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Texto: Bruno Santos

Entrevistas/Reportagens

Fotos: Getty Images, Publico
4 de Outubro de 2009 (entrevista por e-mail)
 

ENTREVISTA COM... ANTÓNIO VAN GRICHEN

 

Natural de Lisboa, António Van Grichen tem um percurso sem precedentes entre os treinadores lusos nos respectivos circuitos. Após uma carreira como jogador, no qual somou triunfos na variante de pares, o actual treinador de Victoria Azarenka (nº 9 WTA) também deu nas vistas ao defender as cores lusas na Taça Davis no ano de 2001 frente à Grã-Bretanha. Actualmente, o treinador português encontra-se radicado nos Estados Unidos (reside em Scottsdale), isto depois de uma experiência enriquecedora igualmente em Espanha. Jovem, simpático e disponível, António Van Grichen concedeu-nos uma interessante entrevista na qual nos fala da sua experiência como profissional de ténis, traça-nos a sua experiência com V. Azarenka e dá-nos a sua perspectiva sobre o ténis português. Neste momento encontra-se em Tóquio, local onde acompanha a sua pupila no WTA da capital japonesa, onde respondeu às nossas perguntas e no qual agradecemos aqui publicamente a sua disponibilidade.

 

A Carreira Pessoal

O que o motivou a experimentar o ténis e com que idade o fez?

António Van Grichen: Comecei a jogar ténis aos 6 anos e, para ser sincero, com essa idade não me lembro que tipo de motivação tinha, mas sei que foi principalmente através dos meus pais que me incentivaram a ter aulas de ténis.

O António como jogador, destacou-se por vencer um campeonato absoluto na variante de pares além de defender as cores lusas na Taça Davis. Como se definia como atleta e como tenista em particular?

AVG: Como atleta era bastante versátil, rápido e polivalente, ou seja, saí-me bem em vários desportos. Como tenista era um jogador com bastante talento (como se viu o talento não é tudo), bastante agressivo, gostava de ser ofensivo, por vezes revelava-me um pouco impaciente; gostava de utilizar os meus “volleys” para acabar os pontos, por isso mesmo jogava mais na variante de pares. Sempre tive melhores resultados nessa variante.

Qual foi o melhor momento enquanto tenista e por que razão abandonou a carreira de tenista profissional com 23 anos?

AVG: O melhor momento foi sem dúvida ter jogado a Taça Davis frente à Inglaterra, mas não posso esquecer o “satélite” que venci com o Nuno Marques (deu-me um enorme prazer jogar ao seu lado), isto sem esquecer alguns títulos em “futures” de 15.000 dólares, sempre na variante de pares. Decidi abandonar a carreira de tenista profissional por várias razões: a primeira foi o facto do “ATP” na altura em que eu estava a registar bons resultados na variante de pares ter alterado o sistema de rankings, fazendo com que os jogadores que se dedicavam à variante de pares e não tivessem pontos em singulares, não tivessem prioridade na “entrada” dos quadros.

Uma outra razão foi devido à existência dentro de mim de um “bichinho” que me motivava a dedicar-me a treinador a tempo inteiro para evoluir com o objectivo de estar ligado ao top do ténis mundial um dia.

Ainda que tenha competido até aos 23 anos, começou a treinar muito cedo (penso que o fez ainda com 17 anos). O que o motivou a enveredar por uma carreira de treinador?

AVG: Desde muito novo já me interessava em treinar e ajudar jogadores apesar de não o fazer. Aos 17 anos foi quando tudo começou com o Pedro Bivar no Ace Team com atletas mais novos ligados à competição. O que mais me motivou em ser treinador foi o sentimento que poderia tirar melhor rendimento dos atletas e sendo simultaneamente uma satisfação enorme vê-los evoluir. Essa motivação também veio muito do próprio Pedro Bivar com quem aprendi muito.

Como foi o trajecto como treinador até resolver emigrar para os Estados Unidos?

