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O Que Supera Federer
Durante o
Estoril Open de 2006 escrevi neste Court &
Costura que João Lagos é o Papa do ténis
português e teve graça verificar que hoje o
próprio Lagos considerou Roger Federer o
Papa do ténis mundial, comparando a sua
vinda ao Estoril Open de 2008 com as algo
frequentes visitas papais a Portugal,
designadamente ao santuário de Fátima.
A confirmação da contratação de Federer para
o Estoril Open de 2008 foi uma das melhores
notícias de sempre do ténis português e
merecerá uma série especial de edições deste
Court & Costura.
Nesse sentido, convido os leitores do Luso
Ténis a lerem-me nas próximas semanas, pois
muito há para dissecar sobre este assunto,
desde análises mais óbvias e objectivas a
outras mais subjectivas e politicamente
menos correctas.
Por agora, separando o essencial do
acessório, é primordial elogiar a iniciativa
de João Lagos e da sua formidável equipa por
mais um importantíssimo serviço prestado ao
ténis português. Estou convencido que aquele
público maravilhoso que encheu o Pavilhão
Atlântico em 2000 para ver a Tennis Masters
Cup irá voltar a responder a este desafio,
abarrotando por completo as instalações
provisórias que forem montadas no Estádio
Nacional (eis um dos temas a regressar no
futuro).
Roger Federer é já um dos melhores tenistas
de todos os tempos, senão mesmo o melhor
(eis outro tema a abordar), e um dos dois
principais desportistas da actualidade, a
par do seu amigo Tiger Woods. As autênticas
romarias, em direcção ao Jamor, a que iremos
seguramente assistir, terão por objectivo
único conseguir o privilégio de admirar ao
vivo Roger Federer e arrisco mesmo o exagero
de dizer que os outros 31 jogadores do
quadro principal até poderão ser coxos
porque, com o suíço em prova, João Lagos já
garantiu o melhor Estoril Open de sempre.
A João Lagos Sports promoveu a conferência
de Imprensa de hoje como a melhor notícia de
sempre de um Estoril Open que vai para a sua
19ª edição e o director do torneio
acrescentou que melhor notícia ainda seria
anunciar a sede definitiva da etapa
portuguesa dos Tours da ATP e da WTA.
Na minha modesta opinião – e vale a pena
aqui frisar que o Court & Costura é, desde o
seu nascimento, uma coluna extremamente
subjectiva, sem a pretensão de afirmar a
minha opinião como superior à de qualquer
outro – a contratação de Roger Federer é
“apenas” a segunda melhor notícia de sempre
do Estoril Open. A primeira, a melhor, foi a
entrada do Estoril Open para o ATP Tour em
1990.
Não faço a mínima ideia das dificuldades
sentidas por João Lagos para convencer o nº1
mundial a vir ao Estoril Open, mas basta
olhar para o que tem sido a sua programação
para se ficar com uma ideia do milagre
conseguido pelo director de torneio: desde
que é nº1 mundial, ou seja, nas épocas de
2004, 2005, 2006 e 2007, Roger Federer não
jogou um único torneio de terra batida antes
de Roland Garros que não faça parte da
categoria de Tennis Masters Series (Monte
Carlo, Roma e Hamburgo)! Trazê-lo ao
pequenino (se comparado com os “monstros” do
circuito) Estoril Open em 2008 é um feito
notável.
No entanto, esta proeza exigiu “apenas”
capacidade financeira e dotes de
argumentação.
Em contrapartida, a integração do Estoril
Open no ATP Tour em 1990, para além desses
dois atributos (dinheiro e génio discursivo)
implicou ainda por parte de João Lagos
visão, ousadia e coragem.
Entre o Verão de 1988 e o Inverno de 1990
viveu-se um período tumultuoso no ténis
mundial. Os jogadores profissionais
revoltaram-se contra um circuito organizado
de forma arcaica e autoritária pela
Federação Internacional de Ténis (ITF).
E não se pense que os jogadores tinham o
peso político actual. Tiveram de enfrentar
os todo-poderosos torneios do Grand Slam,
que se colocaram ao lado da ITF, tal como a
WTA e a esmagadora maioria das federações
nacionais (a Federação Portuguesa de Ténis,
por exemplo, não soube ler os ventos de
mudança e perdeu nesse momento a influência
e liderança que tinha no desenvolvimento da
modalidade no nosso país).
Estou a falar-vos de um tempo em que a
Federação de Ténis Norte-americana (USTA),
durante o US Open, recusou ceder uma sala do
gigantesco complexo de ténis de Flushing
Meadows, forçando os jogadores (entre os
quais Mats Wilander) a convocarem uma
conferência de Imprensa num parque de
estacionamento, onde apresentaram as suas
queixas e o seu novo circuito.
Estou a recordar-vos jogadas de bastidores
diante de promotores de torneios e de
patrocinadores importantes, tentando
asfixiar a revolta dos jogadores.
Estou a reportar-vos à criação da defunta e
milionária Taça do Grand Slam para ofuscar a
Tennis Masters Cup, então apelidada de
Campeonato do Mundo do ATP Tour.
Estou a tornar públicas guerras fratricidas
entre os Gabinetes de Imprensa da ITF e do
ATP Tour, criando autênticas divisões na
Imprensa entre os jornalistas que apoiavam o
lado federativo (liderados pelos britânicos
e italianos) e aqueles que estavam dispostos
a dar o benefício da dúvida aos jogadores
(sobretudo os americanos e também os
alemães).
Foi neste contexto bélico que João Lagos, há
cerca de 20 anos, quando já era conhecido
nos meandros do ténis mundial mas ainda não
dispunha de qualquer peso político nas
decisões estratégicas da modalidade a nível
internacional, teve a visão e a perspicácia
de perceber que o futuro estava na aliança
de jogadores e torneios, mesmo que isso
significasse afrontar as poderosas
federações e os torneios do Grand Slam.
Ao aceitar o desafio de integrar o original
ATP Tour, incluindo uma etapa portuguesa
logo no primeiro circuito de 1990, criou
aquela que, para mim, ainda é a principal e
a grande notícia da história do Estoril Open.
E como o próprio João Lagos tem sublinhado
tantas vezes, o Estoril foi o princípio de
tudo. Sem ele, o ténis português não teria
atingido o nível de profissionalismo que
hoje em dia denota nos mais variados
sectores; sem ele não teria havido a Tennis
Masters Cup de Lisboa 2000; sem ele a João
Lagos Sports não se teria tornado neste
autêntico império desportivo que tanto
motivo de orgulho tem dado a Portugal,
graças a irrepreensíveis organizações de
eventos, sistematicamente apresentados no
estrangeiro como exemplos de elevada
qualidade.
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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