Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
2º Artigo - Especial Estoril Open 2006
Quarta-Feira, 3 de Maio de 2006


CARLOS AO QUADRADO

Deambulando pela praça central do Estoril Open, deparei-me com Carlos Ramos, um dos melhores árbitros de ténis do Mundo, que actualmente trabalha para a Federação Internacional de Ténis (ITF), sendo convocado para actuar nos quatro torneios do Grand Slam, na Taça Davis e na Taça Federação.

No ano passado, arbitrou a final feminina do Estoril Open, depois de tê-lo feito na masculina em 1998. Nos últimos anos, tem dirigido, igualmente, vários duelos no Vale do Lobo Grand Champions Millennium BCP, incluindo finais.

Em 2006 não regressará ao Algarve, «com muita pena», como me garantiu, por uma razão mais do que aceitável. No Circuito Mundial de Veteranos, o Merrill Lynch ATP Tour of Champions, as regras são aplicadas com mais suavidade. Só competem antigos nº1 do ‘ranking’ mundial, ex-campeões de torneios do Grand Slam ou da Taça Davis, e ninguém quer ver estrelas desta grandeza expulsas.

Ora, para um árbitro que, ao longo do ano, pisa os principais palcos da modalidade e tem de ser implacável no cumprimento das regras, torna-se difícil assumir uma atitude mais permissiva, diante de “monstros sagrados das raquetas” que, noutras ocasiões, assumem papéis diferentes, mas que, na Vale do Lobo Tennis Academy, jogam, brincam, gozam, barafustam e esticam as regras a um limite inimaginável noutros circuitos.

John McEnroe é o mais conceituado comentador televisivo do Mundo, Jim Courier também fala na televisão, Emílio Sanchez e Mats Wilander são capitães da Taça Davis, e poderíamos continuar a debitar exemplos. Ramos tem de “dar-se ao respeito” diante destes veteranos que irão avaliar as suas actuações em circunstâncias diferentes ao longo do ano. Por isso, embora ninguém o tenha proibido, fizeram-lhe ver que estava a arriscar muito. Nenhum dos outros árbitros ‘full-time’ da ITF actua no Merrill Lynch ATP Tour of Champions e Ramos irá seguir-lhes o exemplo.

O Estoril Open é, por isso, agora, o único torneio onde os portugueses poderão ver em acção Carlos Ramos (residente em França), um dos mais talentosos juízes de cadeira que já vi na minha carreira. Tal como entre os jogadores, também entre os árbitros há uns mais talentosos que outros, há uns mais trabalhadores que outros. O Carlos foi daqueles para quem a arbitragem surgiu quase de forma inata. Parece ter nascido para a função.

O outro Carlos da arbitragem portuguesa, o Sanches, seguiu um percurso diferente. Não que fosse mau árbitro de cadeira – chegou a arbitrar a final do Estoril Open em 1993 –, mas sempre teve a correcta percepção que, para atingir o nível superior, precisaria de muito trabalho e alguma sorte. Em contrapartida, possui, desde jovem, aptidões perfeitas para as tarefas de juiz-árbitro e de supervisor.

Investiu nessa área e foi recompensado, pertencendo à elite do Circuito ATP. Este ano, fez história, ao tornar-se no primeiro supervisor ATP do Estoril Open de nacionalidade portuguesa, mesmo se possui residências em Viena e Andorra.
«Por um lado, é claro que é só mais um torneio, como outros tantos que faço ao longo da época, mas, por outro, é evidente que é muito especial. Foi aqui que quase tudo começou, é um torneio onde conheço quase toda a gente e foi com um enorme prazer que reencontrei este ano muitas pessoas que já não via há muito tempo», disse-me hoje aquele que, há cerca de 15 anos, era um autêntico símbolo sexual nos torneios femininos que a João Lagos Sports organizava no nosso país.

É uma pena que o trabalho de supervisor seja invisível aos olhos do público, pois o Carlos Sanches é um “craque” naquele escritório donde controla todo o torneio masculino.

Quando o Estoril Open começou, em 1990, só havia um grande nome português na arbitragem mundial – Jorge Dias, ainda hoje considerado o melhor árbitro português de todos os tempos. Os seus sucessores, os dois Carlos, cada um à sua maneira, atingiram o topo da hierarquia na profissão que escolheram.

Mas também eles já têm seguidores e foi com enorme gozo que ontem, ao dirigir-me às instalações dos árbitros da ATP e do WTA Tour, deparei com quase mais uma dezena de representantes nacionais, alguns com credenciais apreciáveis, como Mariana Alves, Rogério Santos, outros com um passado de prestígio como Paulo Oliveira, e mais alguns, jovens, com muitos sonhos à sua frente. Na arbitragem, o ténis português continua com futuro à vista.

 

 

 


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