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Masters bem calçado
Ilie Nastase,
depois de perder com Bjorn Borg em Wimbledon,
disse que «o Borg é invencível até sobre um
‘court’ de amendoins».
Jim Courier e Rafael Nadal, pelas
características técnico-tácticas do seu
ténis, não estavam teoricamente fadados para
brilhar em relva, mas ambos chegaram à final
de Wimbledon.
O nível exibicional de Pete Sampras
enterrava-se sempre no pó de tijolo mas nem
por isso deixou de vencer o Masters Series
de Roma e de ganhar, praticamente sozinho, a
final da Taça Davis de 1995, sobre uma lenta
terra batida instalada no Pavilhão Olímpico
de Moscovo.
Estes exemplos servem apenas para sublinhar
que os diferentes pisos homologados pela
Federação Internacional de Ténis (ITF)
influenciam directamente os resultados
desportivos, mas não limitam de uma forma
determinista o sucesso de cada um.
Felizmente, no ténis, como em tantas coisas
na vida, a vontade férrea de um homem move
montanhas. Como escreveu o recentemente
falecido poeta António Gedeão (pseudónimo),
«o sonho comanda a vida».
Vem esta lenga-lenga a propósito da polémica
que se levantou antes do início do Masters
FPT/CIMA sobre o peculiar piso montado no
Pavilhão da Quinta dos Lombos.
Detenhamo-nos primeiro nos factos, para
depois basearmos a opinião acerca do mesmo.
A empresa norte-americana Sport Court,
representada em Portugal pela António
Florêncio Filhos, desenvolve a investigação,
fabrico e montagem de pisos desportivas,
reconhecidos oficialmente por várias
instituições, designadamente a Federação
Internacional de Ténis (ITF).
O modelo montado no Masters FPT/CIMA e no
Hotel Amazónia chama-se Power Game e é o
topo de gama para o ténis.
Nas palavras do director do Masters FPT/CIMA,
José Carlos Santos Costa, trata-se de um
«piso aborrachado, rápido, perto do betão
poroso, mas não tão rápido como a alcatifa
ou a madeira. É confortável para as
articulações, de ressalto baixo, mas,
talvez, menos baixo do que o betão poroso».
Posso estar errado, até porque não sou
treinador profissional, mas, pelo que fui
dado a ver neste Masters, favorece jogadores
atacantes, seja os que sobem à rede, seja os
que preferem agredir do fundo do ‘court’.
Saem beneficiados os detentores de um bom
serviço e capazes de bater na bola cedo,
quase em ‘half-voleys’ permanentes, como às
vezes parecia fazer Andre Agassi. É também
um piso que acentua os efeitos de chapa e ‘slice’,
atenuando, em contrapartida, o ‘top-spin’.
Hoje, no dia das meias-finais, a FPT assinou
um protocolo de três anos com a marca destes
pisos, com a duração de três anos, de 2006 a
2008, ou seja, até ao final do mandato da
actual Direcção liderada por José Corrêa de
Sampaio.
Durante estas três épocas, a AFF
compromete-se a montar dois pisos da Sport
Court por ano, em torneios à escolha da FPT,
enquanto esta, por seu lado, disponibiliza
considerável e apreciável exposição
publicitária.
Expostas premissas, vamos então à opinião e
parece-me ser um bom acordo para ambas as
partes, possivelmente positivo para o ténis
português.
A Real Federação Espanhola de Ténis andou
anos à procura de um protocolo deste tipo,
que lhe permitisse ter em Barcelona um
‘court’ ‘indoor’ permanente onde os grandes
“craques” daquela que é a segunda potência
mundial da modalidade pudessem treinar para
as competições em pisos rápidos.
Nuno Marques chegou a fazer um estágio em
Dezembro com os principais tenistas
espanhóis da altura e sabe bem a importância
que aquela infra-estrutura teve para o
desabrochar de uma nova mentalidade no ténis
espanhol, até então, demasiado conotado com
a terra batida.
Pela mesma ordem de ideias, o ténis
português, que apresenta deficiências
técnicas crónicas, com especial destaque
para o serviço e resposta ao serviço, terá
muito a ganhar se os nossos jogadores, desde
os mais jovens aos profissionais, se
tornarem mais completos e habituarem-se,
periodicamente, a actuar neste tipo de
pisos.
O Director-técnico nacional, Paulo Lucas,
disse-me que seria óptimo para o ténis
português se houvesse mais do que um torneio
por ano em superfícies deste tipo.
Lembro-me também dos tempos em que João
Cunha e Silva defendia que o Campeonato
Nacional Absoluto não deveria ser
obrigatoriamente disputado em terra batida,
podendo-se mudar de piso. Ora, com o
surgimento deste Power Game no Masters FPT/CIMA,
pode manter-se o Campeonato Nacional
Absoluto em terra batida e ter os dois
principais torneios portugueses a nível
interno realizados em pisos distintos, sendo
mais justo para os principais tenistas lusos
que manifestam diferentes características de
jogo.
O editor do Jornal do Ténis, Miguel Seabra,
defendeu também há uns anos que um treino e
uma competição exaustiva em terra batida
criava vícios técnicos crónicos que acabavam
por prejudicar a evolução de um jogador a
longo prazo.
Como todos sabem, as carpetas e os tapetes
de alcatifa ou sintéticos foram os pisos
tradicionalmente utilizados nos Masters ATP,
do WTA Tour e do ATP Tour of Champions.
E, por último, os jogadores portugueses que
tenham nível para competir
internacionalmente, entre Novembro e Março,
é bem provável que tenham de fazê-lo em
‘courts’ de características rápidas.
São estas as razões que me levam a
considerar como positiva e interessante esta
experiência. Vou, aliás, ficar na
expectativa do que vai passar-se amanhã nas
finais, na medida em que acredito que as
características do piso irão proporcionar um
bom espectáculo na transmissão televisiva na
RTP (a final masculina em directo e a
feminina em diferido).
Daqui a três anos, a FPT e a Associação de
Jogadores de Ténis de Portugal (que, segundo
a Presidente desta última, Frederica
Piedade, até têm uma boa relação
institucional) farão, seguramente, um
balanço desta experiência.
Vale a pena, no entanto, recordar que, no
final dos anos 80 do século passado, a João
Lagos Sports montou um ‘court’ de relva
sintética na Quinta da Marinha para o
Masters de um circuito satélite. Ia caindo o
Carmo e a Trindade, mas João Lagos,
visionário como de costume, sabia o que
fazia e, no final do torneio, Pedro Cordeiro
e João Cunha e Silva ganharam a prova de
pares, um grande feito para a época. Os
opositores da relva sintética fecharam-se em
copas. Anos mais tarde, já no final da
década de 90, a João Lagos Sports organizou
um circuito satélite quase exclusivamente
jogado em relva sintética e João Cunha e
Silva ficou em segundo lugar. Actualmente,
proliferam ‘courts’ de relva sintética pelo
país fora, sendo do agrado de muitos
tenistas amadores e treinadores
profissionais.
Portugal é tradicionalmente um país
conservador e gosta pouco de mudança, mas há
um argumento insofismável: se a ITF
considerasse o Power Game da Sport Court
impróprio para a modalidade, nunca o teria
homologado.
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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