Luso Ténis
 

 

Top-10 Encontros - ATP

Texto e selecção: Rui do Carmo                         Ver top-10 WTA
 

Foi um ano recheado de encontros entusiasmantes e bem jogados, com reviravoltas e uma boa dose de imprevisibilidade à mistura. Um ano para recordar e até rever alguns dos encontros que agora vos recordamos. Nadal, Djokovic, Federer ou Murray marcaram de formas diferentes o correr desta época, ficando muito por definir em 2009, agora que os dogmas parecem querer desaparecer do topo do ranking ATP.

A listagem que aqui apresentamos cruza critérios de apreciação técnica, simbólica e puramente emotiva e, intencionalmente, não estabelece uma hierarquia entre eles, estando organizada de forma cronológica. Poderá, assim, recordar alguns dos momentos altos do ano, e algumas das peripécias e incidências que o marcaram. É também uma lista bem pessoal de um amante desta modalidade que espera poder assistir a outros anos como este!

 

  

L. Hewitt d. M. Baghdatis - 4/6 7/5 7/5 6/7(4) 6/3
Australian Open - 2ª ronda
  18 e 19 de Janeiro de 2008

Foi o mais longo encontro da história da era Open deste Grand Slam, tendo ultrapassado o limiar das quatro da manhã locais. A programação para aquela noite do Open da Austrália ia já francamente atrasada quando, não muito antes da meia noite – 23:48 de sexta-feira - Baghdatis e Hewitt entraram em court. Os relógios locais marcavam as 04:33 de sábado quando este embate terminou.

Não se tratou de um encontro com a qualidade técnica de outros confrontos enumerados nesta lista, mas tratou-se de um verdadeiro épico que poderia ter terminado bem mais cedo – Hewitt chegou a liderar 4-1 no quarto set, quando vencia por 2 sets a 1. Mas Baghdatis acabou por quebrar repetidamente o serviço a Hewitt tendo mesmo salvo um match-point a 2-5, acabando por vencer o quarto set em tie-break e forçado uma quinta partida, que atingiria a marca história nos ponteiros dos relógios locais. Um Hewitt mentalmente mais forte acabaria por levar a melhor sobre um Baghdatis fisicamente exausto que no final do encontro afirmava, no entanto: “Eu adoro este jogo! Eu perdi o encontro, mas saí do court com muitas e boas emoções...”

 

  

R. Nadal d. N. Djokovic - 7/5 2/6 6/2
Masters de Hamburgo - Meias-finais
  16 de Maio de 2008

Poucos se recordarão agora, mas Rafael Nadal esteve perto de descer à terceira posição do ranking ATP antes de se ter instalado na posição cimeira. O sérvio vinha de um inicio de temporada bem conseguido e ameaçava a posição de Nadal, mas o espanhol soube resistir à pressão e confirmar o favoritismo que alguns lhe vinham já retirando em favor de Djoko.

O cenário estava montado e o encontro correspondeu à efervescência que se criou em torno dele: ao contrário do primeiro encontro desta lista, a qualidade técnica foi muito elevada, não se adivinhando tal a partir do resultado. O sérvio entrou em court procurando da razão aos que o vinham pré-anunciado como maior candidato à sucessão de Federer na liderança do ranking, tendo tido mesmo dupla possibilidade de atingir os 4-0 no primeiro set. Nadal rapidamente entraria em jogo revertendo o sentido do primeiro set, para ceder depois na segunda partida perante um Djokovic a jogar perto da perfeição. No terceiro e decisivo set Djokovic sofreu a quebra de serviço bastante cedo mas teve várias possibilidades de o contrariar, reentrando no encontro: perdeu quatro pontos de quebra no jogo imediato e outros quatro quando Nadal servia para 5-2.

No entanto, três horas e três minutos de excelente ténis depois, Nadal segura a segunda posição do ranking com uma vitória muitíssimo transpirada. Djokovic afirmaria no final deste encontro: “É excelente fazer parte de uma partida fantástica; a qualidade foi muito alta, (…) foi uma das melhores, talvez a melhor partida que me lembro ter jogado em terra batida”. E nós, o público, agradecemos.

