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Introdução e Balanço
“Nem eu estava à
espera que este início do ano corresse tão bem...”
Luso Ténis (LT): Este ano estás a viver
um excelente momento, já tens 6 títulos da categoria future
mais as meias-finais agora em Córdoba, qual é a sensação de
regressar ao teu melhor ténis após um período difícil?
Rui Machado (RM): Nem eu
estava à espera que este início de ano corresse tão bem, os
resultados ajudaram-me um pouco a agarrar-me à competição da qual já
estava um pouco afastado, mas também nada é por acaso, mesmo quando
estive parado continuei sempre a trabalhar e inclusive em algumas
alturas dos meus períodos de lesão eu dedicava mais tempo a
recuperar a condição física do que quando estava em competição. Fiz
também uma belíssima pré-época, muito dura e muito boa em Janeiro…
LT: Essa pré-época já foi efectuada no Clube de
Ténis de Oeiras (CETO)?
RM: Sim
LT: A mudança de direcção técnica foi
importante para estes resultados?
RM: Os resultados que eu
estou a ter agora não são apenas fruto da pré-época que eu fiz,
tenho muitos anos de trabalho, tenho muita “bagagem” comigo…Penso
também que o tempo no qual eu estive lesionado fez-me ver as coisas
de maneira diferente, estou mais maduro e não desperdiço tantas
oportunidades como antes…Mas sim, fiz uma grande preparação, mas
também já no passado tinha feito…esta correu bem, não tive nenhuma
lesão.
Ténis Português e Taça Davis
“A euforia (em torno
de Michelle Brito) nasce da necessidade antiga de termos uma
referência no nosso ténis..."
LT: Sentes muita diferença entre o tipo
de treino que fazias na Academia onde estiveste em Barcelona e o que
fazes agora em Portugal? Não só relativamente à parte de esquemas de
treino mas também em relação à própria mentalidade que é incutida?
RM: Para não dizer que
está tudo inventado, está quase tudo inventado mas sim, sente-se
alguma diferença ao nível da mentalidade, é um problema do nosso
ténis em geral. Mas eu tenho a sorte de trabalhar com pessoas que
são muito profissionais e que me ajudam imenso. Agora em termos de
trabalho, não há muita diferença. É óbvio que melhorei coisas, faz
parte da evolução de um próprio jogador. Gosto muito de referir a
personalidade da equipa, não só do João (João Cunha e Silva)
mas também da equipa que trabalha com ele. Também encontrei lá um
grupo de jogadores muito profissionais.
LT: Sim, neste momento
também tens no teu clube um dos atletas que juntamente contigo
“carrega” a bandeira nacional nesta modalidade…
RM:
Sim, mas mesmo antes de estarmos na mesma equipa de trabalho já
éramos os dois líderes, eu cheguei a ser o primeiro, depois o Gil
ultrapassou-me mas isso também não é o mais relevante, o que
realmente interessava era que não fossemos só nós os dois…
LT: E achas que isso vai mudar num
futuro próximo?
RM: Não tenho visto
muita coisa que tenha sido feita para mudar isso apesar de neste
momento não sermos apenas nós os dois, temos o Leonardo que nos
últimos 3 ou 4 anos tem tido imensos problemas com lesões, mas toda
a gente sabe o nível que ele é capaz de competir. Obviamente essa
situação não tem sido muito boa para ele porque não lhe permite
ganhar consistência já ninguém consegue um bom ranking se não
competir em vários torneio seguidos. Depois temos o João Sousa, o
Gastão, que é uma grande promessa, mas é preciso muito trabalho.
Relativamente aos outros, também não estou muito a par dos novos
nomes que têm surgido nas camadas mais jovens.
LT: Como vês todo este entusiasmo em
torno da Michelle, tu que estás por dentro do circuito, qual é a tua
visão?
RM: Eu acho que essa euforia
nasce da necessidade já antiga de termos uma referência no nosso
ténis, tanto pelos adeptos como pela própria Federação. Penso que a
Michelle assumiu essa responsabilidade, ela é a mais promessa de
todas, na corrida de promessas ela assumiu a dianteira relativamente
ao Gastão. Pelo que vi dela e pelo que ouvi falar, não sei se vai
chegar a nº1 como ela diz que ser, mas deverá vir a ser uma grande
jogadora.

LT: E quanto ao Gastão, qual é a tua
opinião?
RM: O Gastão pode não estar a
passar agora a melhor forma mas agora esta semana está a fazer um
bom torneio (aquando da sua presença nas meias-finais no
challenger canadiano de Moncton, oriundo da fase de qualificação).
Toda a gente gosta imenso do Gastão, como jogador é muito
profissional e penso que está a trabalhar muito bem, está bem
encaminhado e bem acompanhado. Eu penso que o facto de ele estar com
uma empresa como a IMG é uma mais valia para qualquer jogador, no
que diz respeito às experiências que ele tem acesso e que os outros
não têm. Agora está nas mãos dele ganhar os jogos ou não…É difícil
prever até onde vai chegar, depende também dos seus objectivos. Sei
que ele tem objectivos muito ambiciosos mas penso que ele pode vir a
ser top 100 mundial.
