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UM PAPA CONSENSUAL
Se o futebol
português tem um Papa, o nosso ténis também
já encontrou o seu e não será preciso
grandes dotes de adivinho para responder que
se trata, obviamente, de João Lagos.
No futebol, a
alcunha de Papa atribuída a Jorge Nuno Pinto
da Costa encerra um misto de reverência,
admiração, temor e escárnio, para além de
uma conotação de Padrinho, numa esfera
desportiva em que, segundo consta, as
influências têm uma importância equivalente
ao valor das equipas técnicas e dos
jogadores contratados por cada clube.
No ténis, o
epíteto de Papa colado a João Lagos
refere-se praticamente só a admiração e
reverência por uma obra que tem vindo ser
solidamente construída desde o final dos
anos 70 do século passado.
Em comum,
Pinto da Costa e João Lagos têm a devoção
católica; uma conjugação rara de
inteligência e esperteza, dois atributos que
não são sinónimos, ao contrário do que se
possa pensar; a capacidade valiosa de ver no
presente os sinais do futuro (visionários);
uma habilidade natural de liderança que os
leva a ser amados pelas equipas que consigo
trabalham e que os seguem cegamente; uma
qualidade organizativa fora do comum; a
vontade de sonhar com a grandiosidade e a
sapiência de concretizar esses sonhos,
conseguindo feitos inéditos; uma
movimentação fácil e apreciada junto dos
centros de decisão ao nível social,
económico e político; e um gigantesco
carisma (proporcional aos seus egos) que os
leva a encantar os media e as massas.
A grande
diferença, para além de clubística (Lagos é
um sportinguista convicto) é que Pinto da
Costa estabeleceu como reino a região norte
e, com isso, virou contra si e o seu FCP
todo o sul do país. Com inimigos declarados
em várias frentes, tornou-se difícil ou
quase impossível travar a divulgação de
facetas menos positivas da sua personalidade
e dos seus métodos e gerar consensos à sua
volta.
João Lagos,
por seu lado, fixou como território Portugal
inteiro e tem o cuidado de não permitir que
as contra-correntes não ultrapassem esferas
muito limitadas. É preciso estar-se muito
por dentro dos meandros do ténis, golfe e
automobilismo, por exemplo, para se escutar
algumas críticas negativas às actividades do
“patrão” da João Lagos Sports.
Críticas
muitas vezes injustas e algumas vezes
legítimas e fundadas, pois nem sempre os
interesses de uma empresa privada coincidem
com os de uma modalidade desportiva, mas que
não passam de um grão de areia no autêntico
deserto de unanimidade que de que logrou
rodear-se.
João Lagos tem
conseguido fazer com que todos os eventos
desportivos que superiormente organiza sejam
encarados como desígnios nacionais e sente
que um povo inteiro o empurra para o sucesso
dentro de portas e além-fronteiras.
Nos 12 anos
que andei pelo circuito profissional de
ténis, só encontrei uma organização melhor
do que a João Lagos Sports e estou seguro
que se o director do Estoril Open tivesse os
mesmos fundos do milionário romeno Ion
Tiriac (pois é dele que estou a falar), não
teria problemas em superá-lo.
A Tennis
Masters Cup de Lisboa, em 2000, no Pavilhão
Atlântico, foi um marco naquela competição e
ainda hoje é olhada como uma referência de
perfeição organizativa.
O Open de
Portugal de golfe de 2003, em Vale do Lobo,
atingiu níveis qualitativos ímpares no nosso
país.
O Lisboa-Dakar
de 2005 foi elogiado em todo o Mundo e estou
seguro que irá ainda melhorar nos próximos
anos.
São apenas
alguns dos muitos exemplos que poderia dar.
João Lagos tem
sabido partilhar estes sucessos com todo o
país e Portugal inteiro orgulha-se deles. É
por isso que há uns anos recebeu o mais
apetecido Globo de Ouro.
É por isso que
nas cerimónias de entrega de prémios é
normal receber estrondosas ovações do
público (o contraste com os apupos ao então
primeiro-ministro António Guterres na final
da Masters Cup foi quase confrangedor).
É por isso
que, nos dois últimos anos, temos assistido
ao um autêntico “beija-mão” ao Papa no
Sponsors Village (vulgo tenda VIP) do
Estoril Open.
Em 2005, foi
um corrupio de políticos, o que não foi de
estranhar, dada a quantidade pouco usual de
eleições que tivemos. Em 2006 foi uma
romaria de dirigentes desportivos, sobretudo
oriundos do futebol, uma modalidade que
normalmente é tão arrogante para as outras
que considera menores, mas que, uma vez por
ano, se rende aos encantos do ténis e de
João Lagos.
Dizem alguns
“futeboleiros” da nossa praça, que Pinto da
Costa já não manda tanto quanto há uns anos,
mas o certo é que o seu FCP lá voltou aos
títulos na Liga. E nós, especialistas de
ténis, bem sabemos que João Lagos já não
domina tanto o panorama do ténis nacional
como há uns tempos, mas o Estoril Open, que
já era, sem sombra de dúvida, o principal
torneio de ténis português, voltou a elevar
a fasquia nesta 17ª edição.
O mais curioso
é que o único dos grandes presidentes do
futebol do ténis português a faltar ao
“beija-mão” do Jamor foi exactamente Jorge
Nuno Pinto da Costa, que dentro em pouco até
se deslocará bem ali ao pé, ao Estádio
Nacional que ele teima chamar de Estádio de
Oeiras, para a final da Taça de Portugal em
futebol.
Seria
interessante e será seguramente memorável se
algum dia João Lagos receber Pinto da Costa
no Estoril Open, ou se o portista for
anfitrião do sportinguista na tribuna de
honra do Estádio do Dragão… mas também não
reza a história que tenha ocorrido alguma
cimeira entre o Papa de Roma e o de Avinhão.
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