 

  

R. Nadal d. R. Federer - 7/5 6/7(3) 6/3
Masters Hamburgo - Final
  18 de Maio de 2008

Aperitivo para Roland Garros, os olhos estavam postos nos courts de Hamburgo tentando antever até que ponto poderia Federer sonhar com uma vitória sobre Nadal no torneio francês que se avizinhava, onde Nadal determina o jogo e reina de forma convincente. Senhor absoluto em terra batida, piso onde perdera apenas duas vezes nos últimos 110 encontros, o espanhol representava o maior desafio à liderança do suíço no topo do ranking ATP. Uma dessas derrotas havia sido, precisamente, na final de Hamburgo, em 2007, onde Federer conseguiu marcar terreno para o Grand Slam francês com uma convincente vitoria com o parcial de 2-6, 6-2, 6-0 sobre o espanhol.

No encontro deste ano, Federer entrou decisivo, tendo estado a vencer por 5-1! No entanto, Nadal acabou por vencer o primeiro set numa reviravolta no scoreboard difícil de diferir para o suíço. Nadal prolonga o momento positivo até ao início da segunda partida, quebrando, de imediato, o serviço ao suíço que, no entanto, constrói, de seguida, uma vantagem de 4-1, reentrando no encontro para alento dos seus indefectíveis fãs. Nadal voltaria, no entanto, a equilibrar o marcador, forçando o tie-break, e tornando difícil prever o desfecho do encontro, com a elevada combatividade e nível competitivo de ambos os jogadores em evidência neste final de set. Na terceira partida, Nadal ganharia terreno desde cedo, terreno que Federer não mais iria conseguir recuperar. A história de Roland Garros que se avizinhava contaria mais um capítulo de domínio do maiorquino neste piso, onde Federer apenas lograra vencer, em 2008, no Estoril Open.

 

 

R. Nadal d. N. Djokovic - 7/6(6) 7/5
ATP Queen's/London - Final
  15 de Junho de 2008

Desde 1972, com Ilie Nastase, que não se via um vencedor de Roland Garros vencer o torneio na relva do Queen´s Club. Djokovic entrou melhor no encontro vencendo três jogos seguidos, tendo até tido ponto para 4-0. Nadal viria, no entanto, a recuperar a desvantagem, forçando a decisão desta partida para um competitivo tie-break que o espanhol acabaria por vencer. Na segunda partida, novamente Djokovic poderia ter levado a melhor, tendo servido para fechar o set a 5-4. Nadal protagonizou nova recuperação com dois breaks, que lhe daria a partida, o encontro e o torneio.

Três semanas depois de uma vitória esclarecedora sobre Roger Federer na final de Roland Garros (repetindo a história dos últimos anos), Nadal começava agora a invadir “terreno alheio”, provocando uma mudança no discurso dominante sobre a liderança do ténis mundial. Se até há poucas semanas antes, como vimos, Djokovic correspondia às elevadas expectativas que muitos nele depositavam, Nadal, vencendo convincentemente na relva do Queen’s Club ameaçava, agora, fazer o que não logrou alcançar em 2007: vencer em Wimbledon: “um court vermelho, um court verde, Nadal pode ganhar em qualquer court. Federer, toma cuidado!”…

 

 

A. Murray d. R. Gasquet - 7/5, 6/3 6/7(3) 6/2 6/4
Wimbledon - 1/8 de final
  30 de Junho de 2008

Tido por muitos como o segundo melhor encontro da edição deste ano do torneio de Wimbledon (apenas ultrapassado por aquele que vai já adquirindo contornos míticos e de que falaremos a seguir), este encontro revestiu-se daquele carácter épico que só uma reviravolta de último minuto, num encontro à melhor de cinco, pode proporcionar. Gasquet servia para fechar o encontro com 5-4 a seu favor na terceira partida quando uma mais do que inesperada reviravolta se começou a desenhar. Acabando por forçar o francês a decidir a terceira partida em tie-break, tomou-lhe de imediato a dianteira por um esclarecedor 4-0.

A confiança que o francês vinha demonstrando nas partidas anteriores, desaparecera agora por completo, à medida que um Murray ultra-confiante ia imergindo das ruínas do parcial dos primeiros sets. Vinte minutos bastaram para que o escocês vencesse o quarto set. Na quinta partida, a noite caía sobre o recinto e o francês certamente desejaria uma continuação no dia seguinte. Tal não sucederia e, ainda que salvando o primeiro match-point contra si, Gasquet sucumbiu sem glória, num encontro que acabaria por marcar uma temporada decepcionante. Para muitos, esta partida constituiu um alicerce fundamental para a excelente segunda parte de temporada que o escocês viria a protagonizar, com o drama e nível técnico que evidenciou.