AVG: Como disse anteriormente comecei aos 17 anos no Ace Team. Dos 17 aos 23 anos fui alternando a minha vida de treinador e de jogador profissional. Como treinador dei treinos de competição, como também dava aulas de mini-ténis, a adultos, etc, em vários clubes de Lisboa como o Ginásio Clube Português, o Colégio Pina Manique, a escola de ténis Nuno Café na Boa Hora e também no Ace Team (Alfragide). Nesse período houve momentos (cerca de 2 anos) que estive em Espanha a treinar e competir, mas foi aos 23 anos que tomei a decisão de me tornar treinador a tempo inteiro, altura que regressei a Alfragide (Ace Team) para começar um caminho que tanto queria seguir.

Chegou a treinar numa academia em Espanha frequentada entre outros por J. C. Ferrero ou D. Ferrer. Porquê a opção de ir para os Estados Unidos uma vez que a Espanha era já um ícone do ténis mundial?

AVG: Sim, treinei em Espanha com o D. Ferrer entre outros que estão no top do ténis mundial. O André Lopes também estava nessa mesma academia na altura. A minha ida para os Estados Unidos foi simplesmente porque queria ter uma experiência nova de vida num país onde pouco conhecia da sua metodologia/sistema de treinos e mentalidade. Como já tinha estado em Portugal e Espanha (potência do ténis mundial) e sentia que já tinha absorvido bastante informação do ténis europeu, queria obter mais conhecimento de outra potência, até para enriquecer como treinador, ganhando mais experiência e evoluir. Não posso deixar de referir que a nível monetário era também bastante aliciante

Como foi a adaptação nos Estados Unidos quer ao país quer em termos profissionais?

AVG: A adaptação foi bastante positiva já que estava disponível mentalmente para qualquer tipo de oportunidade e experiência a nível profissional ou pessoal. A mentalidade americana é algo “capitalista” mas a capacidade de trabalho é fundamental. Foi então que compreendi que para fazer a diferença no mundo do ténis tinha que ser melhor e mais eficiente no que estava a fazer.

A bielorrussa V. Azarenka é a sua primeira pupila profissional. Como surgiu essa oportunidade?

AVG: Quer dizer, antes da Victoria já tinha trabalhado com outros jogadores profissionais. Jennifer Capriati como hitting partner (parceiro de treino) e outros americanos “rankeados” dentro do Top 300.

A oportunidade surgiu em Tampa onde eu estava instalado, na Academia Harry Hopman@Saddlebrok Resort. Nessa altura eu não estava a trabalhar para a academia e por isso estava disponível para trabalhar só com um jogador a tempo inteiro. Por essa razão, os patrocinadores da Victoria (eu treinava a filha deles ocasionalmente) perguntaram-me se estaria interessado em experimentar durante sensivelmente 2 meses, viajar com ela, antes e durante o US Open Juniors, e a seguir ao Open viajar para a Ásia para outros torneios. Na mesma altura tinha a oportunidade de ser o “hitting partner” da Justine Hénin, durante esse mês, mas como a Victoria era ainda muito jovem e com margem de progressão enorme seria mais aliciante para a minha carreira como treinador, por isso tomei essa mesma opção.

É ainda um treinador muito jovem. Tem pretensões um dia treinar em Portugal ou trabalhar com um tenista português?

AVG: As minhas portas estão sempre abertas para ouvir propostas, projectos, etc ; portanto, pode acontecer treinar em Portugal bem como treinar um tenista português. No entanto, se isso acontecer um dia seja como treinador, consultor ou director técnico o projecto terá de ser profissional e bem planeado. Isto para que as pessoas envolvidas, eu próprio e o jogador não percam nem tempo nem dinheiro para que atinjam os objectivos passo a passo.

Não se considera um pouco esquecido em Portugal, tendo em conta que poderia constituir uma mais-valia para o ténis luso?

AVG: Talvez não se fale tanto do meu trabalho em Portugal, mas eu pessoalmente prefiro que o meu trabalho seja mais valorizado a nível internacional do que a nível nacional apesar de achar que posso ser uma mais-valia para o ténis nacional, sem menosprezar os treinadores portugueses que tem também capacidades para fazer com que o ténis português evolua.

