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Federer veio para ganhar
Em 2007, o
Estoril Open ultrapassou as 200 credenciais
atribuídas aos Media e prevê-se que este ano
esse número seja largamento suplantado. Mas
é nesta 19ª edição, cujo 'Court' Central
apresenta mais de mil lugares do que no ano
passado, que os jornalistas têm menos
oportunidade de assistir aos encontros no
palco principal do Jamor. Apenas 35, o que
provoca uma autência dança das cadeiras!
O paradoxo é,
no entanto, apenas aparente porque, como é
óbvio, se o estádio aumentou foi porque se
previa a forte afluência que se tem
verificado. Só os dois dias de 'qualifying'
atraíram quase dez mil espectadores e hoje,
no primeiro dia do quadro principal,
andou-se perto dos cinco mil.
Rui Oliveira,
'Media Manager' do torneio, avisou que «os
três últimos dias já têm lotação esgotada e
o de amanhã, terça-feira, só tem 380
bilhetes por vender».
O facto de
João Lagos ter atribuído seis 'wild cards' a
portugueses ajuda à festa, sobretudo quando
a “Michellemania” anda no ar. E a
qualificação de João de Sousa, tornando-se
apenas no segundo português a passar o
'qualifying' (depois de Bernardo Mota em
1992), chama ainda mais a atenção do
público.
O
seleccionador nacional, Pedro Cordeiro,
disse mesmo, na conferência de Imprensa de
encerramento do Portugal-Tunísia da Taça
Davis, que «um bom português, atrai mais
público do que, por exemplo, o Marat Safin».
Como passei o
fim-de-semana a acompanhar a selecção
nacional no Clube de Ténis do Estoril,
desloquei-me hoje pela primeira vez ao Jamor
e foi de imediato visível o muito maior
interesse do público neste Estoril Open. O
parque de estacionamento estava a abarrotar
pelas costuras e os transportes públicos que
fazem a ligação ao complexo de ténis
passaram de 'navettes' de nove pessoas para
autocarros com capacidade para dezenas.
Sem acesso ao
'Court' Central, optei por deambular pelas
alamedas do Jamor e tive a sorte de assistir
ao treino de Roger Federer com o russo
Andrey Golubev, eliminado por João de Sousa
no 'qualifying'. No campo ao lado, jogavam a
checa Klara Zakopalova, sexta
cabeça-de-série, e a russa Evgeniya Rodina.
Como o 'court'
em que treinava Federer não tinha bancadas,
centenas de pessoas encheram os lugares
adjacentes ao campo do 'match'
Zakopalova-Rodina. Foi uma autêntica
balbúrdia no oeste. A árbitra de cadeira bem
tentava manter a ordem e as jogadoras
fitavam os espectadores com aquele semblante
como que a dizer: «se o olhar matasse...»,
mas não havia maneira. O pessoal aplaudia os
'shots' de Federer, comentava o treino,
tirava fotografias, andava nas bancadas – um
festival.
Mas a vinda de
'King Roger' a Portugal – a sua quarta
visita ao país e a primeira para jogar no
Jamor – é isso mesmo, uma grande festa,
cimentando o prestígio daquele que é o mais
importante torneio de ténis português.
Como eu,
muitos espectadores não terão acesso ao
'Court' Central e só terão duas hipóteses:
vê-lo pela televisão – o que não é a mesma
coisa, apesar dos superiores comentários do
meu amigo Manuel Perez – ou regalar os olhos
durante os treinos.
Um dos
aspectos que me agradou no treino de hoje
foram as muitas dezenas de jovens, crianças
mesmo, com idades até aos 10, 12 anos, que
nem queriam saber de mais nada, a não ser de
Federer, à caça do autógrafo, da fotografia,
mas, ao mesmo tempo, apreciando o seu ténis.
«Ena pá, viste aquele serviço», dizia um; «e
a direita», acrescentava outro; «já viste
que poderei ser eu a jogar com ele um dia se
me dedicar a sério a isto?», indagava-se
ainda um terceiro.
Os grupos de
crianças eram acompanhados por professores
de Educação Física, alguns treinadores de
ténis, que aproveitavam para dar lições
práticas na bancada, para desespero de
Zakopalova e Rodina e gáudio de Federer que,
como o próprio afirmou mais tarde, gosta de
dar autógrafos e de ajudar pequenos torneios
como o Estoril Open transformarem-se em
grandes veículos de promoção da modalidade.
Muitos
espectadores ficaram desagradavelmente
surpreendidos pelo campeão de 12 títulos do
'Grand Slam' se aplicar tão pouco no treino,
optando por um estilo brincalhão, sem se
preocupar com os erros que cometia ou com os
pontos que perdia. Aliás, parecia bem mais
concentrado no embate Zakopalova-Rodina do
que no seu próprio e suspeito que apreciou
alguns 'winners' da checa.
Gastão Elias,
que já treinou com Federer e Nadal, explicou
em tempos que os dois “craques” da
actualidade são bem diferentes. O suíço
treina descontraído, enquanto o espanhol
quase nem fala de tão concentrado que está
nas suas tarefas.
Cada “estrela”
tem a sua maneira própria de treinar. A Pete
Sampras, todos lhe ganhavam nos treinos, mas
quando a coisa era a doer... já piava mais
fininho e ainda são dele os recordes de
títulos do 'Grand Slam' e de logevidade
enquanto nº1 mundial. Thomas Muster,
treinava horas a fio e aqui, no Estoril
Open, ainda ia “encher o cabedal” para o
balneário depois dos encontros. Já Andre
Agassi preferia sessões curtas, de cerca de
40 a 50 minutos, mas com uma intensidade
nunca antes vista.
Que não se
preocupem os que idolatram o nº1 mundial.
Federer não veio ao Estoril Open passear,
apesar de confessar que já fez mais turismo
em três dias do que nas duas vezes em que
veio para os Laureus World Sports Awards.
O pentacampeão
de Wimbledon está aqui para ganhar e um dado
importante para se avaliar o seu sério
compromisso com o torneio é o facto de ter
trazido toda a sua equipa de apoio.
Como o próprio
brincou com a situação, «só faltou o
encordoador», mas vieram o fisioterapeuta,
José Higueras (o treinador que está à
experiência uma semana, depois de ter
treinado vários anos Jim Courier e alguns
meses Pete Sampras) e Mirka Vavrinec (a
companheira e responsável por alguns
sectores da sua carreira).
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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