Após uma semana com vários
portugueses em acção um pouco por todos os courts do
torneio, tanto na vertente de singulares como em pares,
os jogos importantes começavam a concentrar-se quase
todos no court principal.
Neste
sábado, o primeiro motivo de atracção era o encontro
entre Carlos Boluda e o seu companheiro de treino,
Javier Marti, jogador de 16 anos que tem apostado mais
no circuito sénior durante este ano. Já nos encontros
anteriores tinha dado a sensação de que poderia ser um
excelente teste ao favorito do torneio, Boluda. E tal
sucedeu. Marti venceu o 1º parcial por claros 6-2.
Boluda respondeu e venceu o seguinte por 6-1. Quando o
marcador indicava 4-3 para Boluda no 3º set cheguei ao
Parque de Jogos. Marti encontrava-se a ser assistido
embora não saiba precisar exactamente a quê. Boluda ia
servir de seguida, por isso detinha um break de
vantagem. Quando a partida foi retomada, Marti adquiriu
imediatamente vantagem para recuperar o break,
tendo concretizado essa oportunidade com uma série de
pontos em que se mostrou mais ofensivo do que Boluda,
fazendo grandes variações de jogo, ora batendo esquerda
em top-spin (a uma mão), ora slice ou até mesmo alguns
amorties, feito raro ao longo desta semana. Contudo,
quando serviu de seguida, não soube gerir bem o seu
leque de opções e acusando também algum desgaste físico,
precipitou-se em algumas jogadas, entregando o break a
Boluda. Desta vez, o “pequeno Nadal” não se intimidou e
fechou mesmo o encontro, gritando um “Vamos!” no final
da partida. Como viria a dizer mais tarde, este foi o
desafio mais difícil que Boluda teve de enfrentar ao
longo desta semana.
A outra
meia-final seria disputada imediatamente a seguir.
Martim Trueva defrontava o gigante britânico Alistair
Barnes, que entretanto na noite anterior tinha fechado o
encontro diante de Francisco Dias por 6-0 6-3. Pelo que
tínhamos visto no dia anterior, este não seria um
encontro fácil para o português. Os dois já tinham
inclusivamente se defrontado no passado, tendo na altura
a vitória sorrido a Trueva em 3 sets.
O jogo
não começou muito bem para o português que sofreu o
break e viu-se com uma desvantagem de 2-0 após bons
serviços do inglês. A partir daí, Trueva estabilizou o
seu jogo e consegue ir ganhando algum ascendente
relativamente a Barnes, aproveitando uma série de pontos
mal perdidos pelo britânico ao enviar para a rede uma
série de bolas curtas, relativamente fáceis de concluir.
Martim fazia mesmo a vida negra a Barnes, deslocando-se
muito bem na linha de fundo e defendendo-se de modo
lutador com slices ora de esquerda ora de direita,
quando obrigado a enormes deslocações na linha de fundo.
Um desses pontos ficou particularmente na memória quando
Trueva teve que percorrer um lado ao outro do court três
ou quatro vezes, com Barnes a subir progressivamente à
rede e com Martim a disferir um passing shot
cruzado em esforço para grande gáudio do público. Este
ponto valeu-lhe o 5-2 no 1º set, tendo fechado o 1º
parcial no jogo seguinte.
No 2º
set, Martim Trueva mantém a toada e vence o seu sétimo
jogo consecutivo até que finalmente é quebrado ao enviar
uma bola muito longa. A quebra de serviço fez bem ao
inglês, que consegui respirar e começou a pressionar
mais a esquerda do português. Barnes era canhoto e
aplicava uma direita muito spinada para a esquerda do
português. Trueva parecia ter muito mais dificuldades em
lidar com este tipo de bola, acabando por permitir a
entrada em court do britânico para terminar o ponto. No
longo jogo que deu o 2-2 a Trueva, a discussão fez-se em
várias vantagens, com Barnes a desperdiçar uma série de
break-points. Por esta altura, começava a
sentir-se uma inversão do sentido de jogo, com Barnes a
ganhar confiança e Martim a ficar algo preso e demasiado
progressivo, porventura esperando os erros do adversário
que lhe deram a vitória no 1º set. Contudo, a partir
daqui Barnes não parou de ditar o jogo e quebrou Martim,
fazendo de seguida facilmente os seus jogos de serviço.
Adiantou-se para 5-2, Martim reduz para 3-5 e Barnes
fecha o set por 6-3.
No
terceiro e decisivo parcial, o jogo volta a
equilibrar-se com ambos a manterem os seus jogos de
serviço durante os 4 primeiros jogos. No 5º jogo, Barnes
quebra o serviço a Martim, apostando na mesma táctica
que o levou à vitória no 2º set. Sempre a forçar a
esquerda do português, Alistair faz novo break e
adianta-se para 5-2, com serviço para fechar o encontro.