A Carreira de Azarenka

Como foi a sua adaptação com uma tenista originária de uma cultura completamente diferente da nossa?

AVG: Foi bastante fácil já que a Victoria era bastante nova e já tinha viajado bastante. Mas por ser bastante jovem tentei educá-la da melhor maneira até porque estava mais tempo comigo do que em casa com os pais. Apesar dos russos, e neste caso a bielorrussa serem bastante “frios”, como treinador tive de me adaptar da melhor maneira, já que essa “frieza” os ajuda muito a ganhar encontros.

Quais as características que aponta como mais relevantes no jogo de Victoria? 

AVG: É a sua esquerda e a sua competitividade. O serviço também  mas ainda lhe faltam ajustes para que se torne uma arma.

Em Maio de 2007 (por altura do Estoril Open numa entrevista ao DN) dizia que seria muito bom colocar a Victoria no Top-10 mundial. Passados dois anos e pouco ela ocupa a 9ª posição WTA. Até onde pode ir a bielorrussa?

AVG: No meu ponto de vista, tem potencial para estar dentro do Top-10 de forma consistente e um dia quando ganhar mais maturidade e experiência poderá chegar ao Top-5 mundial.

No ano de 2009 a sua pupila venceu 3 torneios do WTA Tour, entre os quais o WTA Mandatory de Miami. Que momento realça na actual temporada?

AVG: Sem dúvida tenho que realçar o WTA Mandatory de Miami pela importância do torneio (considerado o 5º torneio mais importante logo a seguir aos Grand Slams), mas não posso esquecer o primeiro título em Brisbane, onde lhe deu muita confiança e lhe fez acreditar que podia vencer mais torneios.

Com a retirada de J. Hénin (curiosamente a voltar à competição em Janeiro de 2010), não houve até agora uma tenista que “vincasse” a sua superioridade no circuito. Como vê o actual circuito feminino?

AVG: O circuito feminino está bastante forte e mais homogéneo em relação há alguns anos. É verdade que dentro das Top-10 o nível não está tão elevado em relação ao período em que Justine, Clijsters ou Hingis faziam parte dessa elite. Mas ao mesmo tempo, na minha opinião, o nível subiu bastante entre as jogadoras que estão no top-40 mundial. Melhoraram muito comparativamente a vários anos atrás. Agora estas jogadoras podem vencer qualquer tenista do Top-10, como aliás se tem verificado nos últimos torneios.

Para si quem são os tenistas mais talentosos no circuito ATP quer no circuito WTA? E os tenistas emergentes no actual panorama do ténis internacional?

AVG: Para ser sincero tem de ser quase todos talentosos, mas os que me “saltam” mais à vista é o Roger Federer, Andy Murray, T. Haas e T. Berdych. No circuito WTA gosto muito da Clijsters, Ivanovic, Kuznetsova e Hénin se voltar em 2010.

Como vê os repetidos regressos que tem acontecido no circuito feminino. Clijsters e Hénin são os mais recentes exemplos disso mesmo. Acha que esse fenómeno vai continuar a acontecer e quais são as razões para tal?

AVG: Sim, esse fenómeno vai continuar a acontecer… não podemos deixar de referenciar a Kimiko Date (ex-nº 4 mundial) que voltou ao circuito este ano com cerca de 38 anos. São várias as razões. Os tenistas habituam-se a uma vida “nómada” e quando decidem deixar de jogar no circuito o estilo de vida muda completamente. Outra das razões pode ser a falta de competição, ou seja atletas de alta competição gostam de competir, vencer até mesmo sentir a pressão antes e durante os encontros.

O Ténis Português

Em Maio de 2007 considerava o futuro do ténis luso algo sombrio. Ainda pensa o mesmo?

