Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
23º Artigo - Especial "Federer no Estoril Open 2008"
18 de Setembro de 2007


O Que Supera Federer

Durante o Estoril Open de 2006 escrevi neste Court & Costura que João Lagos é o Papa do ténis português e teve graça verificar que hoje o próprio Lagos considerou Roger Federer o Papa do ténis mundial, comparando a sua vinda ao Estoril Open de 2008 com as algo frequentes visitas papais a Portugal, designadamente ao santuário de Fátima.

A confirmação da contratação de Federer para o Estoril Open de 2008 foi uma das melhores notícias de sempre do ténis português e merecerá uma série especial de edições deste Court & Costura.

Nesse sentido, convido os leitores do Luso Ténis a lerem-me nas próximas semanas, pois muito há para dissecar sobre este assunto, desde análises mais óbvias e objectivas a outras mais subjectivas e politicamente menos correctas.

Por agora, separando o essencial do acessório, é primordial elogiar a iniciativa de João Lagos e da sua formidável equipa por mais um importantíssimo serviço prestado ao ténis português. Estou convencido que aquele público maravilhoso que encheu o Pavilhão Atlântico em 2000 para ver a Tennis Masters Cup irá voltar a responder a este desafio, abarrotando por completo as instalações provisórias que forem montadas no Estádio Nacional (eis um dos temas a regressar no futuro).

Roger Federer é já um dos melhores tenistas de todos os tempos, senão mesmo o melhor (eis outro tema a abordar), e um dos dois principais desportistas da actualidade, a par do seu amigo Tiger Woods. As autênticas romarias, em direcção ao Jamor, a que iremos seguramente assistir, terão por objectivo único conseguir o privilégio de admirar ao vivo Roger Federer e arrisco mesmo o exagero de dizer que os outros 31 jogadores do quadro principal até poderão ser coxos porque, com o suíço em prova, João Lagos já garantiu o melhor Estoril Open de sempre.

A João Lagos Sports promoveu a conferência de Imprensa de hoje como a melhor notícia de sempre de um Estoril Open que vai para a sua 19ª edição e o director do torneio acrescentou que melhor notícia ainda seria anunciar a sede definitiva da etapa portuguesa dos Tours da ATP e da WTA.

Na minha modesta opinião – e vale a pena aqui frisar que o Court & Costura é, desde o seu nascimento, uma coluna extremamente subjectiva, sem a pretensão de afirmar a minha opinião como superior à de qualquer outro – a contratação de Roger Federer é “apenas” a segunda melhor notícia de sempre do Estoril Open. A primeira, a melhor, foi a entrada do Estoril Open para o ATP Tour em 1990.

Não faço a mínima ideia das dificuldades sentidas por João Lagos para convencer o nº1 mundial a vir ao Estoril Open, mas basta olhar para o que tem sido a sua programação para se ficar com uma ideia do milagre conseguido pelo director de torneio: desde que é nº1 mundial, ou seja, nas épocas de 2004, 2005, 2006 e 2007, Roger Federer não jogou um único torneio de terra batida antes de Roland Garros que não faça parte da categoria de Tennis Masters Series (Monte Carlo, Roma e Hamburgo)! Trazê-lo ao pequenino (se comparado com os “monstros” do circuito) Estoril Open em 2008 é um feito notável.

No entanto, esta proeza exigiu “apenas” capacidade financeira e dotes de argumentação.

Em contrapartida, a integração do Estoril Open no ATP Tour em 1990, para além desses dois atributos (dinheiro e génio discursivo) implicou ainda por parte de João Lagos visão, ousadia e coragem.

Entre o Verão de 1988 e o Inverno de 1990 viveu-se um período tumultuoso no ténis mundial. Os jogadores profissionais revoltaram-se contra um circuito organizado de forma arcaica e autoritária pela Federação Internacional de Ténis (ITF).

E não se pense que os jogadores tinham o peso político actual. Tiveram de enfrentar os todo-poderosos torneios do Grand Slam, que se colocaram ao lado da ITF, tal como a WTA e a esmagadora maioria das federações nacionais (a Federação Portuguesa de Ténis, por exemplo, não soube ler os ventos de mudança e perdeu nesse momento a influência e liderança que tinha no desenvolvimento da modalidade no nosso país).

Estou a falar-vos de um tempo em que a Federação de Ténis Norte-americana (USTA), durante o US Open, recusou ceder uma sala do gigantesco complexo de ténis de Flushing Meadows, forçando os jogadores (entre os quais Mats Wilander) a convocarem uma conferência de Imprensa num parque de estacionamento, onde apresentaram as suas queixas e o seu novo circuito.

Estou a recordar-vos jogadas de bastidores diante de promotores de torneios e de patrocinadores importantes, tentando asfixiar a revolta dos jogadores.

Estou a reportar-vos à criação da defunta e milionária Taça do Grand Slam para ofuscar a Tennis Masters Cup, então apelidada de Campeonato do Mundo do ATP Tour.

Estou a tornar públicas guerras fratricidas entre os Gabinetes de Imprensa da ITF e do ATP Tour, criando autênticas divisões na Imprensa entre os jornalistas que apoiavam o lado federativo (liderados pelos britânicos e italianos) e aqueles que estavam dispostos a dar o benefício da dúvida aos jogadores (sobretudo os americanos e também os alemães).

Foi neste contexto bélico que João Lagos, há cerca de 20 anos, quando já era conhecido nos meandros do ténis mundial mas ainda não dispunha de qualquer peso político nas decisões estratégicas da modalidade a nível internacional, teve a visão e a perspicácia de perceber que o futuro estava na aliança de jogadores e torneios, mesmo que isso significasse afrontar as poderosas federações e os torneios do Grand Slam.

Ao aceitar o desafio de integrar o original ATP Tour, incluindo uma etapa portuguesa logo no primeiro circuito de 1990, criou aquela que, para mim, ainda é a principal e a grande notícia da história do Estoril Open.

E como o próprio João Lagos tem sublinhado tantas vezes, o Estoril foi o princípio de tudo. Sem ele, o ténis português não teria atingido o nível de profissionalismo que hoje em dia denota nos mais variados sectores; sem ele não teria havido a Tennis Masters Cup de Lisboa 2000; sem ele a João Lagos Sports não se teria tornado neste autêntico império desportivo que tanto motivo de orgulho tem dado a Portugal, graças a irrepreensíveis organizações de eventos, sistematicamente apresentados no estrangeiro como exemplos de elevada qualidade.

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


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