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LIÇÃO DA HISTÓRIA
Norberto
Santos, um dos mais antigos e conceituados
jornalistas portugueses na área do ténis,
perguntou há dias a Albert Portas quem era,
para ele, o melhor jogador espanhol de
sempre.
Portas disse
que a resposta não era fácil, uma vez que
Rafael Nadal anda a bater uma série de
recordes do ténis espanhol, mas, apesar de
tudo, ainda não tinha ganho Roland Garros
por duas vezes, como Sergi Bruguera.
A conclusão do
antigo campeão do Open da Alemanha foi que «Nadal
poderá vir a ser o melhor tenista espanhol
de todos os tempos, mas ainda não pode ser
considerado como tal».
Portas
demonstrou uma noção da história do ténis
que tem vindo a desaparecer aos poucos, mas
não deixou de cair num dos maiores “pecados
capitais” do ténis dos últimos tempos: os
homens têm a memória curta e, ou esquecem,
ou não dão o devido valor aos grandes feitos
do passado.
O que é feito
de jogadores como Bjorn Borg, que contava os
títulos do Grand Slam de Roy Emerson, ou de
Pete Sampras, que visionava vídeos de Rod
Laver?
Nenhum jogador
espanhol deveria olvidar o grande Manuel
Santana, ele sim, o melhor jogador na
história do ténis espanhol. Santana subjugou
Roland Garros em 1961 e 1964, conquistou o
Open dos Estados Unidos em 1965 e vergou
Wimbledon a seus pés em 1966. Muitos
disseram que só conseguiu ser o melhor
jogador do planeta nessa altura porque Rod
Laver se tinha tornado profissional no final
de 1962 e, por isso, o genial e talentoso
espanhol atingiu um dos maiores picos da sua
carreira quando, em 1970, arrasou Rod
‘Rocket’ Laver em “três ‘sets’ secos” na
final do Open de Barcelona, um ano depois do
esquerdino australiano ter-se tornado no
único tenista a completar por duas vezes o
Grand Slam, um máximo mundial nunca mais
igualado.
Santana entrou
para o ‘Tennis Hall of Fame’ em 1984 e,
desde então, só voltou à ribalta quando, nos
anos 90, assumiu a posição de capitão da
selecção espanhola da Taça Davis. Uma das
amarguras da sua vida foi ter sido
“despedido” um ano antes do primeiro triunfo
do seu país na Taça Davis, em 2000.
“Rafa” Nadal é
um prodígio de precocidade, mas ainda está
longe de atingir os píncaros desbravados por
“Manolo” Santana, um homem que foi recebido
pelo “generalíssimo” Franco após a vitória
em Wimbledon. «Eu sabia que o que fizera em
Roland Garros em anos anteriores era grande,
mas ganhar Wimbledon é, para um tenista, o
mesmo que uma vitória no Tour de France para
um ciclista e o “caudilho” convidou-me para
a sua residência oficial, para explicar-me a
importância do meu triunfo para a imagem
externa de Espanha», contou um dia Santana,
que teve de “fazer das tripas coração”,
sabendo que aquele mesmo ditador colocara,
anos antes, o seu pai na prisão…
Os grandes
campeões não se medem apenas pelo talento,
facilidade ou perfeição com que pegam e
manejam uma raqueta. Há uma multiplicidade
de factores que os definem, desde a condição
física, à inteligência táctica, passando
pelo “estofo” mental, pelo modo como
ultrapassam as dificuldades com que se
deparam ou pela forma como minimizam as suas
limitações e maximizam as suas habilidades.
É por isso que me revolto tanto quando leio
ou oiço dizer que Roger Federer é já o
melhor tenista de todos os tempos ou que
Gastão Elias é, aos 15 anos, melhor do que
Nuno Marques quando tinha essa idade.
A questão foi
(bem) colocada ao próprio Nuno por um dos
raros especialistas de ténis que ainda temos
em Portugal, Manuel Perez. Aquele que é
considerado o melhor tenista português de
sempre foi sincero e inteligente na sua
resposta, embora, pessoalmente, discorde
dele quando diz ser «ridículo comparar
grandes jogadores de gerações distintas».
