Luso Ténis

 

Luso Ténis

 

Texto: Vítor Espírito Santo

Entrevistas/Reportagens

Fotos: Rui do Carmo/Lusotenis.com  
18 de Julho de 2008 (publicado a 1 de Setembro)  
 

ENTREVISTA COM... RUI MACHADO

 

Apesar de para muitos esta entrevista poder chegar com algum atraso, este acaba por ser o timing ideal para a lançar. E porquê? Na ressaca de uma participação histórica na edição deste ano do US Open, onde recorde-se garantiu a qualificação e conseguiu vencer o encontro da 1ª ronda do quadro principal (igualando assim o feito de Nuno Marques e João Cunha e Silva), Rui Machado ainda sonhou ao levar o espanhol Fernando Verdasco, 13º mundial, ao 5º set no encontro da 2ª ronda. O tenista do país vizinho acabou por levar a melhor mas a réplica que o português efectuou deixou marca. Com este resultado, Rui Machado garante a entrada em definitivo e de modo consistente no top 200 do ranking mundial, abrindo-se agora um novo desafio numa temporada onde já subiu mais de 550 lugares no ranking ATP. Na altura da entrevista, Rui Machado tinha acabado de vencer o seu encontro diante do cipriota Photos Kallias, adversário na eliminatória da Taça Davis que opôs Portugal à selecção do Chipre. Na altura, dava-nos conta dos obstáculos que encontrou numa carreira marcada por lesões, no modo humilde como encara os seus objectivos e no próprio estado do ténis português, pergunta recorrente do nosso espaço, que já teve um conjunto de respostas bastante interessantes por parte de outros entrevistados. Aqui está o algarvio, a abrir as portas ao seu percurso enquanto pessoa e tenista.

 

Introdução e Balanço

“Nem eu estava à espera que este início do ano corresse tão bem...”

Luso Ténis (LT): Este ano estás a viver um excelente momento, já tens 6 títulos da categoria future mais as meias-finais agora em Córdoba, qual é a sensação de regressar ao teu melhor ténis após um período difícil?

Rui Machado (RM): Nem eu estava à espera que este início de ano corresse tão bem, os resultados ajudaram-me um pouco a agarrar-me à competição da qual já estava um pouco afastado, mas também nada é por acaso, mesmo quando estive parado continuei sempre a trabalhar e inclusive em algumas alturas dos meus períodos de lesão eu dedicava mais tempo a recuperar a condição física do que quando estava em competição. Fiz também uma belíssima pré-época, muito dura e muito boa em Janeiro…

LT: Essa pré-época já foi efectuada no Clube de Ténis de Oeiras (CETO)? 

RM: Sim

LT: A mudança de direcção técnica foi importante para estes resultados?

RM: Os resultados que eu estou a ter agora não são apenas fruto da pré-época que eu fiz, tenho muitos anos de trabalho, tenho muita “bagagem” comigo…Penso também que o tempo no qual eu estive lesionado fez-me ver as coisas de maneira diferente, estou mais maduro e não desperdiço tantas oportunidades como antes…Mas sim, fiz uma grande preparação, mas também já no passado tinha feito…esta correu bem, não tive nenhuma lesão.

 

Ténis Português e Taça Davis

“A euforia (em torno de Michelle Brito) nasce da necessidade antiga de termos uma referência no nosso ténis..."

LT: Sentes muita diferença entre o tipo de treino que fazias na Academia onde estiveste em Barcelona e o que fazes agora em Portugal? Não só relativamente à parte de esquemas de treino mas também em relação à própria mentalidade que é incutida?

RM: Para não dizer que está tudo inventado, está quase tudo inventado mas sim, sente-se alguma diferença ao nível da mentalidade, é um problema do nosso ténis em geral. Mas eu tenho a sorte de trabalhar com pessoas que são muito profissionais e que me ajudam imenso. Agora em termos de trabalho, não há muita diferença. É óbvio que melhorei coisas, faz parte da evolução de um próprio jogador. Gosto muito de referir a personalidade da equipa, não só do João (João Cunha e Silva) mas também da equipa que trabalha com ele. Também encontrei lá um grupo de jogadores muito profissionais.

