Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
1º Artigo - Especial Estoril Open 2006
Terça-Feira, 2 de Maio de 2006


O MESTRE DE XADREZ

Acompanhei à distância os preparativos do Estoril Open, o ‘qualifying’ e os dois primeiros dias do quadro principal. Estive a organizar um gabinete de Imprensa num torneio da Associação dos Golfistas Profissionais Portugueses em Vidago e foi pelos jornais que segui, com crescendo interesse, o início do mais importante torneio de ténis português.

Foi com tristeza que li, dia a pós dia, títulos e as enormes manchas de textos noticiosos, a colocarem em grande destaque os jogadores e jogadoras que iam desistindo aos poucos, retirando-se da lista de inscritos.

Quem não tinha oportunidade de ir ao Jamor e não fosse um super-adepto do ténis ficava com a ideia de que a 17ª edição do Estoril Open iria ser um autêntico desastre.
Como jornalista, compreendo, obviamente, que o sucessivo abandono dos “craques” das raquetas é sempre a notícia principal do dia. Se ainda escrevesse sobre ténis para algum jornal diário, como fiz entre 1986 e 2001, também não teria outro remédio senão alinhar pela mesma opção editorial.

Mas como leitor e simples amante desta modalidade, custa-me verificar que as notícias negativas têm quase sempre direito a um superior destaque jornalístico do que as positivas – um vício profissional que, note-se, não se restringe no jornalismo desportivo.

Nos dois últimos dias, graças à boa cobertura televisiva da RTP (N e 2), já pude visionar mais de perto o que se ia passando na terra batida do Jamor e considero forçoso sublinhar que os que não vieram não fazem cá falta nenhuma.
A 17ª edição do Estoril Open está longe de ser a tristeza anunciada e parece-me mais um retumbante êxito. No dia 1 de Maio, verificou-se uma autêntica romaria ao Jamor e hoje, mesmo com menos público, a festa continuou, tal como o desfile de estrelas da raqueta.

Como é possível alguém queixar-se de um cartel que apresenta dois ‘top-ten’, David Nalbandian (o actual campeão do Masters, antigo vice-campeão de Wimbledon, nº4 do ‘ranking’ ATP desta semana e vencedor do Estoril Open em 2002), Nikolay Davidenko (nº6 ATP e campeão do Estoril Open em 2003), e, sobretudo, dois antigos nº1 do ‘ranking’ mundial, os super-carismáticos Marat Safin (ex-campeão do US Open, duas vezes finalista do Open da Austrália e vencedor de 5 Masters Séries) e Carlos Moyá (antigo campeão de Roland Garros, antigo vice-campeão do Open da Austrália e do Masters, vencedor do Estoril Open em 2000 e detentor de 3 títulos Masters Séries)?
Quem não conhece os bastidores do ténis, não faz a mínima ideia quão difícil é a João Lagos concorrer com o seu “pequeno” Estoril Open, no meio de “gigantes”. Há 30 torneios no circuito ATP com prémios monetários superiores ao Estoril Open e é preciso muita sabedoria, conhecimentos, contactos e habilidade por parte do director do torneio, do seu adjunto (João Zilhão) e da sua profissional equipa para conseguir um “plantel” desta qualidade.

Trabalhei no departamento de comunicação da João Lagos Sports entre Abril de 1989 e Abril de 2001, pelo que, assisti por dentro ao nascimento, crescimento e consolidação do Estoril Open. Só para que se tenha uma ideia, em 1990, no ano em que o torneio ascendeu ao então ATP Tour, só veio ao Jamor um ‘top-ten’, um americano que não andou lá por muito tempo, mas que nos deu uma enorme alegria, pois ainda chegou aos quartos-de-final.

Desde então, o Estoril Open tem apresentado um bom lote de jogadores de renome, uns anos mais fortes do que outros, mas também foi capaz de cimentar – em Portugal, não tanto no estrangeiro, onde é estrangulado por 5 Masters Series e um Grand Slam no espaço temporal de 3 meses – uma imagem de força, independentemente dos jogadores que nos visitam.

Olhando para a história das listas de participantes do Estoril Open, garanto-vos que esta 17ª edição é uma das fortes. Não suspiremos apenas por aqueles que desistiram à última da hora. Teria sido fantástico tê-los cá, mas o lado positivo é que outros tão bons ou melhores ficaram e deram espectáculo na primeira ronda. João Lagos sabia que adiantar o Estoril Open no calendário iria trazer-lhe algumas vantagens e esta foi uma delas.

Safin, Moyá, Nalbandian e Davidenko ainda não brilharam o que desejariam na terra batida em 2006 e Roland Garros aproxima-se a passos largos. Passar pelo teste do Jamor poderá ajudá-los a pisar com outra confiança a passadeira ocre de Paris. Teria este quarteto de luxo vindo a Portugal se o Estoril Open ainda fosse a abertura da época europeia de terra batida? Arriscaria a responder que não.
Abençoada mudança de data. Jogada inteligente de João Lagos, um mestre a mover os seus peões no meio de reis, rainhas e bispos que outros detêm no complexo tabuleiro de xadrez que é o circuito ATP.

 

 

 


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