Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
24º Artigo - Especial Masters FPT/CIMA 2007
7 de Dezembro de 2007


Uma Travessia Sobre Confrontos de Gerações

O Masters português nasceu com o patrocínio da TMN em 1995, só no sector masculino, juntando-se-lhe o torneio feminino em 1997. Estávamos em plena Era dourada do ténis português, com o quinteto de luxo formado por João Cunha e Silva, Nuno Marques, Bernardo Mota, Emanuel Couto e Sofia Prazeres.

Se entre os homens o equilíbrio era a nota dominante, nas mulheres o domínio de Prazeres era tal que andou oito anos seguidos sem ser derrotada por qualquer adversária nacional, terminando a sua carreira com uma segunda vitória no Masters TMN, em Espinho, em 1998. É sempre bonito pendurar as raquetas com uma vitória, mas mais ainda com o sabor especial da invencibilidade interna.

Esse feito notável poderá permanecer eternamente na nossa história, já que as nº1 nacionais que lhe sucederam nunca mais exerceram um reinado tão avassalador intramuros, não obstante jogadoras como Frederica Piedade e Neuza Silva terem coleccionado um palmarés internacional bem superior.

António Cabral, que treinou Sofia Prazeres desde menina e acompanhou-a até metade da sua muito curta carreira profissional, considera que a sua ex-pupila abandonou precocemente a alta competição, aos 24 anos, um ano depois de ter chegado ao 159º posto do ‘ranking’ mundial, uma classificação só superada por uma portuguesa – Frederica Piedade.

Recorda-se António Cabral: «A Sofia tinha uma mentalidade que nunca tínhamos tido e nunca mais tivemos. Desde os 11 anos que se habituou a jogar mais no estrangeiro do que em Portugal e isso fazia com que sentisse elevadíssimos níveis de confiança diante de compatriotas. Não só a Sofia não tinha medo de medir forças com elas, como jogava os principais torneios portugueses com a motivação extra de querer arrasar a concorrência. Mesmo nos encontros mais equilibrados, dizia sempre que nunca tinha estado em perigo, que quando queria acelerava e resolvia as coisas em seu favor. O problema da Sofia era a falta de paciência para jogar torneios pouco relevantes mas é preciso passar por eles para se chegar aos maiores eventos do Mundo. Ela só queria defrontar as grandes figuras da modalidade. Isso é que a motivava. Lembro-me de uma Taça Federação em que fui capitão de Portugal. No sorteio poderia calhar-nos o Brasil ou a Alemanha e enquanto a Tânia Couto desejava o Brasil, a Sofia andava a sonhar com a Alemanha para defrontar a Steffi Graf. Num torneio como Masters, a Sofia sentia-se como uma actriz num palco. Com os holofotes todos virados para ela, era a altura de brilhar e não fraquejava».

Esta atitude de superioridade desportivamente arrogante – que a levou a ganhar os últimos nove Campeonatos Nacionais que disputou, entre 1990 e 1991 – parecia estar de volta, nos últimos tempos, ao ténis feminino português graças a Neuza Silva.

Os Media nacionais não têm querido dar – ou talvez não se tenham apercebido – a devida importância ao feito desportivo e pessoal conseguido por Neuza nos últimos dois anos, algo que já não me deixa admirado, pois a Comunicação Social lusa também demorou anos a descortinar que Frederica Piedade estava aos poucos a coleccionar o mais rico palmarés português de sempre no que se refere ao ténis feminino.

É preciso recuar um pouco e pensar que, aos 22 anos, minada por lesões, Neuza confessou ter estado mais perto de se reformar do que em apostar na ressurreição da sua carreira. Dois anos depois, aos 24 anos, é uma jogadora nova, capaz de lutar com as “meninas-prodígio” de todo o Mundo, que enchem os torneios de 10.000 e 25.000 dólares com apenas 14, 15 ou 16 anos. Não é fácil.

Em 2006 e 2007, Neuza encetou uma recuperação espectacular que a levou ao 196º posto do ‘ranking’ mundial, a terceira melhor classificação de sempre de uma portuguesa no WTA Tour. Pelo caminho, atingiu 12 finais de torneios internacionais, tendo ganho seis deles.

Durante este período, em Portugal, arrebatou os dois últimos Campeonatos Nacionais, o Masters FPT/CIMA do ano passado e era a grande favorita para revalidar o título na 12ª edição do torneio (a 10ª no sector feminino) que termina neste Sábado, dia 7. A sua superioridade interna vinha-se afirmando mês após mês, torneio após torneio, tendo sido simbólica a final do Masters FPT/CIMA do ano passado, ganha diante de Frederica Piedade. Ao bater a melhor tenista portuguesa de todos os tempos, Neuza marcou fortemente a concorrência interna e este ano arrecadou os cinco torneios do Circuito FPT/CIMA que disputou.

É neste contexto de enorme supremacia que deve analisar-se a surpreendente derrota de Neuza nas meias-finais do Masters FPT/CIMA, ainda por cima diante de Maria João Koehler, uma jovem de apenas 15 anos!

