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Neste passado sábado, 13 de Setembro de
2008, parte da equipa do Luso Ténis teve o prazer de se
deslocar ao Clube de Ténis do Estoril para assistir às
finais de singulares do Campeonato Nacional Absoluto
deste ano. Para nós, era a nossa estreia neste clube e
as condições pareciam excelentes, com vários courts à
disposição e um belo ambiente gerado na zona do bar, de
onde se podiam assistir aos encontros no court
principal.
As finais deste campeonato foram protagonizadas por
Neuza Silva e Frederica Piedade na vertente feminina e
por Rui Machado e Leonardo Tavares na competição
masculina. À partida, os encontros assumiam-se como
embates bem interessantes.

Neuza e Frederica são adversárias de longa data e a par
com Ana Catarina Nogueira constituem uma geração do
ténis feminino nacional. Entre elas já se disputaram
vários títulos nacionais, quer neste campeonatos como no
Masters que normalmente encerra a temporada. Se no
início desta década Frederica estava na mó de cima,
liderando o pelotão nacional nos torneios ITF
internacionais e revelando superioridade relativamente a
estas adversárias, os últimos anos têm sido marcados por
um ascendente de Neuza Silva, que foi mesmo líder
nacional durante mais de um ano só para recentemente ter
sido ultrapassada pela jovem sensação Michelle Brito,
jogadora de outros campeonatos e outras oportunidades.
Recentemente Neuza e Frederica defrontaram-se em Vigo,
num torneio ITF de 25.000$, tendo a vitória sorrido à
setubalense em dois parciais. No percurso deste
campeonato, ambas chegaram com relativa tranquilidade à
final. Neuza não foi verdadeiramente testada, não tendo
cedido qualquer set até à final e batendo pelo
caminho Joana Pangaio, Charlotte Pires e Bárbara Luz.
Por sua vez, Frederica teve mais dificuldades,
especialmente no embate dos quartos de final diante de
Cátia Rodrigues, onde necessitou de recorrer a 3 sets
para levar de vencida a jovem adversária. Nas
meias-finais, Piedade derrotou Maria João Koehler,
recente campeã de sub-18, em dois sets, num
encontro do qual se esperava mais equilíbrio e onde a
mais velha das duas jogadoras soube lidar melhor com as
condições adversas que se fizeram sentir no Estoril (o
vento foi mesmo um factor decisivo ao longo de toda a
semana, dificultando muito a tarefa dos atletas e a
prática da modalidade).
Neste sábado, contudo, o vento não desempenhou um papel
tão importante. Na verdade, e apesar de vez em quando
surgir uma rajada mais forte, foi possível praticar
ténis sem que o vento prejudicasse tanto as
trajectórias. A final feminina abriu as hostes do dia e
a setubalense Neuza Silva entrou melhor no encontro,
adiantando-se logo com um break de vantagem. O
início do jogo foi um po uco
“morno”, com as duas atletas a enveredarem por trocas de
bola com muito slice instigadas pela esquerda de
Neuza, que introduzia quebras e variações de ritmo no
encontro. Nos primeiros jogos, poucas jogadas longas
foram vistas. A partir de metade do 1º set, o
jogo intensificou-se e os winners começaram a
surgir com mais regularidade. Frederica apresentava um
1º serviço mais forte e mais colocado, o que lhe
conferia alguns pontos grátis. Por sua vez, Neuza não
possui no serviço uma arma, bem pelo contrário, tendo um
2º saque bem atacável. Ao longo do 1º set e após
a quebra de serviço inicial, as duas atletas foram
conseguindo defender os seus saques, conseguindo salvar
de parte a parte as oportunidades que foram surgindo
para haver novo break. Quando Neuza servia para
fazer o 5-3, consegue vencer esse jogo numa longa
batalha de vantagens, tendo defendido um break-point.
Este jogo pareceu ter afectado Frederica que de seguida
se mostrou desinspirada e “entregou” o parcial a Silva
por 6-3. Uma das armas mais utilizadas pela pupila de
Paulo Lucas foi o drop-shot, quase sempre bem
sucedido. Esta pancada foi muitas vezes bem executada
tendo mesmo um ressalto invertido, ideal para dificultar
ainda mais a tarefa da adversária.
No 2º set, o encontro permaneceu equilibrado e só
ao 6º jogo é que Neuza conseguiu quebrar o serviço a
Frederica, adiantando-se para 4-2 e confirmando de
seguida no seu serviço essa vantagem para fazer o 5-2.
Piedade ainda reduziu mas o título já não fugiria a
Neuza, que serviu para o encontro a duplo 6-3.