LT: Sim, neste momento também tens no teu clube um dos atletas que juntamente contigo “carrega” a bandeira nacional nesta modalidade…

RM: Sim, mas mesmo antes de estarmos na mesma equipa de trabalho já éramos os dois líderes, eu cheguei a ser o primeiro, depois o Gil ultrapassou-me mas isso também não é o mais relevante, o que realmente interessava era que não fossemos só nós os dois…

LT: E achas que isso vai mudar num futuro próximo?

RM: Não tenho visto muita coisa que tenha sido feita para mudar isso apesar de neste momento não sermos apenas nós os dois, temos o Leonardo que nos últimos 3 ou 4 anos tem tido imensos problemas com lesões, mas toda a gente sabe o nível que ele é capaz de competir. Obviamente essa situação não tem sido muito boa para ele porque não lhe permite ganhar consistência já ninguém consegue um bom ranking se não competir em vários torneio seguidos. Depois temos o João Sousa, o Gastão, que é uma grande promessa, mas é preciso muito trabalho. Relativamente aos outros, também não estou muito a par dos novos nomes que têm surgido nas camadas mais jovens.

LT: Como vês todo este entusiasmo em torno da Michelle, tu que estás por dentro do circuito, qual é a tua visão?

RM: Eu acho que essa euforia nasce da necessidade já antiga de termos uma referência no nosso ténis, tanto pelos adeptos como pela própria Federação. Penso que a Michelle assumiu essa responsabilidade, ela é a mais promessa de todas, na corrida de promessas ela assumiu a dianteira relativamente ao Gastão. Pelo que vi dela e pelo que ouvi falar, não sei se vai chegar a nº1 como ela diz que ser, mas deverá vir a ser uma grande jogadora.

LT: E quanto ao Gastão, qual é a tua opinião?

RM: O Gastão pode não estar a passar agora a melhor forma mas agora esta semana está a fazer um bom torneio (aquando da sua presença nas meias-finais no challenger canadiano de Moncton, oriundo da fase de qualificação). Toda a gente gosta imenso do Gastão, como jogador é muito profissional e penso que está a trabalhar muito bem, está bem encaminhado e bem acompanhado. Eu penso que o facto de ele estar com uma empresa como a IMG é uma mais valia para qualquer jogador, no que diz respeito às experiências que ele tem acesso e que os outros não têm. Agora está nas mãos dele ganhar os jogos ou não…É difícil prever até onde vai chegar, depende também dos seus objectivos. Sei que ele tem objectivos muito ambiciosos mas penso que ele pode vir a ser top 100 mundial.

LT: Relativamente à Taça Davis, como é que te sentiste no encontro de hoje? (diante de Photos Kallias, o cipriota mais cotado que Rui Machado derrotou no encontro de singulares para dar a Portugal uma vantagem de 2-0 na eliminatória)

RM: Penso que da minha parte foi um pouco de gestão a mais, tive sempre por cima mas poderia ter fechado o encontro mais cedo e tive várias oportunidades para o fazer. Estava bastante confiante mas não a jogar muito bem. Mentalmente também é importante saber lidar com os dias em que não estamos a jogar bem nem a fazer aquilo que pretendemos para continuar a procurar vencer o encontro mesmo nessas condições. O importante era dar o ponto a Portugal, é indiferente se é numa hora e meia ou em cinco horas, o que importa é o resultado final.

LT: Relativamente ao ambiente do público, sentiste apoio?

RM: O ambiente aqui neste clube é espectacular, todo o grupo está muito contente por jogar aqui, temos sentido um grande apoio por parte do clube. Penso que isso também é muito importante para nós.

