Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
6º Artigo - Especial Estoril Open 2006
Domingo, 7 de Maio de 2006


UM PAPA CONSENSUAL

Se o futebol português tem um Papa, o nosso ténis também já encontrou o seu e não será preciso grandes dotes de adivinho para responder que se trata, obviamente, de João Lagos.

No futebol, a alcunha de Papa atribuída a Jorge Nuno Pinto da Costa encerra um misto de reverência, admiração, temor e escárnio, para além de uma conotação de Padrinho, numa esfera desportiva em que, segundo consta, as influências têm uma importância equivalente ao valor das equipas técnicas e dos jogadores contratados por cada clube.

No ténis, o epíteto de Papa colado a João Lagos refere-se praticamente só a admiração e reverência por uma obra que tem vindo ser solidamente construída desde o final dos anos 70 do século passado.

Em comum, Pinto da Costa e João Lagos têm a devoção católica; uma conjugação rara de inteligência e esperteza, dois atributos que não são sinónimos, ao contrário do que se possa pensar; a capacidade valiosa de ver no presente os sinais do futuro (visionários); uma habilidade natural de liderança que os leva a ser amados pelas equipas que consigo trabalham e que os seguem cegamente; uma qualidade organizativa fora do comum; a vontade de sonhar com a grandiosidade e a sapiência de concretizar esses sonhos, conseguindo feitos inéditos; uma movimentação fácil e apreciada junto dos centros de decisão ao nível social, económico e político; e um gigantesco carisma (proporcional aos seus egos) que os leva a encantar os media e as massas.

A grande diferença, para além de clubística (Lagos é um sportinguista convicto) é que Pinto da Costa estabeleceu como reino a região norte e, com isso, virou contra si e o seu FCP todo o sul do país. Com inimigos declarados em várias frentes, tornou-se difícil ou quase impossível travar a divulgação de facetas menos positivas da sua personalidade e dos seus métodos e gerar consensos à sua volta.

João Lagos, por seu lado, fixou como território Portugal inteiro e tem o cuidado de não permitir que as contra-correntes não ultrapassem esferas muito limitadas. É preciso estar-se muito por dentro dos meandros do ténis, golfe e automobilismo, por exemplo, para se escutar algumas críticas negativas às actividades do “patrão” da João Lagos Sports.

Críticas muitas vezes injustas e algumas vezes legítimas e fundadas, pois nem sempre os interesses de uma empresa privada coincidem com os de uma modalidade desportiva, mas que não passam de um grão de areia no autêntico deserto de unanimidade que de que logrou rodear-se.

João Lagos tem conseguido fazer com que todos os eventos desportivos que superiormente organiza sejam encarados como desígnios nacionais e sente que um povo inteiro o empurra para o sucesso dentro de portas e além-fronteiras.

Nos 12 anos que andei pelo circuito profissional de ténis, só encontrei uma organização melhor do que a João Lagos Sports e estou seguro que se o director do Estoril Open tivesse os mesmos fundos do milionário romeno Ion Tiriac (pois é dele que estou a falar), não teria problemas em superá-lo.

A Tennis Masters Cup de Lisboa, em 2000, no Pavilhão Atlântico, foi um marco naquela competição e ainda hoje é olhada como uma referência de perfeição organizativa.

O Open de Portugal de golfe de 2003, em Vale do Lobo, atingiu níveis qualitativos ímpares no nosso país.

O Lisboa-Dakar de 2005 foi elogiado em todo o Mundo e estou seguro que irá ainda melhorar nos próximos anos.

São apenas alguns dos muitos exemplos que poderia dar.

João Lagos tem sabido partilhar estes sucessos com todo o país e Portugal inteiro orgulha-se deles. É por isso que há uns anos recebeu o mais apetecido Globo de Ouro.

É por isso que nas cerimónias de entrega de prémios é normal receber estrondosas ovações do público (o contraste com os apupos ao então primeiro-ministro António Guterres na final da Masters Cup foi quase confrangedor).

É por isso que, nos dois últimos anos, temos assistido ao um autêntico “beija-mão” ao Papa no Sponsors Village (vulgo tenda VIP) do Estoril Open.

Em 2005, foi um corrupio de políticos, o que não foi de estranhar, dada a quantidade pouco usual de eleições que tivemos. Em 2006 foi uma romaria de dirigentes desportivos, sobretudo oriundos do futebol, uma modalidade que normalmente é tão arrogante para as outras que considera menores, mas que, uma vez por ano, se rende aos encantos do ténis e de João Lagos.

Dizem alguns “futeboleiros” da nossa praça, que Pinto da Costa já não manda tanto quanto há uns anos, mas o certo é que o seu FCP lá voltou aos títulos na Liga. E nós, especialistas de ténis, bem sabemos que João Lagos já não domina tanto o panorama do ténis nacional como há uns tempos, mas o Estoril Open, que já era, sem sombra de dúvida, o principal torneio de ténis português, voltou a elevar a fasquia nesta 17ª edição.

O mais curioso é que o único dos grandes presidentes do futebol do ténis português a faltar ao “beija-mão” do Jamor foi exactamente Jorge Nuno Pinto da Costa, que dentro em pouco até se deslocará bem ali ao pé, ao Estádio Nacional que ele teima chamar de Estádio de Oeiras, para a final da Taça de Portugal em futebol.

Seria interessante e será seguramente memorável se algum dia João Lagos receber Pinto da Costa no Estoril Open, ou se o portista for anfitrião do sportinguista na tribuna de honra do Estádio do Dragão… mas também não reza a história que tenha ocorrido alguma cimeira entre o Papa de Roma e o de Avinhão.

 

 

 


View My Stats