Como resumo da final, viu-se um embate bem equilibrado
com Neuza a mostrar-se mais forte e segura nos momentos
chave. Frederica dispôs de algumas oportunidades para
quebrar o serviço à adversária mas nunca o conseguiu
fazer. A atleta natural do Estoril tomou mais riscos ao
longo do encontro tendo arrancado algumas pancadas de
belo efeito, contudo também cometeu um maior número de
erros não forçados, que provocaram este desfecho.
Este foi o quarto título nacional para Neuza Silva, que
já tinha conquistado o troféu em 2003, 2006 e 2007.
Frederica Piedade não conseguiu recuperar o título que
venceu em 2001 e 2002.
No final do encontro e em declarações exclusivas ao Luso
Ténis, Miguel Horta, pai de Frederica Piedade, deixou a
sua opinião sobre o encontro: “Neuza esteve muito bem
tacticamente ao longo de todo o encontro, ao contrário
de Frederica, que não conseguiu impôr a sua estratégia
em jogo”.
Na cerimónia de entrega dos prémios, Frederica referiu
que o jogo não lhe tinha corrido bem mas realçou o bom
jogo da adversária enquanto Neuza destacou o “jogo
bonito que foi praticado nesta final”, revelando ainda
que entrou “muito concentrada e nada nervosa”. Ana
Catarina Nogueira recebeu o prémio de fair-play,
para grande júbilo de um vasto número de apoiantes na
bancada.
Na conferência de imprensa, Neuza “brincou” com o quarto
título, referindo que o nº4 era o seu favorito (4 de
Maio é o dia do seu aniversário) e que por isso este
título era especial. Para o resto da temporada, Neuza
referiu que vai partir para o Estados Unidos para
disputar, por agora, 4 torneios com o objectivo de
entrar no top 150 do ranking WTA. Quando questionada
sobre os objectivos para o resto da temporada, Frederica
voltou a referir que neste momento não coloca objectivos
a longo prazo mas que o término do ano no top 200 seria
uma boa meta a atingir.
Contudo, o momento mais tenso da conferência de imprensa
viveu-se quando Pedro Carvalho questionou as jogadoras
sobre a ausência de Michelle Brito neste Campeonato
Nacional. Citando as suas palavras, Carvalho referiu
“Durante alguns anos e na altura em que a Frederica era
a nº 1 nacional, acabou por não disputar alguns
campeonatos nacionais, deixando sempre no ar aquela
sensação de que não seria um verdadeiro campeonato
nacional sem a sua presença. Neste momento, Michelle
Brito é a nova nº1 nacional e também não participou,
isso deixa uma mancha nesta vitória? A Michelle faz
falta neste torneio?”. Neuza Silva respondeu prontamente
e disse “só faz falta quem cá está.”. Pedro Carvalho
reforça a pergunta e insiste “Mas não achas que a tua
vitória saía valorizada se a Michelle estivesse aqui
presente?” ao qual Neuza responde “Não jogo a pensar na
Michelle, jogo a pensar no meu jogo.”
Pouco depois desta final feminina, iniciava-se a final
da competição masculina. Rui Machado opunha-se a
Leonardo Tavares naquele que se esperava um encontro bem
interessante. Rui Machado partia como claro favorito
dada a época que tem vindo a efectuar. Contudo, Leonardo
parecia também em crescendo de forma, numa altura em que
regressou à competição internacional co m
alguma regularidade após meses de ausência, tendo mesmo
chegado à final de um future na Alemanha. Para
além disso, Leonardo Tavares normalmente apresenta o
jogo extremamente afinado para este tipo de competições
internas, apresentando a sua melhor forma por esta
altura (como bem demonstram os seus 4 títulos do Masters
e o campeonato nacional que venceu em 2003). Os jogos
entre jogadores portugueses apresentam também um elevado
grau imprevisível uma vez que são encontros com muito em
jogo entre atletas que se conhecem muito bem. Rui
Machado procurava reaver o título conquistado em 2005,
na altura na final diante do actual nº 1 nacional
Frederico Gil.
Se o jogo da final feminina acabou por ter uma história
bastante simples, a final masculina ficou marcada por um
domínio absoluto de Rui Machado num encontro curto e sem
grandes motivos de interesse. Desde o 1º jogo que se
denotou um Leonardo Tavares algo nervoso, cometendo
vários erros. Cedeu o seu jogo de serviço logo de
entrada. Embalado por esta quebra inicial, Machado
adiantou-se para 4-0, mostrando um nível e intensidade
de jogo bem superiores aos do pupilo de Nuno Marques. As
jogadas ora terminavam rápido com um erro de Tavares ou
se prolongavam com Rui Machado a impôr um ritmo
impressionante de fundo de court para acabar em
winner seu ou erro do adversário. Leonardo ainda
conseguiu aguentar o seu jogo de serviço e reduzir para
4-1 mas rapidamente se voltou à toada inicial e Machado
fechou o parcial por 6-1 perante uma crescente
frustração do portuense. No 2º set, Rui Machado
adiantou-se novamente para 4-0 num altura em que Tavares
já se encontrava de cabeça perdida e com um estilo de
jogo de “tudo ou nada”. Graças a uma série de respostas
ao serviço muito agressivas, Leonardo ainda conseguiu
pontuar no 2º parcial ao quebrar o algarvio e reduzir
para 4-1 mas foi novamente sol de pouca dura, com
Machado a concluir facilmente o encontro por duplo 6-1.
