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Deixem o Gastão ir surfar
Não sei se fui
o único a notar, mas quando na sala de
conferências de Imprensa Gastão Elias foi
interpelado sobre a sua programação mais
próxima respondeu sempre no condicional:
«deveria jogar quatro torneios seguidos na
Europa,...».
O outro Gastão
da mesma família estava sentado ao meu lado
e perguntei-lhe: «Porque está ele a falar no
condicional? Não vai jogá-los?».
«Ele está a
precisar de uma semana de folga e é possível
que não vá jogar tudo o que está previsto»,
disse-me o pai.
Desde já se
diga, para que não me acusem de
inconfidência, que este foi um dos temas
mais abordados nas conferências de Imprensa
do Portugal-Tunísia da Taça Davis, na semana
passada e acrescento que o Gastão, pai, tem
uma postura fantástica, pois quando fala,
fá-lo sempre em seu nome e não pelo filho,
não só por respeito ao jogador, mas também
por toda a equipa técnica que o rodeia, essa
sim, responsável pelo calendário competitivo
da jovem promessa lusa.
No entanto,
Gastão, pai, não estava mais do que a
expressar algo que o próprio Gastão, filho,
já me tinha dito na semana passada no Clube
de Ténis do Estoril: «Desde a eliminatória
da Taça Davis com a Holanda que não páro e
com a recente lesão no joelho ainda foi
pior». Atenção que estamos a falar de uma
actividade permanente desde Setembro...
Ricardo Ycaza
só há pouco foi contratado para orientar
tecnicamente a carreira do jogador de 17
anos, ao abrigo da ligação de Gastão à
Academia Nick Bollettieri (IMG) na Florida
e, em conversa com alguns jornalistas
portugueses, explicou que tem vindo a
aprender como lidar com o seu “pupilo”.
Por exemplo, o
trabalho efectuado entre a Taça Davis e o
Estoril Open recaiu, sobretudo, na
recuperação psicológica e, o certo, é que
Gastão já apareceu muito melhor na primeira
ronda do Jamor do que na última jornada do
Estoril. Com mais chama.
«Aquilo que
lhe perguntaste – disse-me Ycaza – sobre
como era ele capaz de motivar-se para dias
de treino que começam às seis da manhã e
acabam noite dentro é muito importante.
Aqui, no Estoril Open, já conversei mais com
ele e tenho de fazê-lo muito mais. Começo a
perceber como o Gastão funciona.
Tecnicamente, ele tem muito potencial.
Tacticamente ainda faz erros naturais dos 17
anos e fisicamente precisa de reforçar-se.
Notei que não foi capaz de atacar algumas
bolas porque para se fazer a transição da
defesa para o ataque num único 'shot' é
preciso um poderio físico que ele ainda não
possui».
Nuno Marques
contou-me este ano como foi a experiência de
ter passado uns dias na Academia Bollettieri
quando tinha dez anos e confessou que
destestou. Nunca se colocou a hipótese –
como com Gastão – de ficar a treinar lá a
tempo inteiro, mas aquele que ainda é
considerado o melhor tenista português de
todos os tempos também nem queria pensar
nisso.
Em 1990, na
primeira das minhas dez visitas ao torneio
de Key Biscayne, hoje em dia chamado de
Masters Series de Miami, Andre Agassi, então
muito jovem, contou numa conferência de
Imprensa que, quando tinha 13 anos, «odiava
tanto a vida na academia Bollettieri», pela
extrema dureza diária porque passava, que
decidiu treinar o mais possível e tornar-se
num supercampeão. Era a forma mais fácil «de
começar a jogar no circuito e sair dali o
mais rapidamente possível». Aos 16 anos
Agassi já jogava no ATP Tour e aos 17 era
uma estrela.