Martim luta e consegue a quebra de serviço mas no jogo
seguinte é novamente quebrado, ao primeiro
match-point, após uma fabulosa resposta do britânico
ao serviço do português.
Terminou
aqui o percurso do português que não consegue assim
defender a sua presença na final da edição de 2007. O
português tem talento nato e isso é claro no seu jogo
pela facilidade com que executa todo um leque de
pancadas. Obviamente há uma série de aspectos no seu
jogo que necessitam de ser melhorados de modo a podermos
contar com o português a um excelente nível
internacional.
No final
do encontro, Martim prestou umas breves declarações ao
Luso Ténis:
O
encontro seguinte no court Vila do Conde contava com a
meia-final feminina disputada entre a cabeça de série nº
2 do torneio, Polina Rodionova, e Maria João Koehler. As
duas defrontaram-se na semana anterior na final da Taça
Diogo Nápoles no Porto, tendo a vitória sorrido à russa.
Desta feita, a portuguesa mostrava-se motivada para
fazer um resultado diferente contudo não deveria ser
muito fácil dada a estabilidade da russa. As bancadas
estavam repletas de apoiantes de Maria João, que
aplaudiam ruidosamente cada ponto que conquistasse. A
russa não estava muito satisfeita com o público. Na
verdade Rodionova é uma jogadora com rituais anteriores
ao serviço muito particulares, notando-se claramente que
se trata de uma atleta muito metódica e que procura
claramente jogar sempre em elevados níveis de
concentração. Os três primeiros jogos decorreram com
relativa normalidade, com ambas a defenderem os seus
jogos de serviço numa fase de adaptação. As trocas de
bolas ainda eram muito curtas e os erros acumulavam-se
de parte a parte. No quarto jogo, a russa quebra o
serviço a Maria João, cerrando o punho e gritando um
alto “Come on” claramente em tom de resposta ao apoio do
público à portuguesa. A partir daí, o encontro aumentou
de intensidade, continuando ainda assim muito
incaracterístico. A portuguesa respondeu de imediato à
russa, quebrando-lhe o serviço e fechando o seu,
igualando o marcador a 3-3. Por esta altura a russa
estava já furiosa, lançando olhares fulminantes aos
apanha-bolas, juízes de linha, árbitro e público. A
portuguesa parecia mesmo lançada pois quebrou novamente
o serviço a Rodionova, adiantando-se para 4-3. Maria
João forçava a parada, pressionando a russa com as suas
bolas mais pesadas e mais tensas. Contudo, após três
jogos consecutivos, Maria João tremeu, fazendo lembrar
um pouco o drama que se viveu na maratona do dia
anterior. Com uma dupla-falta, a portuguesa viu o
marcador ser novamente igualado a 4-4. Dos jogos que vi,
o serviço de Koehler não esteve particularmente bem ao
longo do torneio, entrando muito pouco o 1º serviço e
cometendo muitas duplas-faltas, algumas delas em
momentos cruciais. Nos dois jogos seguintes volta a
haver nova troca de breaks, sendo que depois a
russa consegue manter o seu jogo de serviço para 6-5. A
servir para se manter no set, Maria João joga bem e leva
a discussão a tie-break.
No
tie-break, Koehler começa bem com uma vantagem de
2-0. A russa consegue vencer os dois pontos seguintes
até que a portuguesa, muito galvanizada nesta altura,
toma o comando da partida, ditando completamente o ritmo
de jogo. Avança para o 6-2, adquirindo 4 set-points.
Ao segundo, Maria João conquista o parcial.
No 2º
parcial, tudo parecia exactamente a igual. A russa não
pareceu muito afectada pela derrota no 1º set e o
equilíbrio manteve-se. Os cinco primeiros jogos
resultaram em quebras de serviço e a primeira a manter o
seu saque foi mesmo Rodionova. Adiantou-se para 4-2,
Koehler respondeu na mesma moeda, mas quando servia para
se manter no set a 3-5, não conseguiu evitar a pressão e
cedeu por 3-6. Os problemas no serviço permaneciam com a
portuguesa a parecer muito afectada pelas súbitas
rajadas de vento que por vezes surgiam no court.
Nesta
fase do encontro já anoitecia, a temperatura tinha
baixado muito e praticamente todo o público tinha fugido
às condições gélidas que se faziam sentir. Por esta
altura, Rodionova já não estava tão nervosa e parecia
bem mais segura de si, mantendo os seus rituais entre
cada ponto. A russa não é uma jogadora exuberante e é
raro construir uma jogada que solte uma exclamação do
público. No entanto, não sofre grandes oscilações de
intensidade nem de nível de jogo e sabe aproveitar bem
os deslizes da adversária. Quando saí do Parque, o 3º
set ainda ia no início mas já Maria João tinha sido
quebrada e antevia um parcial difícil para a portuguesa.
