Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
29º Artigo - Especial Estoril Open 2008
17 de Abril de 2008


Um momento histórico para o ténis português

O Presidente da Federação Portuguesa de Golfe, Manuel Agrellos, tem usado várias vezes a seguinte 'sound bite' mediático: «A FPG não precisa que o Governo lhe dê peixe todos os dias. Queremos é que nos dê a cana para irmos à pesca».

O resultado é o seguinte: como entidade exploradora do campo de treino de golfe do Jamor, da loja e do restaurante, mediante acordo com a Administração Central, a FPG decidiu sub-alugar a loja e o restaurante, explora ela própria o campo de treino e tem ali uma importantíssima fonte de receita anual.

O próximo passo é o tão falado campo público de golfe do Jamor que, uma vez construído, tornar-se-á numa das mais importantes imagens da requalificação do Estádio Nacional, na qual tanto se têm empenhado o ministro Silva Pereira e o secretário de Estado Laurentino Dias. Escusado será dizer que já foram assinados os protocolos que irão entregar à FPG a gestão dessa importante infra-estrutura.

Os leitores do Luso Ténis devem estar, a esta hora, espantados com esta lenga-lenga. Mas o que é que nós temos a ver com o golfe. Bem, nada ou tudo.

É que durante este 19º Estoril Open, Laurentino Dias declarou à agência Lusa, num excelente trabalho assinado pelo jornalista Jorge Figueira: «O Estoril Open deve ter uma instalação definitiva, nomeadamente no seu 'court' central. Deveremos ter as melhores instalações possíveis para o ténis no Jamor. Estamos a um mês de ter uma obra nova, que são seis campos de ténis cobertos na entrada do complexo. É nossa intenção que este conjunto seja o Centro de Alto Rendimento do Ténis, com as quatro dezenas de campos que temos, mais os campos que serão cobertos e mais uma instalação definitiva para o Estoril Open».

Conta ainda o jornalista Jorge Figueira que «em relação à gestão futura daquele espaço, Laurentino Dias afirmou que está a ser estudada “em conjunto com a Federação Portuguesa de Ténis e com o João Lagos”, sendo certo que “terá de ser ajustado a todas as instalações a que o Estoril Open obriga”.

A notícia de que o Estoril Open vai ter, finalmente, uma sede própria no Jamor e que o projecto levará em conta todas as exigências técnicas de um evento da categoria do circuito ATP e do WTA Tour é muito positiva para o ténis português. Será imprescindível o aconselhamento técnico da obra por parte da João Lagos Sports, que, todos os anos, tão bem monta este autêntico “circo” no Jamor.

O mesmo jornalista da Lusa foi ouvir João Lagos que lhe disse que «o modelo (de gestão) não está definido. Teremos de estudar com a secretaria de Estado do Desporto e com o Instituto do Desporto de Portugal, envolvendo a Federação Portuguesa de Ténis, uma vez que ficará aqui o Centro de Alto Rendimento. A Federação não tem essa vocação. Nós, como empresa, temos mais vocação para esse papel. Ao fim e ao cabo penso que o modelo ideal está ainda por criar, mas uma gestão conjunta seria o melhor».

Declarações importantes na medida em que o director do Estoril Open e presidente da João Lagos Sports entende publicamente a necessidade de haver um entendimento com a FPT e ninguém pode levar-lhe a mal que se coloque na 'pole position' dos eventuais interessados em assegurar a gestão do enorme espaço que é o complexo de ténis do Jamor.

Bem mais preocupante foi a posição pública de José Corrêa de Sampaio, o presidente da FPT, igualmente à Lusa, dando a entender que só pretende gerir o Centro de Alto Rendimento, deixando de lado a hipótese de tomar conta, igualmente, do estádio que for construído para o Estoril Open, dos restantes 'courts' (dezenas), da loja e do restaurante.