No final do jogo houve um reconhecimento de
superioridade de Machado, neste momento a praticar um
ténis claramente superior ao do seu adversário, ainda
assim ficou a clara sensação de o jogo poderia ter sido
bem mais equilibrado se Leonardo tivesse apresentado o
seu ténis, completamente ausente nesta final. Este
título vem reforçar a época fantástica do algarvio, que
seguramente apontará baterias para terminar o ano em
beleza, ao nível do que tem feito até agora.
Em declarações durante a cerimónia de entrega dos
prémios, Leonardo mostrou-se claramente frustrado e
cabisbaixo, parecendo até mesmo envergonhado pelo nível
apresentado. Apesar da exibição, o portuense não tem que
se envergonhar da sua semana, tendo sido um finalista
claro e merecido e apenas perdendo diante de um jogador
que efectivamente se encontra neste momento alguns furos
acima de si. O campeão nacional agradeceu a presença do
seu pai e da namorada e reforçou a excelente organização
do torneio, agradecendo a todos os intervenie ntes
o modo como contribuíram para uma bela semana de
competição. Reforçou ainda a ideia de que o clube de
ténis do Estoril já começa a ser um local especial para
ele visto se ter sagrado campeão nacional e por Portugal
ter subido de divisão na Taça Davis naquele mesmo court.
Na conferência de imprensa os ânimos mantiveram-se.
Leonardo esteve cabisbaixo durante toda a entrevista,
tendo apenas referido que “sentiu desde o princípio do
encontro que não teria qualquer hipótese tendo em conta
o ténis que estava a jogar”. A maior parte das perguntas
foram dirigidas a Machado, que sublinhou o potencial do
adversário, “sempre fustigado por lesões que o impedem
de jogar com a consistência necessária e desejada”.
Quando questionado sobre a diferença de ritmo
apresentada pelos dois, referiu “chego a este nacional
com muitos jogos nas pernas, provavelmente demasiados
para esta fase da temporada, e que isso obviamente se
traduz em court”. O Luso Ténis teve a oportunidade de
fazer duas perguntas, uma delas relativas à raça
apresentada em court. Mesmo num jogo em que a sua
vantagem nunca esteve em risco, o jogador mostrou sempre
elevados níveis de auto-motivação e de força, o que nos
levou a questionar se essa não seria uma das suas
principais armas e causas para este sucesso. Machado
respondeu “no dia em que não mostrar garra e vontade de
vencer é porque deixei de gostar de jogar ténis”.
Esclarecedor, no mínimo. A nossa segunda pergunta surgiu
na sequência da anterior e teve a ver com a motivação
obtida com o resultado do US Open (onde atingiu a 2ª
ronda do quadro principal, vindo da fase de qualificação
e perdendo apenas em 5 sets diante de Fernando
Verdasco, nº 13 mundial na altura), se o facto de ter
est ado
tão bem num grande palco não funcionava como um grande
estímulo para continuar a trabalhar, de modo a subir no
ranking e assim poder participar com maior
regularidade nesse tipo de torneios. O português deu uma
resposta bem interessante e curiosa “de facto após esse
resultado tive que fazer um trabalho mental específico
uma vez que é fácil um resultado desses facilmente
afectar a nossa cabeça…tinha programado competir na
semana seguinte mas acabei por parar para pôr a cabeça
em ordem”. Pessoalmente, gostei do que ouvi porque
demonstra claramente que o trabalho de equipa por detrás
de Rui Machado não pára e efectivamente essa gestão de
calendário e das próprias emoções do jogador pareceu-me
inteligente e essencial.
Estes dois jogadores que neste court foram rivais vão
ter agora de unir esforços e juntamente com Gastão Elias
e João Sousa bater-se com a selecção ucraniana em solo
“inimigo” para defender as cores nacionais. Sem
Frederico Gil não será uma tarefa nada fácil mas o nosso
leque de jogadores, com as prováveis titularidades de
Machado e Elias, tem um nível suficiente para discutir a
eliminatória com a selecção adversária. |