Entretanto, mais tarde, soube que Maria João tinha
perdido o último parcial por 6-1, deixando a Vila do
Conde Tennis Cup sem representantes lusos nas finais de
singulares.
Não me
desloquei ao Parque nos dias das finais contudo deixo
aqui os resultados. Boluda venceu com naturalidade
Alistair Barnes por duplo 6-2 e Milana Spremo venceu em
3 sets a russa Rodionova. Os dois primeiros cabeças de
série do torneio venceram-no, por isso não houve
qualquer factor surpresa. Nas finais de pares, vitória
lusa na dupla masculina composta por Martim Trueva e
Manuel Marcelo.A dupla Cátia Rodrigues e Ana Claro
perdeu na final.
Esta foi
uma bela semana de ténis, tendo permitido assistir a
alguns belos encontros de ténis e à descoberta de alguns
talentos. Confirma-se que Boluda será certamente um nome
de peso num futuro relativamente próximo, a menos que
algo de muito grave lhe aconteça no seu percurso. Dos
portugueses, destaque para Martim Trueva. Não possuo
grande termo de comparação mas pareceu-me o jogador mais
completo e acima de tudo mais estável emocionalmente.
Maria João Koehler voltou a mostrar que é uma jogadora
com um poderio impressionante mas ainda necessita de
limar muitas arestas no que toca às gestão de encontros
e vantagens e na manutenção de elevados níveis de
concentração. Todos os “Xicos” deixaram boas indicações:
Dias, Ramos e Charters têm boa margem de progressão.
Sexta-feira, 22 de
Agosto de 2008
O dia de ténis prometia em Vila do Conde
com actuações de vários portugueses, em destaque Maria
João Koehler, Martim Trueva, Francisco Dias e Francisco
Ramos.
Se até
aqui ainda não tinha sido possível assistir a nenhum
encontro de Maria João Koehler neste torneio, esta
sexta-feira foi possível retirar a barriga de misérias
uma vez que a portuguesa foi protagonista do encontro do
dia no seu embate diante da britânica Hannah James. Esta
era uma das jogadoras mais fortes
do quadro, 3ª cabeça de série do evento e actual 133ª
mundial júnior.
Quando
chegámos ao parque, Maria João liderava por 5-4 no 1º
set. A britânica empatou o marcador quase imediatamente
e a frustração da portuguesa era evidente. Cedo nos
apercebemos que a portuense tinha desperdiçado uma
vantagem de 5-1 no 1º parcial, tendo permitido a
recuperação da adversária pela sua perda de
concentração. A discussão acabou por ser levada a
tie-break, onde Maria João se adiantou para 4-2.
Contudo, a partir daí, James venceu 5 pontos seguidos,
vencendo o 1º parcial após uma dupla-falta da
portuguesa. Por esta altura, o vento fazia-se sentir bem
forte, dificultando a acção das tenistas. Maria João
parecia claramente afectada pelo modo como perdeu o 1º
parcial e rapidamente se viu colocada com uma
desvantagem de 0-3 no 2º set com o défice de dois
breaks. Por esta altura, Maria João via-se com
problemas no serviço. A sua percentagem de colocação do
1º serviço era muito baixa, o número de duplas faltas
aumentava rapidamente e a tensão aumentava com alguns
protestos com o juiz de cadeira após desacordo quanto à
avaliação de algumas situações de jogo, nomeadamente a
interrupção de pontos por circulação de bolas oriundas
de outros courts. Para quem não conhece o local onde se
disputa este torneio, os courts Vila do Conde e BPI não
apresentam qualquer separação física sendo que por
várias vezes os encontros têm de ser interrompidos
porque algumas bolas invadem os campos vizinhos,
prejudicando o desenvolvimento do encontro. Esta
situação, para além de quebrar claramente o ritmo do
encontro, pode apresentar alguma influência no marcador
caso este problema decorra durante um ponto essencial. A
separação física destes campos por placards
publicitários ou até mesmo por uma rede poderia ser uma
boa solução para evitar este problema. Quando Maria
João soltou um pouco da tensão acumulada com protestos
diante do árbitro (alguns deles bem correctos, diga-se),
a portuguesa soltou-se, vencendo 4 jogos consecutivos e
aumentando completamente a intensidade do seu jogo. O 1º
serviço regressou, assim como a concentração. A
britânica conseguiu estancar a série de jogos para a
portuguesa mas não evitou a quebra de serviço, quando
servia para se manter no set a 4-5, perante um público
cada vez mais animado.