LT: Relativamente à Taça Davis, como é que te
sentiste no encontro de hoje? (diante de
Photos Kallias, o cipriota mais cotado que Rui Machado derrotou no
encontro de singulares para dar a Portugal uma vantagem de 2-0 na
eliminatória)
RM: Penso que da minha
parte foi um pouco de gestão a mais, tive sempre por cima mas
poderia ter fechado o encontro mais cedo e tive várias oportunidades
para o fazer. Estava bastante confiante mas não a jogar muito bem.
Mentalmente também é importante saber lidar com os dias em que não
estamos a jogar bem nem a fazer aquilo que pretendemos para
continuar a procurar vencer o encontro mesmo nessas condições. O
importante era dar o ponto a Portugal, é indiferente se é numa hora
e meia ou em cinco horas, o que importa é o resultado final.
LT: Relativamente ao ambiente do
público, sentiste apoio?
RM: O ambiente aqui
neste clube é espectacular, todo o grupo está muito contente por
jogar aqui, temos sentido um grande apoio por parte do clube. Penso
que isso também é muito importante para nós.
Secção Preferidos/Curiosidades
“Há quem não consiga
decifrar isso ao ver o meu jogo mas gosto muito de controlar o
ponto."
LT: Jogador preferido?
RM: Neste momento não
tenho assim nenhum favorito. Quando jogava, o Stefan Edberg era o
meu preferido. Hoje em dia há uma série de jogadores que admiro.
Acho o Nadal um jogador muito profissional…
LT: Preferes o Federer ou o Nadal?
RM: Eu prefiro o Federer
em Roland Garros e o Nadal em Wimbledon para equilibrar um pouco as
coisas. (entre risos)
LT: Piso favorito?
RM: Terra batida mas
também gosto de jogar em hardcourt.

LT:
Como descreves o teu jogo?
RM: É um jogo agressivo
do fundo do court…(pausa para pensar)
LT: Jogo com raça…
RM: Sim, é um bocado. Se
calhar um dos adjectivos para o caracterizar seria raça. Idealmente
seria consistência mas sempre procurando o controlo do ponto. Há
quem não consiga decifrar isso ao ver o meu jogo mas gosto muito de
controlar o ponto. Agora tenho a humildade suficiente para, quando
não o controlo, correr. (entre risos) Essa é uma
característica que muitas vezes os jogadores agressivos não têm mas
apesar disto eu estou sempre à procura de controlar a jogada. O
serviço não é a minha melhor arma e em piso rápido acabo por ficar
mais desprotegido do que em terra batida.
Passado, Presente e Futuro
“Vontade de continuar
a jogar não me faltou, (...) não iria desperdiçar anos de trabalho,
esforço e sacrifício...”
LT: Durante aqueles dois anos em que
tiveste problemas físicos, o que te passou pela cabeça, chegaste a
ponderar desistir da carreira de tenista?
RM: É óbvio que durante
esses dois anos passou muita coisa pela cabeça…cheguei a pensar que
não voltaria a jogar ténis, não propriamente pela minha falta de
vontade mas pela possibilidade de o meu joelho não me permitir
continuar a jogar. Isso passou-me várias vezes pela cabeça, mesmo
quando eu já estava melhor mas ainda não estava a 100%...Tive
momentos bastante difíceis…Mas vontade de continuar a jogar não me
faltou, mesmo em momentos mais complicados em que quase ninguém
acreditava. O que é mais difícil é notar que mesmo aquele grupo de
pessoas mais próximas que vemos diariamente ficava descrente mas foi
nesse momento que cheguei a dizer que não iria desperdiçar os anos
de trabalho, esforço e sacrifício para desistir logo à primeira.
Queria retirar os frutos desse trabalho.
LT: Recentemente estreaste-te num Grand
Slam, na qualificação de Wimbledon, descreve-nos como viveste essa
experiência. Chegaste a prestar declarações sobre o facto de não
quereres perder mais oportunidades uma vez que antes da lesão
chegaste a ter ranking para entrar em qualificações de Grand Slams e
na altura acabaste por não participar…
RM: Sim, na altura não
tinha essa pressa porque sabia que poderia jogar mais tarde. Depois
daquele período e agora que posso participar, quero aproveitar para
jogar, não vá acontecer alguma coisa que me impeça novamente de o
fazer. Wimbledon em concreto, sin ceramente
não foi muito bem preparado, não era um dos objectivos da época.
Para o ano ou daqui a dois anos os objectivos já serão
diferentes…Por outro lado, o casamento do meu irmão foi no sábado,
acabei por só viajar no domingo e joguei logo na segunda, mas pelo
menos consegui viver pela primeira vez o espírito…mas realmente não
foi um dos objectivos principais da temporada.
LT: Relativamente aos objectivos para a
segunda metade da época?
RM: Já restabeleci
objectivos várias vezes ao longo desta temporada, o objectivo neste
momento é terminar a época no top 200 do ranking mundial, se o
conseguir atingir nas próximas semanas, depois poderei pensar em
mais (recorde-se que na altura desta entrevista, Rui Machado
encontrava-se situado na 220ª posição do ranking ATP).
LT: Muito obrigado pela disponibilidade
e boa sorte para o futuro.
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