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A Carreira Pessoal
O que o motivou a experimentar o ténis e
com que idade o fez?
António
Van Grichen: Comecei a jogar ténis aos 6 anos e,
para ser sincero, com essa idade não me
lembro que tipo de motivação tinha, mas
sei que foi principalmente através dos
meus pais que me incentivaram a ter
aulas de ténis.
O António como jogador, destacou-se por
vencer um campeonato absoluto na
variante de pares além de defender as
cores lusas na Taça Davis. Como se
definia como atleta e como tenista em
particular?
AVG: Como atleta era bastante versátil,
rápido e polivalente, ou seja, saí-me
bem em vários desportos. Como tenista
era um jogador com bastante talento
(como se viu o talento não é tudo),
bastante agressivo, gostava de ser
ofensivo, por vezes revelava-me um pouco
impaciente; gostava de utilizar os meus
“volleys” para acabar os pontos, por
isso mesmo jogava mais na variante de
pares. Sempre tive melhores resultados
nessa variante.
Qual foi o melhor momento enquanto
tenista e por que razão abandonou a
carreira de tenista profissional com 23
anos?
AVG: O melhor momento foi sem dúvida ter
jogado a Taça Davis frente à Inglaterra,
mas não posso esquecer o “satélite” que
venci com o Nuno Marques (deu-me um
enorme prazer jogar ao seu lado), isto
sem esquecer alguns títulos em “futures”
de 15.000 dólares, sempre na variante de
pares. Decidi abandonar a carreira de
tenista profissional por várias razões:
a primeira foi o facto do “ATP” na
altura em que eu estava a registar bons
resultados na variante de pares ter
alterado o sistema de rankings, fazendo
com que os jogadores que se dedicavam à
variante de pares e não tivessem pontos
em singulares, não tivessem prioridade
na “entrada” dos quadros.
Uma outra razão foi devido à existência
dentro de mim de um “bichinho” que me
motivava a dedicar-me a treinador a
tempo inteiro para evoluir com o
objectivo de estar ligado ao top do
ténis mundial um dia.
Ainda que tenha competido até aos 23
anos, começou a treinar muito cedo
(penso que o fez ainda com 17 anos). O
que o motivou a enveredar por uma
carreira de treinador?
AVG: Desde muito novo já me interessava em
treinar e ajudar jogadores apesar de não
o fazer. Aos 17 anos foi quando tudo
começou com o Pedro Bivar no Ace Team
com atletas mais novos ligados à
competição. O que mais me motivou em ser
treinador foi o sentimento que poderia
tirar melhor rendimento dos atletas e
sendo simultaneamente uma satisfação
enorme vê-los evoluir. Essa motivação
também veio muito do próprio Pedro Bivar
com quem aprendi muito.
Como foi o trajecto como treinador até
resolver emigrar para os Estados Unidos?
AVG: Como disse anteriormente comecei aos
17 anos no Ace Team. Dos 17 aos 23 anos
fui alternando a minha vida de treinador
e de jogador profissional. Como
treinador dei treinos de competição,
como também dava aulas de mini-ténis, a
adultos, etc, em vários clubes de Lisboa
como o Ginásio Clube Português, o
Colégio Pina Manique, a escola de ténis
Nuno Café na Boa Hora e também no Ace
Team (Alfragide). Nesse período houve
momentos (cerca de 2 anos) que estive em
Espanha a treinar e competir, mas foi
aos 23 anos que tomei a decisão de me
tornar treinador a tempo inteiro, altura
que regressei a Alfragide (Ace Team)
para começar um caminho que tanto queria
seguir.
Chegou a treinar numa academia em
Espanha frequentada entre outros por J.
C. Ferrero ou D. Ferrer. Porquê a opção
de ir para os Estados Unidos uma vez que
a Espanha era já um ícone do ténis
mundial?