Hannah
James foi ao longo de todo o encontro uma jogadora
bastante dura, sendo capaz de responder à altura aos
ataques de Maria João, que assistiu à devolução
constante das suas bolas “pesadas”. Na verdade, as
longas trocas de bola foram uma constante neste
encontro, facto este que contribui claramente para a
duração final do jogo, mais própria de um jogo em terra
batida do que em hardcourt…
O 3º set
foi claramente inferior em nível de jogo, com muita
“tremideira” e variações de liderança. Maria João entrou
mal, sofrendo uma quebra imediata de serviço. Venceu
três jogos de seguida e depois perdeu outros três. A
partir daí, foram quebras sucessivas de serviço, com a
britânica a servir para fechar o encontro a 5-4 e 6-5,
falhando das duas vezes. O jogo encaminhou-se para a
decisão justa mas dolorosa em tie-break, no qual
a portuguesa nem entrou nada bem, perdendo os três
primeiros pontos. Contudo, conquistou os seis seguintes,
amealhando 3 match-points. Ao terceiro Maria
conquistou o encontro após uma bola enviada para a rede
pela britânica. O público, em muito querido a Maria
João, que tem uma relação próxima com a cidade, festejou
e assim se garantiu uma presença lusa feminina nas
meias-finais.
No vídeo
seguinte está disponível a declaração de Maria João após
o apuramento para as meias-finais
Maria
João mostrou raça e vontade e a vitória foi obviamente
saborosa mas as desconcentrações que sofreu ao longo do
encontro, com enormes variações de intensidade e
consistência, deverão ser alvo de avaliação e trabalho.
Nas meias-finais tem oportunidade de vingar a derrota
sofrida na semana passada diante de Polina Rodionova.
Veremos se as 3h30m em que esteve em court não serão um
factor importante neste difícil encontro.
Esta
maratona atrasou bastante a ordem de jogos e isso
obrigou a uma re-distribuição dos jogos. Martim Trueva
jogaria a seguir no court principal, tal como previsto,
mas o jogo de Francisco Dias diante do britânico
Alistair Barnes seria transferido para o court GP,
adiantando-se o embate entre o espanhol Carlos Boluda e
o português Francisco Ramos.
Para
contrariar um pouco a tendência do primeiro encontro do
dia, Martim Trueva foi evoluindo no marcador com grande
velocidade, controlando perfeitamente o rumo dos
acontecimentos diante do espanhol Jose Fantova. Martim
Trueva apresenta um ténis muito agradável, em que tudo
flui com muita naturalidade. Mostra toque de bola e
apresenta um excelente sentido táctico. Para além disso,
mostra-se sempre muito calmo e tranquilo em court,
faltando avaliar se esta postura é mantida em situações
de maior aperto. Esta sexta-feira, em tudo foi superior
ao seu adversário, vencendo com naturalidade por duplo
6-3.
Muito se
especulou sobre o futuro do português, visto como um dos
maiores talentos portugueses da sua geração, mas o facto
de viver na Madeira, onde não possui parceiros de treino
à altura, não tem ajudado a sua evolução. Em declarações
ao Luso Ténis, Trueva falou um pouco dos seus planos
para o futuro, nomeadamente a intenção de se treinar aos
fins-de-semana em Lisboa em alguns dos melhores clubes
da zona de Lisboa, nomeadamente o CIF e o CETO. No vídeo
seguinte podem ser ouvidas as declarações de Martim
Trueva no final do encontro.
Os dois
últimos encontros do dia reservavam a actuação de dois
portugueses e os jogos foram disputados em simultâneo.
No court Vila do Conde, Francisco Ramos deixou boas
indicações diante de Carlos Boluda. O português,
orientado por Nuno Marques, iniciou bem a partida,
batendo de igual para igual com a “estrela” espanhola.
