

FG: Não, para mim é outro nível.

LT: E piso preferido? Tens algum?

FG: Eu tenho jogado mais em terra batida mas o meu piso preferido sempre foi o piso rápido. Com este ranking vou ter a possibilidade de voltar a jogar mais em pisos rápidos, entrar em torneios maiores com piso rápido. Tenho a certeza que me vai correr bem porque eu gosto imenso de jogar nessa superfície.

LT: Como descreves o teu jogo em court?

FG: Eu sempre fui uma pessoa que lida muito bem com a competição, gosto muito de competir mas neste momento aquilo que eu procuro também é ser de alguma forma mais agressivo e arriscar mais, tomar mais a iniciativa, ser eu a comandar. Se for para falhar, que seja eu a falhar e que tente ser eu a procurar mais porque chegamos a um determinado nível profissional onde os jogadores são de tal maneira agressivos, de tal maneira conquistadores para ganhar, que aqueles que se retraem acabam sempre mais tarde ou mais cedo por perder e nem sequer chegaram a tentar arriscar e tentar ganhar. Aquilo que eu tenho aprendido nestes últimos torneios e o que estou a procurar no meu tipo de jogo é ser cada vez mais agressivo e tomar cada vez mais a iniciativa do ponto, dentro dos possíveis, sem exagerar.  

LT: Como é o Gil fora do court?

FG: (entre risos) Sou uma pessoa normal, sou saloio de Colares e gosto imenso de praia, sol e Verão. Sou simpático, dou-me bem com os amigos embora muitas vezes seja difícil ter muitos amigos porque passo a vida fora e não estou cá tempo nenhum. Quando estou em Portugal tento organizar a minha vida e ter sempre uma noitezinha ou um jantarzinho com amigos para me abstrair de todas aquelas viagens e torneios. Acho que sou uma pessoa bastante completa…

 

Presente e Futuro

“A transição de júnior para sénior é muito complicada porque somos habituados a um tratamento de topo nos júniores”

 

LT: Quais são as diferenças entre o Gil de agora e o Gil de há 5 anos em jogo e em maturidade?

FG: Muitas, há 5 anos atrás…(pausa)

LT: Foi mais ou menos quando começaste a disputar o circuito sénior…

FG: Exactamente…Há muitas diferenças. Principalmente no acreditar do potencial…eu sempre fui uma pessoa muito trabalhadora…

LT: Chegaste ao top 10 de juniores, seguramente já tinhas algumas perspectivas…

FG: Acredite que depois houve ali uma fase em que é muito complicada a transição de juniores para seniores porque nós habituamo-nos a ter um tratamento de topo nos juniores…grandes hotéis, grandes torneios, tudo pago, viagens para aqui, para ali, e depois, de repente, somos apanhados num patamar de satélites e de futures que é o oposto, não há viagens para ninguém, tens de ser tu a tratar das coisas, não há hospitalidade, os torneios são fraquíssimos, não está ninguém a ver… São tudo condições muito difíceis de gerir e acabei por passar 2 ou 3 anos nessa fase de transição na qual ganhei muita experiência mas que foi uma fase muito complicada. Hoje em dia já me sinto uma pessoa muito mais adulta, mais madura, com muito mais confiança no meu ténis, na minha pessoa, e cada vez mais todos os dias tenho procurado nos treinos ser ainda melhor uma vez sinto que tenho imenso potencial para subir mais.

LT: Para finalizar, para o resto de 2008 e já para o início de 2009, planeias continuar nos torneios de categoria challengers ou planeias tentar mais alguns torneios do circuito principal ATP com o ranking que tens neste momento?

FG: Depois desta Taça Davis vou seguir para Poznan, um challenger de 100.000$ na Polónia, seguidamente terei uma semana de intervalo entre Poznan e Segóvia onde irei jogar os interclubes na Alemanha. Depois vou seguir para Segóvia e para Istambul, são dois challengers de 100.000$, todos já em piso rápido para preparação do USOpen. Depois arranco para os Estados Unidos, dependendo se tenho entrada ou não. A seguir aos Estados Unidos ainda não tenho um calendário definido mas creio eu que no final do ano irei fazer o circuito da América do Sul de challengers fortes, de 75.000$. Em princípio este ano será este o calendário uma vez que também vão sair muitos pontos, por isso não tenho ranking suficiente para poder entrar em ATPs. Para além disso, nessa altura do ano os ATPs que há são poucos e são para o Japão, para Tóquio, para o lado de lá da Ásia. Acho que ainda não tenho ranking suficiente para ir para esse tipo de torneios portanto vou-me manter ainda este ano nos challengers e para o ano, se Deus quiser, poderei jogar no circuito de uma forma mais regular e consistente.

LT: Muito obrigado pela disponibilidade e boa sorte para o futuro.