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Um momento histórico para o ténis português
O Presidente
da Federação Portuguesa de Golfe, Manuel
Agrellos, tem usado várias vezes a seguinte
'sound bite' mediático: «A FPG não precisa
que o Governo lhe dê peixe todos os dias.
Queremos é que nos dê a cana para irmos à
pesca».
O resultado é
o seguinte: como entidade exploradora do
campo de treino de golfe do Jamor, da loja e
do restaurante, mediante acordo com a
Administração Central, a FPG decidiu
sub-alugar a loja e o restaurante, explora
ela própria o campo de treino e tem ali uma
importantíssima fonte de receita anual.
O próximo
passo é o tão falado campo público de golfe
do Jamor que, uma vez construído,
tornar-se-á numa das mais importantes
imagens da requalificação do Estádio
Nacional, na qual tanto se têm empenhado o
ministro Silva Pereira e o secretário de
Estado Laurentino Dias. Escusado será dizer
que já foram assinados os protocolos que
irão entregar à FPG a gestão dessa
importante infra-estrutura.
Os leitores do
Luso Ténis devem estar, a esta hora,
espantados com esta lenga-lenga. Mas o que é
que nós temos a ver com o golfe. Bem, nada
ou tudo.
É que durante
este 19º Estoril Open, Laurentino Dias
declarou à agência Lusa, num excelente
trabalho assinado pelo jornalista Jorge
Figueira: «O Estoril Open deve ter uma
instalação definitiva, nomeadamente no seu
'court' central. Deveremos ter as melhores
instalações possíveis para o ténis no Jamor.
Estamos a um mês de ter uma obra nova, que
são seis campos de ténis cobertos na entrada
do complexo. É nossa intenção que este
conjunto seja o Centro de Alto Rendimento do
Ténis, com as quatro dezenas de campos que
temos, mais os campos que serão cobertos e
mais uma instalação definitiva para o
Estoril Open».
Conta ainda o
jornalista Jorge Figueira que «em relação à
gestão futura daquele espaço, Laurentino
Dias afirmou que está a ser estudada “em
conjunto com a Federação Portuguesa de Ténis
e com o João Lagos”, sendo certo que “terá
de ser ajustado a todas as instalações a que
o Estoril Open obriga”.
A notícia de
que o Estoril Open vai ter, finalmente, uma
sede própria no Jamor e que o projecto
levará em conta todas as exigências técnicas
de um evento da categoria do circuito ATP e
do WTA Tour é muito positiva para o ténis
português. Será imprescindível o
aconselhamento técnico da obra por parte da
João Lagos Sports, que, todos os anos, tão
bem monta este autêntico “circo” no Jamor.
O mesmo
jornalista da Lusa foi ouvir João Lagos que
lhe disse que «o modelo (de gestão) não está
definido. Teremos de estudar com a
secretaria de Estado do Desporto e com o
Instituto do Desporto de Portugal,
envolvendo a Federação Portuguesa de Ténis,
uma vez que ficará aqui o Centro de Alto
Rendimento. A Federação não tem essa
vocação. Nós, como empresa, temos mais
vocação para esse papel. Ao fim e ao cabo
penso que o modelo ideal está ainda por
criar, mas uma gestão conjunta seria o
melhor».
Declarações
importantes na medida em que o director do
Estoril Open e presidente da João Lagos
Sports entende publicamente a necessidade de
haver um entendimento com a FPT e ninguém
pode levar-lhe a mal que se coloque na 'pole
position' dos eventuais interessados em
assegurar a gestão do enorme espaço que é o
complexo de ténis do Jamor.
Bem mais
preocupante foi a posição pública de José
Corrêa de Sampaio, o presidente da FPT,
igualmente à Lusa, dando a entender que só
pretende gerir o Centro de Alto Rendimento,
deixando de lado a hipótese de tomar conta,
igualmente, do estádio que for construído
para o Estoril Open, dos restantes 'courts'
(dezenas), da loja e do restaurante.