Contudo, a excelente mobilidade do espanhol e a maior
consistência de Boluda rapidamente entraram em acção, o
que permitiu a conquista de 5 jogos consecutivos para o
espanhol. Ramos, a jogar bem perto do limite e muitas
vezes a forçar em demasia as suas pancadas, ainda
reduziu para 2-5 mas o espanhol não tremeu e fechou
o 1º parcial por 6-2, perante algum descontentamento do
português. Nuno Marques observava com atenção o jogo do
espanhol, seguramente um jogador que desperta a atenção
e o elogio de todos, dada a sua superioridade patenteada
ao longo de todos os encontros jogados esta semana. No
final do 1º set deste encontro, resolvi espreitar o
desafio de Francisco Dias, que não parecia muito bem
encaminhado. O britânico Alistair Barnes dominava por
completo o embate, impondo o seu serviço canhão e o seu
poderio físico impressionante. O português parecia
claramente em dia não e foi quase sempre obrigado a uma
posição defensiva, quando claramente se sente mais
confortável numa postura
mais atacante. 6-0 foi o resultado pesado do 1º parcial
e o rumo dos acontecimentos parecia difícil de inverter,
tal era o domínio do britânico. Por esta altura já se
fazia tarde em Vila do Conde, com a garantia que no dia
seguinte haveria mais ténis para poder assistir…
Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
O dia amanheceu bem
cinzento no norte do país e Vila do Conde não foi
excepção, com alguns pingos de chuva a ameaçar
precipitação que em nada seria desejável para o torneio.
Uma das coisas que mais me agradam neste evento é a
perfeita simbiose com o típico ambiente da cidade. No
Parque de Jogos onde se encontram localizados os courts,
passam diariamente uma série de pessoas, que entre
jogging, passeios familiares ou cafés entre amigos,
acabam por “desembocar” neste local. Este facto abre a
possibilidade de uma maior assistência nas bancadas
montadas para o evento, proporcionando um maior apelo
para os jogadores bem como uma maior divulgação da
modalidade, que pode atingir um vasto grupo de pessoas
que não se deslocaram ao parque nesse sentido.
A ordem
de jogos para este dia reservava a possibilidade de
poder assistir à actuação de Francisco Dias, que tão bem
esteve na semana passada na Taça Diogo Nápoles no Lawn
Tennis Club no Porto, Francisco Charters e ainda Martim
Trueva, que na sessão nocturna de ontem (quarta-feira)
foi obrigado a disputar um duro encontro frente ao russo
Egor Kovalev (510º júnior), tendo vencido pelos parciais
de 4-6 7-5 6-1.
Na
sessão matinal três portugueses já tinham sido
eliminados: Manuel Marcelo (por duplo 6-1), Ana Claro
(por 6-3 6-1) e Cátia Rodrigues (6-2 6-3).
No
primeiro encontro que tive oportunidade de assistir,
Francisco Dias defrontava o espanhol Cristian Gonzalez.
O português liderava por 7-6(5) 2-2 e mostrava-se
bastante dinâmico. O atleta do CETO já demonstra um
físico bastante desenvolvido e isso nota-se no seu jogo,
com um serviço e direita portentosos. O português
tentava motivar-se ao longo do jogo e em geral assumiu
as despesas deste, forçando a parada perante um jogador
espanhol mais reactivo. O encontro avançava para uma
vitória natural do português quando este se adiantou
para 5-2. Contudo, o espanhol foi reduzindo a
desvantagem, salvando pelo caminho um match-point.
Quando se deu conta, o parcial estava novamente
empatado, desta feita a 5-5. Ambos seguraram o seu
serviço, levando a discussão do 2º parcial a um novo
tie-break. Neste, o português esteve errático, perdendo
6 pontos consecutivos e dando a vantagem de 6-1 a
Gonzalez. Dias ainda reduziu mas não foi suficiente.
O encontro ia ser discutido num terceiro parcial, para
grande frustração do português. No entanto, “Xico”
entrou com força no último parcial e quebrou
imediatamente o serviço ao espanhol, adiantando-se para
2-0. O espanhol conseguiu segurar um difícil terceiro
jogo mas a partir daí Francisco Dias agigantou-se,
vencendo os quatro jogos seguintes, recorrendo ao seu
forte serviço e muitas vezes aplicando o binómio serviço
– winner direita.
Fiquei
agradado com a prestação de Francisco Dias que me
pareceu apresentar claro potencial para uma boa carreira
sénior. Apesar de desconcentrações constantes,
especialmente sentidas no gerir da vantagem do 2º set e
na escolha de pancadas em alguns momentos do encontro, o
português exibiu-se em grande nível e soltou várias
exclamações da bancada que se mostrava satisfeita com o
desempenho do atleta luso.
Durante
o encontro do português, pude dar um salto ao court RB
onde Martim Trueva treinava com o francês Loic Ducourau
(o tal que ontem comparámos a Federer). De lá tirei a
primeira impressão do seu jogo, que mais tarde tive a
oportunidade de poder observar com maior detalhe.
O jogo
seguinte no court principal do evento contava com o
duelo entre Carlos Boluda e o português Francisco
Charters, outro representante do clube CETO. A tarefa
não se adivinhava fácil especialmente após a excelente
exibição protagonizada no dia anterior pelo espanhol.