Se na final do Masters TMN de 1998 a vitória de Sofia Prazeres sobre Ana Nogueira poderá ter funcionado como uma passagem de testemunho (Ana Nogueira venceu cinco das seis edições seguintes), também a final de 2007, entre a agora veterana Nogueira e a adolescente Koehler, poderá ser um sinal dos novos tempos.

A derrota com Koehler foi a primeira de Neuza com uma portuguesa desde o desaire frente a Nogueira na final do Open de Cantanhede em Maio de 2006, mas mais surpreendente foi a forma como a jovem lusa de origem alemã a concretizou.

Maria João já era sobejamente conhecida pelo seu enorme talento (a fazer lembrar o seu treinador Nuno Marques), mas também por ter um jogo errático, do tudo ou nada, sem plano-b nem margem para erro.

As novidades na forma como lidou com Neuza Silva foram a estabilidade emocional e a noção táctica que revelou. Soube ser agressiva sem cometer faltas não provocadas em excesso (um dos seus habituais pontos fracos), apercebeu-se de como tirar partido de ser esquerdina, não só na variação de efeitos do serviço, mas sobretudo nas trocas de bola da sua poderosa direita para a esquerda em ‘slice’ de Neuza, e geriu muito bem os chamados momentos-chave do encontro, designadamente três: quando permitiu a recuperação de Neuza no primeiro ‘set’ de 2-5 para 4-5, mantendo a cabeça fria para fechar a 6-4; quando aguentou a subida de nível de Neuza nos primeiros jogos do segundo ‘set’; e quando resistiu com consistência sem deixar de ser agressiva na fase final do segundo ‘set’ em que Neuza optou por dar a iniciativa à adversária na tentativa de levá-la ao erro.

«Ela esteve de facto muito bem e preparou como deve ser este encontro», disse Nuno Marques, o treinador e ídolo de Maria João. A jogadora foi bem mais expansiva nas explicações: «Não costumava estudar com o Nuno o jogo das adversárias, mas há dois dias o Nuno disse-me que talvez não fosse má ideia ficarmos a ver alguns jogos das outras e incentivou-me a tirar notas. Acho que deu resultados positivos hoje».

Ana Nogueira, que vai defrontar Maria João na final do Masters FPT/CIMA de 2007, depois de ter necessitado de três ‘sets’ para derrotá-la em Maio, na final do Open Fundação da Cidade de Vila Real de Santo António, é reconhecida pelas suas pares como uma estratega nata.

Não foi, por isso, por acaso, que Maria João pediu a Ana para se sentar a seu lado durante o duelo entre Neuza e Joana Pangaio (treinada por Nogueira). «A Maria João fez-me imensas perguntas sobre as minhas opiniões em relação às direcções do serviço da Neuza e a muitos outros pormenores». A aprendizagem do ténis também se faz nestes detalhes e Maria João parece estar a interiorizar que o seu reconhecido talento não é suficiente para singrar ao mais alto nível.

Ana é, sem dúvida, a jogadora portuguesa mais inteligente, aquela que melhor gere os seus atributos técnicos e físicos. Se a virmos em competição, constatamos que faz tudo bem, mas nada de extraordinário. Não tem o melhor serviço, a melhor esquerda, a melhor direita ou o melhor vólei, mas sabe fazer de tudo um pouco.

A força desta licenciada em Educação Física está na inteligente selecção de ‘shots’ em determinados momentos de jogo, na poupança de esforços desnecessários e na interpretação do marcador, não jogando da mesma forma um 30-15 ou um 15-30.

Na última década, Ana guindou-se e manteve-se ao mais alto nível do ténis nacional, atingindo finais de Campeonatos Nacionais e de Masters e assegurando o seu lugar na selecção nacional da Fed Cup, atravessando gerações sucessivas de campeãs. Quando chegou à sua primeira final do Masters ainda jogavam Sofia Prazeres e Joana Pedroso. Depois delas vieram as irmãs Gaspar, depois foram Helga Vieira e Frederica Piedade, depois Neuza Silva e Magali De Lattre e agora está na sua sétima final do Masters, procurando dilatar o seu recorde nacional de títulos na competição para seis, defrontando uma “miúda” de 15 anos.

«Tenho muita pena se tiver de competir menos no próximo ano», disse-me hoje, referindo-se ao facto de ter ficado com mais responsabilidades enquanto treinadora do Centro de Ténis de Espinho, depois do técnico André Lopes ter decidido mudar-se para Lisboa. Com quase duas dezenas de jovens jogadores de alta competição ou pré-competição sob sua alçada, Ana sabe que deverá dispor de muito menos tempo em 2008 para deambular pelo Circuito FPT/CIMA, ela que, aos 29 anos, em 2007, ainda se deu ao luxo de conquistar quatro títulos, um deles num evento internacional de dez mil dólares.

Se esta final do Masters FPT/CIMA for o “canto de cisne” de Ana Nogueira, não será só ela, mas todos nós, todo o ténis português, a lamentar o final de uma admirável, longa e bem sucedida carreira.

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


View My Stats