Voltemos a
citar o brilhante trabalho de Jorge
Figueira: «”Nós seremos utilizadores do
complexo (de ténis do Estádio Nacional), mas
obviamente que a gestão (do Centro de Alto
Rendimento) terá de ser feita por nós. Não
pode ser o Governo a gerir um CAR. Não tem
vocação para isso”. O presidente da
Federação Portuguesa de Ténis (FPT) garantiu
que a utilização dos campos do CAR “não irá
afectar os utentes do Estádio Nacional nem
os grandes eventos a realizar" ali, como o
torneio Estoril Open. “Convivemos
pacificamente com isso”, acrescentou. No que
diz respeito à intenção do Governo em
avançar com a construção de um novo estádio,
onde ficará sedeado o “court” Central do
Estoril Open, Corrêa Sampaio foi claro:
“Isso não nos diz respeito. Será um ‘court’
central para grandes eventos, mas não temos
nada a ver”».
Tenho o maior
respeito e simpatia pelo actual presidente
da FPT, mas temo que não esteja a
descodificar o momento histórico que
atravessa. Há momentos na história em que
temos de ser arrojados e não hipotecar o
futuro. O ténis português em geral e a FPT
em particular estão na vertigem de garantir
uma fonte financiamento única.
Armando Rocha,
no início dos anos de 1980, quando dirigia a
FPT, procurou junto do Governo da Aliança
Democrática que lhe fosse entregue todo o
complexo de ténis do Estádio Nacional,
prometendo que a concretização desse
projecto iria tornar a FPT independente das
verbas anuais do Orçamento de Estado.
Mais tarde,
mesmo a meio da década de 1990, Miranda
Calha, então sectretário de Estado do
Desporto, do Governo PS, apresentou no
Estoril Open uma maqueta de projecto de um
'court' de 5000 lugares para o Estoril Open,
com escritórios por baixo da bancada com
capacidade para albergar ao mesmo tempo as
sedes da FPT e da João Lagos Sports (que,
nessa altura, não tinha dimensão gigantesca
da actualidade).
Paulo de Andrade, que presidia então à FPT,
chegou a conversar com Miranda Calha no
sentido de ser atribuído à FPT a gestão de
todo o complexo de ténis (que já incluía o
Centro Nacional de Treino, entretanto
extinto), comprometendo-se por contrato a
ceder todas as instalações ao Estoril Open
antes e depois do torneio.
«A ideia –
recordou-me hoje Paulo de Andrade – era
conseguir uma fonte de proventos para a FPT
e, simultaneamente, evitar os brutais custos
anuais que o João Lagos tem com a estrutura
movível do Estoril Open. Na altura, visitei
a Federação Catalã de Ténis e eles tinham no
seu território cinco Centros de Alto
Rendimento por si explorados na íntegra».
É claro que
ninguém espera que a FPT vá vender artigos
desportivos na loja do Jamor ou que ande a
competir com os restaurantes das redondezas.
Mas assumindo formalmente, junto do Estado,
a gestão integrada do espaço, poderia depois
procurar um parceiro privado para explorar
determinados sectores. E porque não a João
Lagos Sports? Com efeito, como diz João
Lagos, o 'know how' está lá todo.
O que é
inaceitável é que a Administração Pública
entregue directamente a privados a concessão
do Estádio Nacional. Felizmente, este
Governo, este ministro Silva Pereira e este
secretário de Estado Laurentino Dias têm
provado na sua acção política que pretendem
acabar com as parcerias público-privadas,
preferindo que o Estado assuma integralmente
os custos da requalificação do Estádio
Nacional, para depois entregar as
instalações a federações desportivas capazes
e ambiciosas. No fundo, como diz Manuel
Agrellos, dar a cana que permita às
federações ir à pesca. É a independência
financeira de muitas federações que está em
causa.
No próximo
sábado, há uma Assembleia Geral da FPT.
Esperemos que as Associações Regionais,
normalmente tão centradas unicamente nos
seus umbigos, tenham a capacidade de olhar
um bocadinho para o interesse geral e global
do ténis português e interpelem a FPT sobre
esta questão. Meus senhores, estamos num
momento histórico – assumam as vossas
responsabilidades.
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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