 

Secção Preferidos/Curiosidades

“Há quem não consiga decifrar isso ao ver o meu jogo mas gosto muito de controlar o ponto."

LT: Jogador preferido?

RM: Neste momento não tenho assim nenhum favorito. Quando jogava, o Stefan Edberg era o meu preferido. Hoje em dia há uma série de jogadores que admiro. Acho o Nadal um jogador muito profissional…

LT: Preferes o Federer ou o Nadal?

RM: Eu prefiro o Federer em Roland Garros e o Nadal em Wimbledon para equilibrar um pouco as coisas. (entre risos)

LT: Piso favorito?

RM: Terra batida mas também gosto de jogar em hardcourt.

LT: Como descreves o teu jogo?

RM: É um jogo agressivo do fundo do court…(pausa para pensar)

LT: Jogo com raça…

RM: Sim, é um bocado. Se calhar um dos adjectivos para o caracterizar seria raça. Idealmente seria consistência mas sempre procurando o controlo do ponto. Há quem não consiga decifrar isso ao ver o meu jogo mas gosto muito de controlar o ponto. Agora tenho a humildade suficiente para, quando não o controlo, correr. (entre risos) Essa é uma característica que muitas vezes os jogadores agressivos não têm mas apesar disto eu estou sempre à procura de controlar a jogada. O serviço não é a minha melhor arma e em piso rápido acabo por ficar mais desprotegido do que em terra batida.

 

Passado, Presente e Futuro

“Vontade de continuar a jogar não me faltou, (...) não iria desperdiçar anos de trabalho, esforço e sacrifício...”

LT: Durante aqueles dois anos em que tiveste problemas físicos, o que te passou pela cabeça, chegaste a ponderar desistir da carreira de tenista?

RM: É óbvio que durante esses dois anos passou muita coisa pela cabeça…cheguei a pensar que não voltaria a jogar ténis, não propriamente pela minha falta de vontade mas pela possibilidade de o meu joelho não me permitir continuar a jogar. Isso passou-me várias vezes pela cabeça, mesmo quando eu já estava melhor mas ainda não estava a 100%...Tive momentos bastante difíceis…Mas vontade de continuar a jogar não me faltou, mesmo em momentos mais complicados em que quase ninguém acreditava. O que é mais difícil é notar que mesmo aquele grupo de pessoas mais próximas que vemos diariamente ficava descrente mas foi nesse momento que cheguei a dizer que não iria desperdiçar os anos de trabalho, esforço e sacrifício para desistir logo à primeira. Queria retirar os frutos desse trabalho.

LT: Recentemente estreaste-te num Grand Slam, na qualificação de Wimbledon, descreve-nos como viveste essa experiência. Chegaste a prestar declarações sobre o facto de não quereres perder mais oportunidades uma vez que antes da lesão chegaste a ter ranking para entrar em qualificações de Grand Slams e na altura acabaste por não participar…

RM: Sim, na altura não tinha essa pressa porque sabia que poderia jogar mais tarde. Depois daquele período e agora que posso participar, quero aproveitar para jogar, não vá acontecer alguma coisa que me impeça novamente de o fazer. Wimbledon em concreto, sinceramente não foi muito bem preparado, não era um dos objectivos da época. Para o ano ou daqui a dois anos os objectivos já serão diferentes…Por outro lado, o casamento do meu irmão foi no sábado, acabei por só viajar no domingo e joguei logo na segunda, mas pelo menos consegui viver pela primeira vez o espírito…mas realmente não foi um dos objectivos principais da temporada.

LT: Relativamente aos objectivos para a segunda metade da época?

RM: Já restabeleci objectivos várias vezes ao longo desta temporada, o objectivo neste momento é terminar a época no top 200 do ranking mundial, se o conseguir atingir nas próximas semanas, depois poderei pensar em mais (recorde-se que na altura desta entrevista, Rui Machado encontrava-se situado na 220ª posição do ranking ATP).

LT: Muito obrigado pela disponibilidade e boa sorte para o futuro.