Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
26º Artigo - Especial Estoril Open 2008
14 de Abril de 2008


Federer veio para ganhar

Em 2007, o Estoril Open ultrapassou as 200 credenciais atribuídas aos Media e prevê-se que este ano esse número seja largamento suplantado. Mas é nesta 19ª edição, cujo 'Court' Central apresenta mais de mil lugares do que no ano passado, que os jornalistas têm menos oportunidade de assistir aos encontros no palco principal do Jamor. Apenas 35, o que provoca uma autência dança das cadeiras!

O paradoxo é, no entanto, apenas aparente porque, como é óbvio, se o estádio aumentou foi porque se previa a forte afluência que se tem verificado. Só os dois dias de 'qualifying' atraíram quase dez mil espectadores e hoje, no primeiro dia do quadro principal, andou-se perto dos cinco mil.

Rui Oliveira, 'Media Manager' do torneio, avisou que «os três últimos dias já têm lotação esgotada e o de amanhã, terça-feira, só tem 380 bilhetes por vender».

O facto de João Lagos ter atribuído seis 'wild cards' a portugueses ajuda à festa, sobretudo quando a “Michellemania” anda no ar. E a qualificação de João de Sousa, tornando-se apenas no segundo português a passar o 'qualifying' (depois de Bernardo Mota em 1992), chama ainda mais a atenção do público.

O seleccionador nacional, Pedro Cordeiro, disse mesmo, na conferência de Imprensa de encerramento do Portugal-Tunísia da Taça Davis, que «um bom português, atrai mais público do que, por exemplo, o Marat Safin».

Como passei o fim-de-semana a acompanhar a selecção nacional no Clube de Ténis do Estoril, desloquei-me hoje pela primeira vez ao Jamor e foi de imediato visível o muito maior interesse do público neste Estoril Open. O parque de estacionamento estava a abarrotar pelas costuras e os transportes públicos que fazem a ligação ao complexo de ténis passaram de 'navettes' de nove pessoas para autocarros com capacidade para dezenas.

Sem acesso ao 'Court' Central, optei por deambular pelas alamedas do Jamor e tive a sorte de assistir ao treino de Roger Federer com o russo Andrey Golubev, eliminado por João de Sousa no 'qualifying'. No campo ao lado, jogavam a checa Klara Zakopalova, sexta cabeça-de-série, e a russa Evgeniya Rodina.

Como o 'court' em que treinava Federer não tinha bancadas, centenas de pessoas encheram os lugares adjacentes ao campo do 'match' Zakopalova-Rodina. Foi uma autêntica balbúrdia no oeste. A árbitra de cadeira bem tentava manter a ordem e as jogadoras fitavam os espectadores com aquele semblante como que a dizer: «se o olhar matasse...», mas não havia maneira. O pessoal aplaudia os 'shots' de Federer, comentava o treino, tirava fotografias, andava nas bancadas – um festival.

Mas a vinda de 'King Roger' a Portugal – a sua quarta visita ao país e a primeira para jogar no Jamor – é isso mesmo, uma grande festa, cimentando o prestígio daquele que é o mais importante torneio de ténis português.

Como eu, muitos espectadores não terão acesso ao 'Court' Central e só terão duas hipóteses: vê-lo pela televisão – o que não é a mesma coisa, apesar dos superiores comentários do meu amigo Manuel Perez – ou regalar os olhos durante os treinos.

Um dos aspectos que me agradou no treino de hoje foram as muitas dezenas de jovens, crianças mesmo, com idades até aos 10, 12 anos, que nem queriam saber de mais nada, a não ser de Federer, à caça do autógrafo, da fotografia, mas, ao mesmo tempo, apreciando o seu ténis. «Ena pá, viste aquele serviço», dizia um; «e a direita», acrescentava outro; «já viste que poderei ser eu a jogar com ele um dia se me dedicar a sério a isto?», indagava-se ainda um terceiro.

Os grupos de crianças eram acompanhados por professores de Educação Física, alguns treinadores de ténis, que aproveitavam para dar lições práticas na bancada, para desespero de Zakopalova e Rodina e gáudio de Federer que, como o próprio afirmou mais tarde, gosta de dar autógrafos e de ajudar pequenos torneios como o Estoril Open transformarem-se em grandes veículos de promoção da modalidade.

Muitos espectadores ficaram desagradavelmente surpreendidos pelo campeão de 12 títulos do 'Grand Slam' se aplicar tão pouco no treino, optando por um estilo brincalhão, sem se preocupar com os erros que cometia ou com os pontos que perdia. Aliás, parecia bem mais concentrado no embate Zakopalova-Rodina do que no seu próprio e suspeito que apreciou alguns 'winners' da checa.

Gastão Elias, que já treinou com Federer e Nadal, explicou em tempos que os dois “craques” da actualidade são bem diferentes. O suíço treina descontraído, enquanto o espanhol quase nem fala de tão concentrado que está nas suas tarefas.

Cada “estrela” tem a sua maneira própria de treinar. A Pete Sampras, todos lhe ganhavam nos treinos, mas quando a coisa era a doer... já piava mais fininho e ainda são dele os recordes de títulos do 'Grand Slam' e de logevidade enquanto nº1 mundial. Thomas Muster, treinava horas a fio e aqui, no Estoril Open, ainda ia “encher o cabedal” para o balneário depois dos encontros. Já Andre Agassi preferia sessões curtas, de cerca de 40 a 50 minutos, mas com uma intensidade nunca antes vista.

Que não se preocupem os que idolatram o nº1 mundial. Federer não veio ao Estoril Open passear, apesar de confessar que já fez mais turismo em três dias do que nas duas vezes em que veio para os Laureus World Sports Awards.

O pentacampeão de Wimbledon está aqui para ganhar e um dado importante para se avaliar o seu sério compromisso com o torneio é o facto de ter trazido toda a sua equipa de apoio.

Como o próprio brincou com a situação, «só faltou o encordoador», mas vieram o fisioterapeuta, José Higueras (o treinador que está à experiência uma semana, depois de ter treinado vários anos Jim Courier e alguns meses Pete Sampras) e Mirka Vavrinec (a companheira e responsável por alguns sectores da sua carreira).

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


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