Aceito que seja extremamente difícil, mas
julgo constituir um desafio interessante e
importante para a modalidade manter vivas e
animadas discussões deste teor.
«Não se pode
dizer que o Federer seja melhor do que o
Sampras, ou que o Sampras foi melhor do que
o Borg», afiançou Nuno Marques, agora
treinador de Leonardo Tavares, que teceu
rasgadíssimos elogios a Gastão Elias, ao
ponto de dizer que, «aos 25 anos, será
melhor jogador do que eu fui». No entanto,
analisando apenas os resultados em escalões
juvenis, foi visível que Nuno não quis dar
de mão beijada a superioridade àquele que
acredita poder vir a romper os seus recordes
nacionais. «O Gastão tem um ténis mais
sólido do que eu tinha nessa idade, mas eu
tive bons resultados em Grand Slams» –
quartos-de-final em Roland Garros, Wimbledon
e US Open, para além de quartos-de-final no
Orange Bowl e de uma final no Europeu de
sub-12.
No fundo, se
interpretei bem as palavras de Nuno Marques,
o que ele quis dizer, uma vez mais, foi que
o epíteto de “o melhor de sempre”, seja a
que nível for, não pode ser apenas medido
pelo apuro técnico.
No ténis, há
algo que é incontornável, os resultados.
Frederico Gil poderá não ser o mais evoluído
dos tenistas portugueses em termos técnicos,
mas é o inquestionável nº 1 da actualidade,
devido aos excelentes resultados obtidos em
campo, graças às suas outras superiores
qualidades.
No final dos
anos 90, quando a Imprensa quis criar uma
rivalidade entre Pete Sampras e Patrick
Rafter, o norte-americano teve uma tirada
lapidar: «A diferença entre nós dois? São
“apenas” 10 títulos do Grand Slam!». Ora
toma e embrulhem.
É por isso que
apontar já, em 2006, Roger Federer como o
melhor tenista de todos os tempos, apenas
porque é, sem dúvida alguma, o mais evoluído
de sempre em termos técnicos, é ultrajante
para os grandes campeões que o precederam.
Nem ele tem essa ousadia.
Poder-se-á
dizer de Federer o que Portas disse de Nadal
ou que Marques afirmou de Elias, isto é, que
o suíço tem todas as condições para sê-lo
dentro de muitos poucos anos, mas, apesar da
impressionante série de recordes mundiais
que tem batido, terá de continuar a
comprovar no campo, em vitórias e títulos, o
que todo o seu virtuosismo promete e deixa
adivinhar.
Little Mo (Maureen
Connolly) foi a primeira mulher a completar
o Grand Slam em 1953 e, aos 18 anos, parecia
imparável, mas o cancro travou-a, viu-se
forçada a encerrar a sua carreira e faleceu
aos 34 anos.
Mónica Seles
estava a arrasar tudo à sua frente no início
dos anos 90, quando um atentado (apunhalada
nas costas no Open de Hamburgo em 1993) a
impediu de tornar-se, provavelmente, na
melhor tenista da história e foi Steffi Graf
que, apesar de ter o pai na prisão, teve
força anímica para coleccionar 22 troféus do
Grand Slam.
Rod Laver
completou o Grand Slam em 1962 e 1969, somou
11 títulos do Grand Slam, mas poderia ter
ganho muitos mais e construído um palmarés
inatingível se, durante cinco anos não
tivesse sido impedido de jogar nos quatro
principais torneios do Mundo por se ter
tornado profissional e o profissionalismo só
ter sido aceite nas provas da Federação
Internacional de Ténis em 1968.
Há
imponderáveis na vida que nos aconselham
prudência quando a genialidade de um jogador
nos deslumbra e nos impele a proclamá-lo
como o melhor de sempre. Roger Federer tem o
Mundo do ténis a seus pés e Gastão Elias
começa a assumir o papel de protagonista no
ténis nacional, mas dêem-lhes tempo e espaço
para poderem concretizar as potencialidades
que têm de, um dia, figurarem no primeiro
lugar da história da modalidade. |