Voltemos a citar o brilhante trabalho de Jorge Figueira: «”Nós seremos utilizadores do complexo (de ténis do Estádio Nacional), mas obviamente que a gestão (do Centro de Alto Rendimento) terá de ser feita por nós. Não pode ser o Governo a gerir um CAR. Não tem vocação para isso”. O presidente da Federação Portuguesa de Ténis (FPT) garantiu que a utilização dos campos do CAR “não irá afectar os utentes do Estádio Nacional nem os grandes eventos a realizar" ali, como o torneio Estoril Open. “Convivemos pacificamente com isso”, acrescentou. No que diz respeito à intenção do Governo em avançar com a construção de um novo estádio, onde ficará sedeado o “court” Central do Estoril Open, Corrêa Sampaio foi claro: “Isso não nos diz respeito. Será um ‘court’ central para grandes eventos, mas não temos nada a ver”».

Tenho o maior respeito e simpatia pelo actual presidente da FPT, mas temo que não esteja a descodificar o momento histórico que atravessa. Há momentos na história em que temos de ser arrojados e não hipotecar o futuro. O ténis português em geral e a FPT em particular estão na vertigem de garantir uma fonte financiamento única.

Armando Rocha, no início dos anos de 1980, quando dirigia a FPT, procurou junto do Governo da Aliança Democrática que lhe fosse entregue todo o complexo de ténis do Estádio Nacional, prometendo que a concretização desse projecto iria tornar a FPT independente das verbas anuais do Orçamento de Estado.

Mais tarde, mesmo a meio da década de 1990, Miranda Calha, então sectretário de Estado do Desporto, do Governo PS, apresentou no Estoril Open uma maqueta de projecto de um 'court' de 5000 lugares para o Estoril Open, com escritórios por baixo da bancada com capacidade para albergar ao mesmo tempo as sedes da FPT e da João Lagos Sports (que, nessa altura, não tinha dimensão gigantesca da actualidade).
Paulo de Andrade, que presidia então à FPT, chegou a conversar com Miranda Calha no sentido de ser atribuído à FPT a gestão de todo o complexo de ténis (que já incluía o Centro Nacional de Treino, entretanto extinto), comprometendo-se por contrato a ceder todas as instalações ao Estoril Open antes e depois do torneio.

«A ideia – recordou-me hoje Paulo de Andrade – era conseguir uma fonte de proventos para a FPT e, simultaneamente, evitar os brutais custos anuais que o João Lagos tem com a estrutura movível do Estoril Open. Na altura, visitei a Federação Catalã de Ténis e eles tinham no seu território cinco Centros de Alto Rendimento por si explorados na íntegra».

É claro que ninguém espera que a FPT vá vender artigos desportivos na loja do Jamor ou que ande a competir com os restaurantes das redondezas. Mas assumindo formalmente, junto do Estado, a gestão integrada do espaço, poderia depois procurar um parceiro privado para explorar determinados sectores. E porque não a João Lagos Sports? Com efeito, como diz João Lagos, o 'know how' está lá todo.

O que é inaceitável é que a Administração Pública entregue directamente a privados a concessão do Estádio Nacional. Felizmente, este Governo, este ministro Silva Pereira e este secretário de Estado Laurentino Dias têm provado na sua acção política que pretendem acabar com as parcerias público-privadas, preferindo que o Estado assuma integralmente os custos da requalificação do Estádio Nacional, para depois entregar as instalações a federações desportivas capazes e ambiciosas. No fundo, como diz Manuel Agrellos, dar a cana que permita às federações ir à pesca. É a independência financeira de muitas federações que está em causa.

No próximo sábado, há uma Assembleia Geral da FPT. Esperemos que as Associações Regionais, normalmente tão centradas unicamente nos seus umbigos, tenham a capacidade de olhar um bocadinho para o interesse geral e global do ténis português e interpelem a FPT sobre esta questão. Meus senhores, estamos num momento histórico – assumam as vossas responsabilidades.

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


View My Stats