Charters é um jogador alto e magro. Do seu arsenal de
pancadas destaca-se a esquerda a uma mão, na minha
opinião a sua melhor arma. A direita não é muito potente
mas tende a ser colocada. Quanto ao confronto em si,
iniciou-se de modo algo semelhante
ao verificado no encontro de ontem de Boluda, com os
três primeiros jogos a serem bastante equilibrados, numa
altura em que ambos os jogadores ainda se testavam. Cedo
se percebeu que Boluda não se encontrava tão seguro como
contra Pablo Lija. Para além disso, Francisco Charters
mostrou-se sempre muito lutador e mesmo quando se viu
com uma desvantagem de 4-1 no 1º set, não baixou os
braços, vencendo os dois jogos seguintes. Nesta altura,
quando o português servia com 15-30 no marcador, o
árbitro indica let no 2º saque de Charters, tendo
contudo ambos os jogadores prosseguido o encontro,
parecendo não se aperceber do sucedido (pelo menos no
caso de Boluda). Charters venceu entretanto o ponto, o
que daria 30-30. Contudo, o treinador de Boluda,
apercebendo-se da tremideira do árbitro que hesitou em
reafirmar o let e consequente repetição do ponto,
gesticulou e chamou pelo seu pupilo, que quando se
apercebeu, foi tirar satisfações com o juiz de cadeira.
Nesta altura gerou-se alguma confusão, nomeadamente no
público mais desatento que não se apercebeu do sucedido.
O ponto acabou por ser repetido, curiosamente com o
mesmo desfecho. Ainda assim, Boluda conseguiu a quebra
de serviço e fechou o 1º parcial por 6-3. No final deste
set, aproveitei para percorrer os restantes palcos deste
torneio, assistindo a partes de alguns jogos de pares
que entretanto se desenrolavam. O encontro no court GP
que opunha a dupla Faria/Turudic (BRA/CRO) ao par
Shumilina/Gerasimova (RUS/BLR) despertava um grau de
curiosidade e atenção desproporcionais ao habitual neste
tipo de encontros, muito por culpa do público masculino
que pareceu muito interessado nos atributos físicos das
atletas. As jogadoras tentavam manter-se alheias aos
piropos e foram disputando uma partida bem equilibrada,
em 3 sets, com a vitória a sorrir à dupla de leste.
Neste encontro apercebi-me da não aplicação da nova
regra de pares, que implica a realização de um super
tie-break em substituição do 3º parcial. Investiguei
quadros de outros torneios e verifiquei soluções mistas,
não sabendo se existe propriamente uma possibilidade de
escolha por parte da organização ou pura e simplesmente
uma regra pouco clara.
Quando
regressei ao court principal, Boluda já vencia por 5-1
no 2º set. Charters ainda recuperou dois jogos mas
acabou por ceder por 6-3 no parcial final. Apesar de não
demonstrar o potencial de Francisco Dias, Charters
mostra garra e combatividade (embora por vezes mal
dirigida e controlada), virtudes que bem direccionadas
são essenciais num praticante da modalidade.
No court
central ainda restavam os encontros de Martim Trueva e
de Maria João Koehler. Ainda pude assistir ao 1º parcial
de Trueva, que venceu com naturalidade (e mais tarde
apurar-se para os quartos de final) mostrando maior
consistência e um ténis mais fluído do que o seu
adversário israelita Genia Gamazov. Este parecia padecer
de bolhas nos pés, motivo pelo qual foi assistido quando
se encontrava em desvantagem por 5-2 no 1º set. Estou
contudo curioso por assistir ao desempenho de Trueva
perante um adversário mais combativo.
Quanto a
Maria João Koehler, ainda não assisti a nenhum dos seus
desempenhos neste torneio. Confirmando-se o seu
favoritismo no encontro de hoje diante da israelita
Zimmermann, a portuense será a primeira a entrar em
acção no dia de amanhã, na sessão relativa aos quartos
de final do quadro de singulares.
Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008
O dia de
hoje voltava a ser bem preenchido no “Vila do Conde Tennis Cup” com a
finalização dos encontros relativos à 1ª ronda do quadro de singulares
masculino e feminino. Mais uma vez contámos com uma série de portugueses
em acção com resultados bem positivos. Na parte da manhã, Francisco
Charters e Francisco Ramos venceram os seus encontros. Ana Claro, do
lado feminino, protagonizou uma exemplar reviravolta, após ter estado a
perder por 6-7(4) 4-5 (0-40), tendo salvo 3 match-points. A partir daí
só deu Ana Claro, que venceu os nove jogos seguintes, fechando o
encontro por 6-7(4) 7-5 6-0.