AVG: Sim, treinei em Espanha com o D. Ferrer entre outros que estão no top do
ténis mundial. O André Lopes também
estava nessa mesma academia na altura. A
minha ida para os Estados Unidos foi
simplesmente porque queria ter uma
experiência nova de vida num país onde
pouco conhecia da sua
metodologia/sistema de treinos e
mentalidade. Como já tinha estado em
Portugal e Espanha (potência do ténis
mundial) e sentia que já tinha absorvido
bastante informação do ténis europeu,
queria obter mais conhecimento de outra
potência, até para enriquecer como
treinador, ganhando mais experiência e
evoluir. Não posso deixar de referir que
a nível monetário era também bastante
aliciante
Como foi a adaptação nos Estados Unidos
quer ao país quer em termos
profissionais?
AVG: A adaptação foi bastante positiva já
que estava disponível mentalmente para
qualquer tipo de oportunidade e
experiência a nível profissional ou
pessoal. A mentalidade americana é algo
“capitalista” mas a capacidade de
trabalho é fundamental. Foi então que
compreendi que para fazer a diferença no
mundo do ténis tinha que ser melhor e
mais eficiente no que estava a fazer.
A bielorrussa V. Azarenka é a sua
primeira pupila profissional. Como
surgiu essa oportunidade?
AVG: Quer dizer, antes da Victoria já
tinha trabalhado com outros jogadores
profissionais. Jennifer Capriati como
hitting partner (parceiro de treino) e
outros americanos “rankeados” dentro do
Top 300.
A oportunidade surgiu em Tampa onde eu
estava instalado, na Academia Harry
Hopman@Saddlebrok Resort. Nessa altura
eu não estava a trabalhar para a
academia e por isso estava disponível
para trabalhar só com um jogador a tempo
inteiro. Por essa razão, os
patrocinadores da Victoria (eu treinava
a filha deles ocasionalmente)
perguntaram-me se estaria interessado em
experimentar durante sensivelmente 2
meses, viajar com ela, antes e durante o
US Open Juniors, e a seguir ao Open
viajar para a Ásia para outros torneios.
Na mesma altura tinha a oportunidade de
ser o “hitting partner” da Justine
Hénin, durante esse mês, mas como a
Victoria era ainda muito jovem e com
margem de progressão enorme seria mais
aliciante para a minha carreira como
treinador, por isso tomei essa mesma
opção.
É ainda um treinador muito jovem. Tem
pretensões um dia treinar em Portugal ou
trabalhar com um tenista português?
AVG: As minhas portas estão sempre abertas
para ouvir propostas, projectos, etc ;
portanto, pode acontecer treinar em
Portugal bem como treinar um tenista
português. No entanto, se isso acontecer
um dia seja como treinador, consultor ou
director técnico o projecto terá de ser
profissional e bem planeado. Isto para
que as pessoas envolvidas, eu próprio e
o jogador não percam nem tempo nem
dinheiro para que atinjam os objectivos
passo a passo.
Não se considera um pouco esquecido em
Portugal, tendo em conta que poderia
constituir uma mais-valia para o ténis
luso?
AVG: Talvez não se fale tanto do meu
trabalho em Portugal, mas eu
pessoalmente prefiro que o meu trabalho
seja mais valorizado a nível
internacional do que a nível nacional
apesar de achar que posso ser uma
mais-valia para o ténis nacional, sem
menosprezar os treinadores portugueses
que tem também capacidades para fazer
com que o ténis português evolua.
A Carreira de Azarenka
Como foi a sua adaptação com uma tenista
originária de uma cultura completamente
diferente da nossa?
AVG: Foi bastante fácil já que a Victoria
era bastante nova e já tinha viajado
bastante. Mas por ser bastante jovem
tentei educá-la da melhor maneira até
porque estava mais tempo comigo do que
em casa com os pais. Apesar dos russos,
e neste caso a bielorrussa serem
bastante “frios”, como treinador tive de
me adaptar da melhor maneira, já que
essa “frieza” os ajuda muito a ganhar
encontros.