Hoje foi
publicado no Diário de Notícias um artigo de
opinião onde me referia a algumas conversas
que tive nestes últimos dias com o João de
Sousa e o Rui Machado, sobre as suas
vivências em Barcelona, primeiro na
Federação Catalã de Ténis e depois na
Academia Total Tennis. Vale a pena copiar
aqui algumas dessas declarações.
«Quando
chegava o Natal e via as iluminações, sentia
saudades de casa», contou-me Machado, que
passou sete anos em Barcelona, para onde foi
aos 15.
Sousa também
rumou a Barcelona aos 15 e, após três anos,
a adaptação está concluída: «No início foi
muito difícil. Estava só, numa cultura de
treino intensivo. Foi um enorme esforço, mas
valeu a pena».
E se Rui
Machado já denotava desde jovem aquela
caractrística inata de “raçudo”, que quase
nunca vira a cara à luta, encontrando em
Espanha «uma mentalidade semelhante e uma
metodologia de treino que se adaptava na
perfeição» à sua «fisionomia atlética», pois
nunca será «um jogador muito alto e
musculado», já João de Sousa admite que
aprendeu «muito em Barcelona». Aquele
adolescente temperamental de 15 anos é hoje
em dia um jovem adulto de 19 anos
determinado e concentrado no que quer fazer
da vida.
Rui e João
comeram o pão que o Diabo amassou para serem
o que são hoje mas ambos voltariam a passar
pelo mesmo calvário.
«Na altura,
não tinha opção em Portugal, mas foi muito
arriscado ir só para Espanha. Sei que agora
há outras soluções em Portugal, como esta
academia do João Cunha e Silva em Oeiras,
mas para quê mudar se nesta altura se estou
bem e sinto os frutos do trabalho?»,
perguntava-me João.
«Com todo o
respeito pela minha equipa técnica actual,
teria feito o mesmo, pois foi muito
importante para mim estar num local onde
bebia e comia ténis, de manhã à noite,
podendo estudar ao mesmo tempo. Diria que,
agora, a opção pela estrutura do João Cunha
e Silva é a mais adequada para esta fase da
minha carreira. Aos 24 anos, sinto-me mais
adulto e consigo complementar tudo aquilo
que aprendi em Espanha com o enorme
profissionalismo do grupo de trabalho que
encontrei em Oeiras», sublinhou Rui.
Há, por isso,
que dar tempo ao tempo no que se refere à
adaptação de Gastão Elias. Não é uma coisa
de dias ou de meses. Rui e João levaram
anos.
O
seleccionador nacional, Pedro Cordeiro
mostrou-se preocupado com a situação de
evidente saturação competitiva em que se
encontra o jovem, mas acredita que a equipa
técnica do “puto-maravilha” saberá dar a
volta à situação.
De qualquer
modo, elogio Gastão por ter sido sincero com
os jornalistas e ter admitido que, após a
euforia dos primeiros meses, nem sempre está
a ser fácil encontrar motivação para, nas
palavras de Machado, comer e beber ténis de
manhã à noite. E, aos 17 anos, as saudades
de casa são normais. Sobretudo quando se tem
uma família como a sua.
O importante é
que Gastão nem pensa em deixar a experiência
na Florida. Está apenas a procurar a melhor
maneira de lidar com ela, como fez Andre
Agassi há vinte anos.
Na minha
opinião de leigo – e já o disse ao pai
Gastão e ao treinador Ricardo Ycaza – o
Gastão jogador deveria tirar a próxima
semana de férias, ficar em casa, fazer como
o Guga Kuerten quando andava farto de ténis,
isto é, pegar na prancha e ir surfar para
Peniche. Daqui a uma semana estaria como
novo e pronto para atacar o resto da época.
Como escrevi
hoje no Diário de Notícias, o rapaz tem
potencial; oiçam o Roger Federer falar dele.
Maria Sharapova, Nicole Vaidisova e Tommy
Haas também já treinaram com “Pêpê”, mas,
como ele confidenciou aos jornalistas,
«esses nunca abrem a boca».
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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