Federer e Nadal
marcaram presença no torneio…
Quando cheguei ao
recinto, desenrolava-se um encontro da 1ª ronda do quadro masculino no
court BPI. O embate entre o francês Loic Ducourau (413º júnior, 17 anos
recentes) e o israelita Iran Hecht (698º júnior e 16 anos) chamou a
minha atenção. Desde logo o encontro mostrava um nível bem apelativo,
sem a intensidade de outros embates que entretanto viríamos a assistir
mas com um equilíbrio bem patente. Contudo, o que realmente chamava a
atenção era o estilo do francês Ducourau (na fotografia). Com um
equipamento preto igual ao utilizado pelo ex-nº 1 mundial Roger Federer,
com maneirismos em tudo idênticos ao suíço, Ducourau seria a mais
recente incarnação de babyFederer. Para além do visual, tiques e
a discreta celebração após os pontos, a própria movimentação em court e
as pancadas (especialmente a esquerda a uma mão, bem bonita por sinal)
faziam lembrar o grande campeão. Contudo, até a sua incarnação parece
dar-se mal com este estilo e mesmo chamando a atenção de todos na
bancada, não evitou a derrota por 6-3 6-2, num encontro bem mais
equilibrado do que aquilo que o marcador regista.
Se por um lado no court
BPI podíamos assistir a uma personificação de Roger Federer, no court
principal, a grande atracção do torneio coqueluche entrava em acção a
singulares, demonstrando um estilo completamente diferente. Apesar de
não ser muito alto, o espanhol mostra-se possante em termos físicos e
transborda atitude e confiança. Também ele joga de manga cava, com
protecções nos joelhos e fita no cabelo. À primeira vista estamos
perante a versão mais jovem de Rafael Nadal. Em termos de jogo, Boluda é
um jogador intenso, agressivo e dinâmico. Impõe um forte ritmo de jogo
com as suas pancadas profundas e pesadas, especialmente com a sua
direita. Não espera pelo erro do adversário e toma iniciativa do ponto,
divergindo assim um pouco das características primárias do actual nº 1
mundial. Na técnica de serviço apresenta uma boa chicotada final mas é
claramente uma pancada que pode e deve ser melhorada. Quanto ao
comportamento em campo, apesar da sua presença é discreto e não se
manifesta muito. De vez em quando consegue-se visualizar um punho
cerrado mas nada de muito exuberante. O seu encontro com o compatriota
Pablo Lijo Santos ainda se iniciou de modo bem interessante, com o menos
conhecido a mostrar algum valor e a protagonizar belas trocas de bola.
Contudo, a intensidade de jogo de Boluda começou a ter efeitos e a
partir do 3º jogo do 1º set, a partida começou a evoluir bem mais
rapidamente.
O encontro de Boluda
protagonizou a maior enchente do dia, com vários curiosos para assistir
à estreia da pequena “estrela” espanhola.
Bárbara Luz em
apuros a singulares
A portuguesa Bárbara Luz
foi a última portuguesa a entrar em acção em singulares durante a parte
da tarde, deixando apenas Martim Trueva, 2º cabeça de série do evento,
para a sessão nocturna. Diante da britânica Samantha Vickers (367ª
júnior), com um ranking semelhante ao seu (394ª), a portuguesa poderia
ter hipóteses de seguir para a ronda seguinte. Com um vasto clube de fãs
que a foram apoiando ao longo do encontro Bárbara foi tentando inverter
a tendência de domínio britânico que se foi sentindo quase desde o
princípio da partida. Ainda me recordo de ver Bárbara Luz há cerca de 3
anos em Coimbra aquando da realização de torneios de ténis
universitário, nos quais participei. Na altura Bárbara era ainda uma
criança baixa e franzina mas era já uma autêntica máquina de bater
bolas. Cheguei a assistir a alguns dos seus treinos que na altura me
deixaram boa impressão. Era por isso com curiosidade que assistia ao seu
encontro, de modo a avaliar o seu nível actual.
Nos primeiros jogos
ainda ocorreu algum equilíbrio, com a portuguesa a conseguir causar
algumas dificuldades quando colocava a sua esquerda muito tensa, com um
ressalto particularmente baixo. Contudo, a maior agressividade e
consistência de Vickers foram aos poucos colocando a portuguesa em
constantes situações de desvantagem ao longo dos pontos. 6-3 3-1 era a
vantagem da britânica quando saí do clube. Quanto à qualidade do jogo da
portuguesa, penso que neste momento lhe falta algum poder de fogo, uma
vez que tem algumas dificuldades em conseguir provocar o desequilíbrio
na adversária. Estes próximos dois anos serão fundamentais no seu
desenvolvimento, no sentido em que darão mais respostas quanto à sua
evolução.