Quais as características que aponta como
mais relevantes no jogo de Victoria?
AVG: É a sua esquerda e a sua
competitividade. O serviço também mas
ainda lhe faltam ajustes para que se
torne uma arma.
Em Maio de 2007 (por altura do Estoril
Open numa entrevista ao DN) dizia que
seria muito bom colocar a Victoria no
Top-10 mundial. Passados dois anos e
pouco ela ocupa a 9ª posição WTA. Até
onde pode ir a bielorrussa?
AVG: No meu ponto de vista, tem potencial
para estar dentro do Top-10 de forma
consistente e um dia quando ganhar mais
maturidade e experiência poderá chegar
ao Top-5 mundial.
No ano de 2009 a sua pupila venceu 3
torneios do WTA Tour, entre os quais o
WTA Mandatory de Miami. Que momento
realça na actual temporada?
AVG: Sem dúvida tenho que realçar o WTA
Mandatory de Miami pela importância do
torneio (considerado o 5º torneio mais
importante logo a seguir aos Grand
Slams), mas não posso esquecer o
primeiro título em Brisbane, onde lhe
deu muita confiança e lhe fez acreditar
que podia vencer mais torneios.
Com a retirada de J. Hénin (curiosamente
a voltar à competição em Janeiro de
2010), não houve até agora uma tenista
que “vincasse” a sua superioridade no
circuito. Como vê o actual circuito
feminino?
AVG: O circuito feminino está bastante
forte e mais homogéneo em relação há
alguns anos. É verdade que dentro das
Top-10 o nível não está tão elevado em
relação ao período em que Justine,
Clijsters ou Hingis faziam parte dessa
elite. Mas ao mesmo tempo, na minha
opinião, o nível subiu bastante entre as
jogadoras que estão no top-40 mundial.
Melhoraram muito comparativamente a
vários anos atrás. Agora estas jogadoras
podem vencer qualquer tenista do Top-10,
como aliás se tem verificado nos últimos
torneios.
Para si quem são os tenistas mais
talentosos no circuito ATP quer no
circuito WTA? E os tenistas emergentes
no actual panorama do ténis
internacional?
AVG: Para ser sincero tem de ser quase
todos talentosos, mas os que me “saltam”
mais à vista é o Roger Federer, Andy
Murray, T. Haas e T. Berdych. No
circuito WTA gosto muito da Clijsters,
Ivanovic, Kuznetsova e Hénin se voltar
em 2010.
Como vê os repetidos regressos que tem
acontecido no circuito feminino.
Clijsters e Hénin são os mais recentes
exemplos disso mesmo. Acha que esse
fenómeno vai continuar a acontecer e
quais são as razões para tal?
AVG: Sim, esse fenómeno vai continuar a
acontecer… não podemos deixar de
referenciar a Kimiko Date (ex-nº 4
mundial) que voltou ao circuito este ano
com cerca de 38 anos. São várias as
razões. Os tenistas habituam-se a uma
vida “nómada” e quando decidem deixar de
jogar no circuito o estilo de vida muda
completamente. Outra das razões pode ser
a falta de competição, ou seja atletas
de alta competição gostam de competir,
vencer até mesmo sentir a pressão antes
e durante os encontros.
O Ténis Português
Em Maio de 2007 considerava o futuro do
ténis luso algo sombrio. Ainda pensa o
mesmo?
AVG: O ténis português melhorou bastante
devido aos bons resultados do Frederico
Gil, Rui Machado, Michelle Brito e da
Neuza Silva. Com estes resultados, o
ténis português deixou de ser “sombrio”,
e fez com que tantos os jogadores mais
jovens como os treinadores adquirissem
mais confiança nas suas possibilidades e
trabalho. Espero que o trabalho
desenvolvido pelos treinadores e toda a
confiança e positivismo que existe à
volta da modalidade continue, para que
deixe de ser “sombria”, e passe a ser
“iluminada” durante vários anos, só isso
irá produzir jogadores de top.