Falta apenas recolher o testemunho dos muitos adeptos que saíram do recinto quando Gasquet se preparava para servir para encontro, na terceira partida…

 

  

R. Nadal d. R. Federer - 6/4 6/4 6/7(5) 6/7(8) 9/7
Wimbledon - Final
  6 de Julho de 2008

Para muitos o melhor encontro da história do ténis, este jogo “fazedor de epítetos esmagadores” como o que acabei de referir, tem gerado mais admiração do que qualquer outro encontro de ténis de que me recorde em, pelos menos, 20 anos.

Os seus dois primeiros sets não faziam adivinhar o drama que se lhes seguiria. Interrupções por motivos de chuva não são novidade em Wimbledon, é certo, mas a tentativa de recuperação com dois sets contra de Federer, com match-points contrariados pelo caminho, aliada a um ténis de elevadíssimo nível e ao simbolismo que este confronto encerrava, bastaram para fazer deste encontro um momento mítico do ténis. Depois de levar a terceira partida a um tie-break muito desejado pelo público que ali se encontrava, Roger Federer protagonizaria uma reviravolta memorável na quarta partida, quando Nadal vencia por 5-2 e se preparava para servir, julgando estar perto vencer o seu primeiro Grand Slam fora de Paris. Depois de salvar dois pontos que dariam o prémio do torneio ao espanhol, o suíço forçou uma quinta partida onde acabaria por claudicar por aquele que, não muito tempo depois, o destronaria como n.º 1 do ranking, e que não lhe permitiu, nesta recta final, um único ponto de break.

Quatro horas e quarenta e oito minutos contam a história da mais longa final de Wimbledon, E, em certo sentido, um ponto de viragem no ténis dos últimos anos.

 

 

K. Nishikori d. D. Ferrer - 6/4 6/4 3/6 2/6 7/5
US Open - 3ª ronda
  30 de Agosto de 2008

O japonês de apenas dezoito anos, Kei Nishikori, nunca antes havia ganho um encontro de um Grand Slam quando começou a disputar o Open dos Estados Unidos de 2008. Poucos dias depois estava na sua terceira ronda contra o n.º 4 do ranking, David Ferrer, em pleno Louis Armstrong Stadium. Este talento da Academia Bollettieri era, apenas, o primeiro japonês a atingir a segunda semana deste torneio na era Open.

Uma hora bastou para que o jovem japonês vencesse duas partidas, contra um Ferrer surpreendido pelo ascendente do seu adversário. Mas Ferrer rapidamente faria juz à fama que o acompanha de temível adversário que tarde ou nunca se dá por vencido, vendendo cara a vitória memorável de Nishikori. Diminuindo drasticamente o número de erros não forçados e aumentando a eficiência do seu primeiro serviço, Ferrer venceu os quarto e quinto set com parciais confortáveis, fazendo acreditar muitos dos espectadores que o momento de glória de Nishikori havia terminado, e que era tempo de respeitar a ordem natural das coisas. Mas Nishikori aparentava uma desconcertante calma e confiança quando a partida decisiva começou, e acabaria por alicerçar uma vantagem de 5-2. Ferrer continuaria, no entanto, a proclamar a garra que se lhe conhece, levando o encontro a um 5-5 neste decisivo set.

A vitória insistentemente procurada acabaria por surgir para Nishikori, depois de um embate que não se antecipava sequer equilibrado, e que proporcionou um emocionante encontro de ténis.

 

  

A. Murray d. R. Nadal - 6-2, 7-6(5), 4-6, 6-4
US Open - Meias-finais
  6 e 7 de Setembro de 2008

Jogado em dois dias devido à intervenção do Furacão Hanna, este encontro permite-nos retomar o assunto Nadal; mais uma vez fora do elemento que é tido como seu natural, mas agora com uma época bem longa no seu currículo de 2008, a um ritmo verdadeiramente alucinante e incluindo títulos como o de Roland Garros, Wimbledon ou mesmo uma medalha de ouro olímpica. Já fora da sua zona de conforto no que se refere ao pico de aptidão física, Nadal procurava aqui um resultado de excepção num torneio onde ainda não fez história, tentando contrariar a flagrante quebra de forma que geralmente o afecta neste terço final da temporada. No seu caminho encontrou, no entanto, um Andy Murray em clara curva ascendente, confiante e disposto a contrariar a notória preferência do público americano pelo jogador espanhol que foi sendo notória ao longo de todo o encontro. Um comportamento atípico de Nadal tentando contrariar o ascendente de Murray com subidas à rede que o arrancavam do seu habitat natural, não impediu Murray de aceder à sua primeira final de um Grand Slam, e precisamente no seu preferido. Esperava-o, nas palavras do próprio, “provavelmente, o melhor jogador de todos os tempos”…