O dia de amanhã promete
com vários portugueses em acção na 2ª ronda de singulares. Ana Claro,
Manuel Marcelo, Cátia Rodrigues, Francisco Ramos, Francisco Dias,
Francisco Charters e Maria João Koehler estão todos na ordem de jogos
para amanhã. Martim Trueva também disputará o encontro amanhã caso se
confirme a sua vitória na 1ª ronda, durante a sessão nocturna desta
quarta-feira.
Terça-feira, 19 de Agosto de 2008
Esta semana desenrola-se nos
courts do parque de jogos de Vila do Conde a “Vila do Conde Tennis Cup”,
evento misto júnior que alberga alguns dos grandes nomes nacionais e
internacionais das camadas jovens praticantes de ténis.
Mais uma vez é um prazer
para a equipa do LusoTénis fazer a cobertura possível ao evento, desde
já mais uma bela oportunidade para tomar conhecimento de jovens
promessas e talentos e avaliar a evolução ou o momento actual de outros
jogadores que em torneios anteriores já tivemos a oportunidade de
conhecer.
As qualificações para
este evento foram decorrendo ao longo do fim de semana e finalizaram-se
na segunda-feira. O primeiro dia que tivemos oportunidade de assistir
foi terça-feira. Como não conhecíamos o local onde decorriam os jogos,
tivemos que pedir indicações a alguns locais que pareceram claramente
informados quanto à realização de um torneio na localidade, o que desde
já é um bom sinal.
O torneio desenrola-se
em pleno parque municipal, local de lazer para muitos vilacondenses que
aproveitam as infra-estruturas e o ambiente natural para exerceram a
prática desportiva. No meio do parque existem quatro courts, tendo sido
estes denominados de Vila do Conde, BPI, GP e RB. A visualização dos
encontros é apenas lateral, onde existem umas pequenas bancadas montadas
que permitem à assistência poder desfrutar dos encontros.
Aquando da nossa
chegada, já alguns portugueses tinham efectuado as suas partidas. Maria
João Koehler e Cátia Rodrigues venceram tranquilamente os seus encontros
relativos à 1ª ronda do quadro principal. Destaque para ambas uma vez
que Cátia Rodrigues garantiu o lugar no quadro principal após
“sobreviver” à fase de qualificação e a Maria João Koehler por bater
logo de entrada a sexta cabeça de série do evento, a austríaca Christina
Mathis. Por sua vez, a convidada da organização, Rita Vilaça, não foi
capaz de suster a jogadora da Letónia, Diana Marcinkevica, tendo cedido
de entrada em dois parciais.
No lado masculino,
Manuel Marcelo e Francisco Dias também já tinham assegurado o passaporte
para a 2ª ronda, com vitórias claras sobre os seus oponentes israelita e
britânico, respectivamente.
Enquanto decorriam
alguns encontros da variante de pares, foi-nos possível absorver um
pouco o ambiente que se vivia. No bar do parque, tivemos o primeiro
contacto com a estrela do torneio, a promessa espanhola Carlos Boluda
(na foto à esquerda),
de quem muito se espera. O estilo não enganava e sentado à mesa com o
seu portátil, ia dando música aos clientes do bar, não parecendo muito
importado se o seu gosto musical ia de encontro ao desejado por aqueles
que mais próximo de si se encontravam…tal era o nosso caso e em tom de
brincadeira asseguramos que o jovem Boluda poderá ter um gosto no
mínimo…duvidoso.
Quando se regressou ao
court principal (court Vila do Conde), decorria um encontro de pares com
um dupla portuguesa (Miguel Cortez e José Alves – nas fotos em
cima). Os
portugueses foram naturalmente afastados, não deixando contudo de
mostrar alguma vontade em inverter o rumo dos acontecimentos. Nas
bancadas podíamos encontrar vários jogadores portugueses, entre eles o
recente vencedor da Taça Diogo Nápoles, disputada no Lawn Tennis Club da
Foz, Martim Trueva (na foto à direita).
Contudo, seria o jogo
seguinte o mais aguardado por muitos, a estreia de Carlos Boluda no
evento, ainda que na vertente de pares, ao lado do seu compatriota
Javier Marti. Boluda mostrou boas indicações, nomeadamente uma bola
profunda e pesada. A dupla espanhola apresenta um estilo curioso e
normalmente não muito apropriado para o jogo de pares uma vez que
optavam por permanecer na linha de fundo mesmo durante as trocas de
bolas. Segundo comentário de Maria João Koehler na bancada, isso
valeu-lhes a derrota nos Campeonatos da Europa.
A temperatura foi
diminuindo claramente, até ficar um frio algo desagradável na zona do
parque e em toda a cidade, tendo sido o sinal escolhido para terminar a
reportagem do primeiro dia.