Como vê a evolução de F. Gil e R.
Machado no circuito ATP e de Michelle
Brito no circuito feminino?
AVG: A evolução do Frederico tem sido
incrível e com muito mérito para ele e
para o seu ex-treinador, João Cunha e
Silva. Principalmente tem vindo a
melhorar bastante o seu jogo e
mentalmente ficou muito forte. O Rui
merece tudo o que lhe está a acontecer,
já que esteve parado durante um longo
período de tempo devido a lesões, e teve
a “CORAGEM” e a força de vontade para
voltar a treinar e agora os resultados
estão a aparecer, quase com a entrada no
Top-100 mundial. Em relação à Michelle a
nível de ranking tem melhorado bastante,
a nível de jogo (técnico-táctico)
evoluiu, mas acredito que poderia tê-lo
feito mais neste último ano. Ainda é
muito nova e os resultados levam algum
tempo a aparecer. A Michelle está num
processo de evolução e para isso é
preciso ser paciente e acreditar.
Como vê o trabalho desenvolvido por
Cunha e Silva e Nuno Marques até
traçando um paralelo com o seu trajecto?
AVG: O João tem feito um trabalho muito
positivo com o Frederico e com o Rui. O
Nuno pelo que sei é o treinador da Maria
João Kohler que tem ganho alguns “10.000
dólares”, e como treinador do Leonardo
Tavares acho que tem feito um óptimo
trabalho considerando todas as lesões
que o “Leo” tem vindo a ter. Tanto o
João como o Nuno tem muita experiência
como jogadores e isso é sem dúvida uma
mais-valia.
Na chamada segunda linha do ténis
português existem jovens bastante
talentosos. Tem acompanhado a evolução
de algum em particular e se sim qual
considera estar nas “pisadas” de uma
grande carreira no futuro?
AVG: Para ser sincero não estou muito por
dentro das camadas mais jovens, mas sei
que existem jogadores em Portugal com
potencial para ser trabalhado. Nomes
esses como Maria João Kohler, Patrícia
Martins, Vasco Mensurado, Frederico
Silva… com certeza existem mais uns
quantos…
No contexto do desporto em Portugal o
ténis tem vindo a ganhar algum espaço.
Considera o ténis em Portugal um
desporto elitista, só possível para
aqueles que possuem grandes condições
económicas? Até tendo a sua experiência
como tenista, primeiro, e agora como
treinador ainda que à distância?
AVG: Apesar de já ter sido, neste momento
não considero o ténis um desporto
elitista em Portugal. Para se jogar
“ténis social”, para ter aulas de
iniciação ou pré-competição não é muito
caro e parece-me que seja acessível em
termos financeiros. Por outro lado, para
se investir numa carreira profissional é
bastante dispendioso e para isso é sem
dúvida preciso ter condições económicas
para sustentar as despesas quer sejam
viagens, alimentação, treinador,
preparador físico, etc.
O que pensa sobre o momento actual do
ténis português no que diz respeito ao
seu dirigismo e das infra-estruturas
abrigadas em solo luso?
AVG: Em relação ao dirigismo não sei se
tem vindo a ser o melhor, mas como não
tenho estado em Portugal não posso falar
muito desse aspecto. Existem boas
condições em Portugal de
infra-estruturas, agora ainda para mais
com o novo complexo coberto no Jamor.
Temos as infra-estruturas necessárias
para produzir jogadores de alta
competição.
Como vê o
Complexo de Alto Rendimento
abrigado no Jamor, e a sua importância
para o futuro da modalidade em Portugal?
AVG: O
Complexo é sem dúvida uma
mais-valia para o ténis nacional e ainda
mais para os tenistas profissionais
portugueses e para as jovens promessas
nacionais. Foi basicamente importante
porque não existem muitos complexos de
ténis cobertos nessa superfície na área
de Lisboa. |