 

  

G. Simon d. R. Nadal - 3/6 5/7 7/6(6)
Masters Madrid - Meias-finais
  18 de Outubro de 2008

Rodeado dos seus compatriotas, Nadal não resistiu à exibição de Gilles Simon, saindo derrotado em terras espanholas após pouco menos de três horas e meia de encontro, na sequência da sempre pouco interessante pancada final decidida pelo Hawk-Eye. O espanhol começou por fazer o que dele esperava o seu público, vencendo claramente a primeira partida. No entanto a história seria bem diferente nos sets seguintes. Simon podia até fechado o encontro antes tie-break da terceira partida, tendo estado em condições de servir para 7-5. Nadal, no entanto, contrariou o break do francês obrigando-o à decisão no jogo adicional. Este teve o primeiro match-point a 6-5, mas Nadal não venderia a derrota tão facilmente. Na pancada final e segundo match-point para o francês, o árbitro de cadeira considerou dentro uma bola paralela do espanhol, decisão que seria contrariada pelo sistema Olho de Falcão que Simon fez questão de interpelar. Com este desfecho, o francês derrotava pela primeira vez Rafael Nadal e atingia a sua primeira final de um Masters Séries.O francês surgia, assim, neste final de época, como um potencial contendor para a Masters Cup de Xangai que se avizinhava, repetindo o feito do compatriota Richard Gasquet no ano anterior. Por seu turno (e com a derrota de Roger Federer frente a Andy Murray na outra semi-final), o espanhol via garantida a sua manutenção como n.º 1 do ranking ATP até ao final da época, coroando, assim, um ano inesquecível do maiorquino.

 

  

A. Murray d. R. Federer - 3/6 5/7 7/6(6)
Masters Cup - 1/8 de final
  18 de Novembro de 2008

Andy Murray tornou-se, neste encontro, num dos raros jogadores a derrotar Roger Federer três vezes na mesma época (com Nalbandian e Nadal por companhia), tendo, no entanto, que esperar pelo oitavo match-point para encerrar o encontro a seu favor. Já apurado pelo Grupo Vermelho, Murray procurou sempre a vitória, não se poupando, nesta última fase do Round Robin que caracteriza a Masters Cup, para a semi-final contra Davydenko. Federer via-se, afastado da fase final desta competição, em que esteve presente por sete vezes e em que venceu quatro das últimas cinco finais. Esta Masters Cup correu mal ao suíço logo desde o início, tendo este sido derrotado pelo francês Gilles Simon (que atingiria as meias finais da competição!), que na senda do último encontro que revimos, marcou presença em Xangai, marcada pela ausência de Rafael Nadal por lesão no joelho.

Murray encarou mais uma multidão apoiando esmagadoramente o seu adversário, que assistiu à crescente vantagem do escocês na segunda partida até um esclarecedor 5-2, que Federer anularia até forçar o tie-break. Sem perder a concentração depois desta vantagem desperdiçada, Murray vence o tie-break igualando o encontro em partidas, e levando-o a um decisivo terceiro set. Esta não se disputaria sem antes o ex-número um mundial pedir assitência médica para alívio das costas que começavam a acusar o desgaste. Com este dado adicional, Murray parecia caminhar de forma decisiva para mais uma vitoria sobre o suíço (que, entre jogos, renovava a assistência médica) atingindo o parcial de 3-0. No entanto, e no tom épico que foi marcando o encontro, Federer anularia a desvantagem. Perante o parcial de 5-4, quando Murray servia para fechar o encontro, e num jogo que durou 17 minutos, Federer salvou sete match-points! O encontro terminaria com uma vitória psicologicamente motivante para Murray, a coroar este excelente final de época. Tal motivação não seria suficiente, no entanto, para chegar à final, tendo Djokovic levado para casa o último grande troféu da época.

 

Fotos: theage.com.au, The Guardian, EFE e AFP/Getty Images