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O MESTRE DE XADREZ
Acompanhei à
distância os preparativos do Estoril Open, o
‘qualifying’ e os dois primeiros dias do
quadro principal. Estive a organizar um
gabinete de Imprensa num torneio da
Associação dos Golfistas Profissionais
Portugueses em Vidago e foi pelos jornais
que segui, com crescendo interesse, o início
do mais importante torneio de ténis
português.
Foi com
tristeza que li, dia a pós dia, títulos e as
enormes manchas de textos noticiosos, a
colocarem em grande destaque os jogadores e
jogadoras que iam desistindo aos poucos,
retirando-se da lista de inscritos.
Quem não tinha
oportunidade de ir ao Jamor e não fosse um
super-adepto do ténis ficava com a ideia de
que a 17ª edição do Estoril Open iria ser um
autêntico desastre.
Como jornalista, compreendo, obviamente, que
o sucessivo abandono dos “craques” das
raquetas é sempre a notícia principal do
dia. Se ainda escrevesse sobre ténis para
algum jornal diário, como fiz entre 1986 e
2001, também não teria outro remédio senão
alinhar pela mesma opção editorial.
Mas como
leitor e simples amante desta modalidade,
custa-me verificar que as notícias negativas
têm quase sempre direito a um superior
destaque jornalístico do que as positivas –
um vício profissional que, note-se, não se
restringe no jornalismo desportivo.
Nos dois
últimos dias, graças à boa cobertura
televisiva da RTP (N e 2), já pude visionar
mais de perto o que se ia passando na terra
batida do Jamor e considero forçoso
sublinhar que os que não vieram não fazem cá
falta nenhuma.
A 17ª edição do Estoril Open está longe de
ser a tristeza anunciada e parece-me mais um
retumbante êxito. No dia 1 de Maio,
verificou-se uma autêntica romaria ao Jamor
e hoje, mesmo com menos público, a festa
continuou, tal como o desfile de estrelas da
raqueta.
Como é
possível alguém queixar-se de um cartel que
apresenta dois ‘top-ten’, David Nalbandian
(o actual campeão do Masters, antigo
vice-campeão de Wimbledon, nº4 do ‘ranking’
ATP desta semana e vencedor do Estoril Open
em 2002), Nikolay Davidenko (nº6 ATP e
campeão do Estoril Open em 2003), e,
sobretudo, dois antigos nº1 do ‘ranking’
mundial, os super-carismáticos Marat Safin (ex-campeão
do US Open, duas vezes finalista do Open da
Austrália e vencedor de 5 Masters Séries) e
Carlos Moyá (antigo campeão de Roland Garros,
antigo vice-campeão do Open da Austrália e
do Masters, vencedor do Estoril Open em 2000
e detentor de 3 títulos Masters Séries)?
Quem não conhece os bastidores do ténis, não
faz a mínima ideia quão difícil é a João
Lagos concorrer com o seu “pequeno” Estoril
Open, no meio de “gigantes”. Há 30 torneios
no circuito ATP com prémios monetários
superiores ao Estoril Open e é preciso muita
sabedoria, conhecimentos, contactos e
habilidade por parte do director do torneio,
do seu adjunto (João Zilhão) e da sua
profissional equipa para conseguir um
“plantel” desta qualidade.
Trabalhei no
departamento de comunicação da João Lagos
Sports entre Abril de 1989 e Abril de 2001,
pelo que, assisti por dentro ao nascimento,
crescimento e consolidação do Estoril Open.
Só para que se tenha uma ideia, em 1990, no
ano em que o torneio ascendeu ao então ATP
Tour, só veio ao Jamor um ‘top-ten’, um
americano que não andou lá por muito tempo,
mas que nos deu uma enorme alegria, pois
ainda chegou aos quartos-de-final.
Desde então, o
Estoril Open tem apresentado um bom lote de
jogadores de renome, uns anos mais fortes do
que outros, mas também foi capaz de cimentar
– em Portugal, não tanto no estrangeiro,
onde é estrangulado por 5 Masters Series e
um Grand Slam no espaço temporal de 3 meses
– uma imagem de força, independentemente dos
jogadores que nos visitam.
Olhando para a
história das listas de participantes do
Estoril Open, garanto-vos que esta 17ª
edição é uma das fortes. Não suspiremos
apenas por aqueles que desistiram à última
da hora. Teria sido fantástico tê-los cá,
mas o lado positivo é que outros tão bons ou
melhores ficaram e deram espectáculo na
primeira ronda. João Lagos sabia que
adiantar o Estoril Open no calendário iria
trazer-lhe algumas vantagens e esta foi uma
delas.
Safin, Moyá,
Nalbandian e Davidenko ainda não brilharam o
que desejariam na terra batida em 2006 e
Roland Garros aproxima-se a passos largos.
Passar pelo teste do Jamor poderá ajudá-los
a pisar com outra confiança a passadeira
ocre de Paris. Teria este quarteto de luxo
vindo a Portugal se o Estoril Open ainda
fosse a abertura da época europeia de terra
batida? Arriscaria a responder que não.
Abençoada mudança de data. Jogada
inteligente de João Lagos, um mestre a mover
os seus peões no meio de reis, rainhas e
bispos que outros detêm no complexo
tabuleiro de xadrez que é o circuito ATP.
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