Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
16º Artigo - Especial Masters FPT/CIMA 2006
8 de Dezembro de 2006


Masters bem calçado

Ilie Nastase, depois de perder com Bjorn Borg em Wimbledon, disse que «o Borg é invencível até sobre um ‘court’ de amendoins».

Jim Courier e Rafael Nadal, pelas características técnico-tácticas do seu ténis, não estavam teoricamente fadados para brilhar em relva, mas ambos chegaram à final de Wimbledon.

O nível exibicional de Pete Sampras enterrava-se sempre no pó de tijolo mas nem por isso deixou de vencer o Masters Series de Roma e de ganhar, praticamente sozinho, a final da Taça Davis de 1995, sobre uma lenta terra batida instalada no Pavilhão Olímpico de Moscovo.

Estes exemplos servem apenas para sublinhar que os diferentes pisos homologados pela Federação Internacional de Ténis (ITF) influenciam directamente os resultados desportivos, mas não limitam de uma forma determinista o sucesso de cada um.

Felizmente, no ténis, como em tantas coisas na vida, a vontade férrea de um homem move montanhas. Como escreveu o recentemente falecido poeta António Gedeão (pseudónimo), «o sonho comanda a vida».

Vem esta lenga-lenga a propósito da polémica que se levantou antes do início do Masters FPT/CIMA sobre o peculiar piso montado no Pavilhão da Quinta dos Lombos.

Detenhamo-nos primeiro nos factos, para depois basearmos a opinião acerca do mesmo.

A empresa norte-americana Sport Court, representada em Portugal pela António Florêncio Filhos, desenvolve a investigação, fabrico e montagem de pisos desportivas, reconhecidos oficialmente por várias instituições, designadamente a Federação Internacional de Ténis (ITF).

O modelo montado no Masters FPT/CIMA e no Hotel Amazónia chama-se Power Game e é o topo de gama para o ténis.

Nas palavras do director do Masters FPT/CIMA, José Carlos Santos Costa, trata-se de um «piso aborrachado, rápido, perto do betão poroso, mas não tão rápido como a alcatifa ou a madeira. É confortável para as articulações, de ressalto baixo, mas, talvez, menos baixo do que o betão poroso».

Posso estar errado, até porque não sou treinador profissional, mas, pelo que fui dado a ver neste Masters, favorece jogadores atacantes, seja os que sobem à rede, seja os que preferem agredir do fundo do ‘court’. Saem beneficiados os detentores de um bom serviço e capazes de bater na bola cedo, quase em ‘half-voleys’ permanentes, como às vezes parecia fazer Andre Agassi. É também um piso que acentua os efeitos de chapa e ‘slice’, atenuando, em contrapartida, o ‘top-spin’.

Hoje, no dia das meias-finais, a FPT assinou um protocolo de três anos com a marca destes pisos, com a duração de três anos, de 2006 a 2008, ou seja, até ao final do mandato da actual Direcção liderada por José Corrêa de Sampaio.

Durante estas três épocas, a AFF compromete-se a montar dois pisos da Sport Court por ano, em torneios à escolha da FPT, enquanto esta, por seu lado, disponibiliza considerável e apreciável exposição publicitária.

Expostas premissas, vamos então à opinião e parece-me ser um bom acordo para ambas as partes, possivelmente positivo para o ténis português.

A Real Federação Espanhola de Ténis andou anos à procura de um protocolo deste tipo, que lhe permitisse ter em Barcelona um ‘court’ ‘indoor’ permanente onde os grandes “craques” daquela que é a segunda potência mundial da modalidade pudessem treinar para as competições em pisos rápidos.

Nuno Marques chegou a fazer um estágio em Dezembro com os principais tenistas espanhóis da altura e sabe bem a importância que aquela infra-estrutura teve para o desabrochar de uma nova mentalidade no ténis espanhol, até então, demasiado conotado com a terra batida.

Pela mesma ordem de ideias, o ténis português, que apresenta deficiências técnicas crónicas, com especial destaque para o serviço e resposta ao serviço, terá muito a ganhar se os nossos jogadores, desde os mais jovens aos profissionais, se tornarem mais completos e habituarem-se, periodicamente, a actuar neste tipo de pisos.

O Director-técnico nacional, Paulo Lucas, disse-me que seria óptimo para o ténis português se houvesse mais do que um torneio por ano em superfícies deste tipo.

Lembro-me também dos tempos em que João Cunha e Silva defendia que o Campeonato Nacional Absoluto não deveria ser obrigatoriamente disputado em terra batida, podendo-se mudar de piso. Ora, com o surgimento deste Power Game no Masters FPT/CIMA, pode manter-se o Campeonato Nacional Absoluto em terra batida e ter os dois principais torneios portugueses a nível interno realizados em pisos distintos, sendo mais justo para os principais tenistas lusos que manifestam diferentes características de jogo.

O editor do Jornal do Ténis, Miguel Seabra, defendeu também há uns anos que um treino e uma competição exaustiva em terra batida criava vícios técnicos crónicos que acabavam por prejudicar a evolução de um jogador a longo prazo.

Como todos sabem, as carpetas e os tapetes de alcatifa ou sintéticos foram os pisos tradicionalmente utilizados nos Masters ATP, do WTA Tour e do ATP Tour of Champions.

E, por último, os jogadores portugueses que tenham nível para competir internacionalmente, entre Novembro e Março, é bem provável que tenham de fazê-lo em ‘courts’ de características rápidas.

São estas as razões que me levam a considerar como positiva e interessante esta experiência. Vou, aliás, ficar na expectativa do que vai passar-se amanhã nas finais, na medida em que acredito que as características do piso irão proporcionar um bom espectáculo na transmissão televisiva na RTP (a final masculina em directo e a feminina em diferido).

Daqui a três anos, a FPT e a Associação de Jogadores de Ténis de Portugal (que, segundo a Presidente desta última, Frederica Piedade, até têm uma boa relação institucional) farão, seguramente, um balanço desta experiência.

Vale a pena, no entanto, recordar que, no final dos anos 80 do século passado, a João Lagos Sports montou um ‘court’ de relva sintética na Quinta da Marinha para o Masters de um circuito satélite. Ia caindo o Carmo e a Trindade, mas João Lagos, visionário como de costume, sabia o que fazia e, no final do torneio, Pedro Cordeiro e João Cunha e Silva ganharam a prova de pares, um grande feito para a época. Os opositores da relva sintética fecharam-se em copas. Anos mais tarde, já no final da década de 90, a João Lagos Sports organizou um circuito satélite quase exclusivamente jogado em relva sintética e João Cunha e Silva ficou em segundo lugar. Actualmente, proliferam ‘courts’ de relva sintética pelo país fora, sendo do agrado de muitos tenistas amadores e treinadores profissionais.

Portugal é tradicionalmente um país conservador e gosta pouco de mudança, mas há um argumento insofismável: se a ITF considerasse o Power Game da Sport Court impróprio para a modalidade, nunca o teria homologado.

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


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