AVG: O ténis português melhorou bastante devido aos bons resultados do Frederico Gil, Rui Machado, Michelle Brito e da Neuza Silva. Com estes resultados, o ténis português deixou de ser “sombrio”, e fez com que tantos os jogadores mais jovens como os treinadores adquirissem mais confiança nas suas possibilidades e trabalho. Espero que o trabalho desenvolvido pelos treinadores e toda a confiança e positivismo que existe à volta da modalidade continue, para que deixe de ser “sombria”, e passe a ser “iluminada” durante vários anos, só isso irá produzir jogadores de top.

Como vê a evolução de F. Gil e R. Machado no circuito ATP e de Michelle Brito no circuito feminino?

AVG: A evolução do Frederico tem sido incrível e com muito mérito para ele e para o seu ex-treinador, João Cunha e Silva. Principalmente tem vindo a melhorar bastante o seu jogo e mentalmente ficou muito forte. O Rui merece tudo o que lhe está a acontecer, já que esteve parado durante um longo período de tempo devido a lesões, e teve a “CORAGEM” e a força de vontade para voltar a treinar e agora os resultados estão a aparecer, quase com a entrada no Top-100 mundial. Em relação à Michelle a nível de ranking tem melhorado bastante, a nível de jogo (técnico-táctico) evoluiu, mas acredito que poderia tê-lo feito mais neste último ano. Ainda é muito nova e os resultados levam algum tempo a aparecer. A Michelle está num processo de evolução e para isso é preciso ser paciente e acreditar.

Como vê o trabalho desenvolvido por Cunha e Silva e Nuno Marques até traçando um paralelo com o seu trajecto?

AVG: O João tem feito um trabalho muito positivo com o Frederico e com o Rui. O Nuno pelo que sei é o treinador da Maria João Kohler que tem ganho alguns “10.000 dólares”, e como treinador do Leonardo Tavares acho que tem feito um óptimo trabalho considerando todas as lesões que o “Leo” tem vindo a ter. Tanto o João como o Nuno tem muita experiência como jogadores e isso é sem dúvida uma mais-valia.

Na chamada segunda linha do ténis português existem jovens bastante talentosos. Tem acompanhado a evolução de algum em particular e se sim qual considera estar nas “pisadas” de uma grande carreira no futuro?

AVG: Para ser sincero não estou muito por dentro das camadas mais jovens, mas sei que existem jogadores em Portugal com potencial para ser trabalhado. Nomes  esses como Maria João Kohler, Patrícia Martins, Vasco Mensurado, Frederico Silva… com certeza existem mais uns quantos…

No contexto do desporto em Portugal o ténis tem vindo a ganhar algum espaço. Considera o ténis em Portugal um desporto elitista, só possível para aqueles que possuem grandes condições económicas? Até tendo a sua experiência como tenista, primeiro, e agora como treinador ainda que à distância?

AVG: Apesar de já ter sido, neste momento não considero o ténis um desporto elitista em Portugal. Para se jogar “ténis social”, para ter aulas de iniciação ou pré-competição não é muito caro e parece-me que seja acessível em termos financeiros. Por outro lado, para se investir numa carreira profissional é bastante dispendioso e para isso é sem dúvida preciso ter condições económicas para sustentar as despesas quer sejam viagens, alimentação, treinador, preparador físico, etc.  

O que pensa sobre o momento actual do ténis português no que diz respeito ao seu dirigismo e das infra-estruturas abrigadas em solo luso?

AVG: Em relação ao dirigismo não sei se tem vindo a ser o melhor, mas como não tenho estado em Portugal não posso falar muito desse aspecto. Existem boas condições em Portugal de infra-estruturas, agora ainda para mais com o novo complexo coberto no Jamor. Temos as infra-estruturas necessárias para produzir jogadores de alta competição.

Como vê o Complexo de Alto Rendimento abrigado no Jamor, e a sua importância para o futuro da modalidade em Portugal?

AVG: O Complexo é sem dúvida uma mais-valia para o ténis nacional e ainda mais para os tenistas profissionais portugueses e para as jovens promessas nacionais. Foi basicamente importante porque não existem muitos complexos de ténis cobertos nessa superfície na área de Lisboa.

 
 
 

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