Luso Ténis
 

 

Artigos Anteriores

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
9º Artigo - Especial Vale do Lobo Grand Champions 2006
8 de Agosto de 2006


Um silêncio nada inocente

Bjorn Borg provocou uma autêntica loucura quando inaugurou o primeiro Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp em 2001 e John McEnroe foi um excelente padrinho da entrada do torneio para o Merrill Lynch ATP Tour of Champions em 2002.

O carisma único destes grandes campeões nunca foi superado por nenhuma das super-estrelas do ténis que todos os anos nos visitam no Algarve.

Mats Wilander, Jim Courier, Pat Cash, Yannick Noah, Michael Stich, Richard Krajicek e tantos outros, são figuras únicas da modalidade, mas, por qualquer razão, o público adere de forma especial aos ‘bad boys’ do ténis… fazendo-me lembrar quando ainda era adolescente e as garotas olhavam sempre para os rapazes irreverentes. Os bonzinhos nunca têm tanta sorte!

Talvez por isso, Pedro Frazão, o director do torneio algarvio e presidente da Premier Sports, decidiu trazer este ano Marcelo Rios, o único que pode rivalizar com ‘Big Mac’ em mau génio, agora que Jimmy Connors e Ilie Nastase já estão velhos demais, até para os veteranos.

Irei seguramente falar mais vezes de Rios esta semana, tal a capacidade que o genial chileno tem de provocar ódios à sua volta, mas o ‘cocktail’ de apresentação dos jogadores à Imprensa e aos patrocinadores, que decorreu esta tarde, em Vale do Lobo, já deu para vos contar uma história deliciosa sobre a personalidade peculiar deste jogador, um dos raros nº1 mundiais a nunca ter ganho um torneio do Grand Slam.

Como costumo fazer com todos os jogadores que nos visitam pela primeira vez, apresentei-me a Marcelo Rios, explicando-lhe que sou o responsável pelo Gabinete de Imprensa do torneio e que iria fazer-lhe entrevistas no ‘court’ após os encontros.

Marcelo Rios olhou para mim e, sem esboçar qualquer emoção, estendeu-me a mão direita para o cumprimentar – pormenor curioso, dado tratar-se de um “canhoto”.

Continuei o monólogo e acrescentei-lhe que iriam ser entrevistas rápidas, provavelmente com duas perguntas apenas, uma em castelhano e outra em inglês.
O meu interlocutor manteve-se impassível. Pensei que o meu espanhol deveria estar muito enferrujado e que ele, provavelmente, nem teria percebido nada da lenga-lenga. Por isso, perguntei-lhe: «OK?».

Marcelo Rios nem tugiu, nem mugiu, mas, subitamente, vi, com alguma lentidão, o seu braço esquerdo subir até à altura da cintura e o dedo polegar a esticar-se, como que respondendo «OK».

Não há dúvida que, parafraseando Pete Sampras, este chileno de um raio prefere «fazer que a raqueta fale por ele». Falar deve ser um enorme esforço para as suas cordas vocais, talvez sabendo que quem muito fala pouco acerta.

O episódio fez-me lembrar a segunda vez que Marcelo veio a Portugal, em 1999, no Estoril Open. A primeira foi no Maia Open, em 1994. Numa conferência de Imprensa, perguntaram ao director do torneio como lidava com o mau feitio famoso de Rios e João Lagos não esteve com meias-medidas, respondendo que, pela primeira vez, tinha convidado um jogador para vir ao Estoril Open e nem tinha falado com ele durante a semana. «Todos sabemos como ele é – prefere nem ser incomodado e gosto que os jogadores se sintam confortáveis no meu torneio. Por isso, optei por nem falar com ele», disse então o presidente da João Lagos Sports.

Mas o facto é que, mesmo sem abrir a boca, Rios chama sempre à atenção e, esta semana, têm chovido telefonemas no Gabinete de Imprensa, oriundos da América do Sul, havendo até uma televisão chilena que veio de propósito ao Algarve para filmar a participação daquele que foi eleito o desportista chileno do século XX.

Não deixo, no entanto, de indagar-me: como é que um tipo que entra mudo e sai calado dos torneios, optou pela carreira de comentador televisivo de ténis quando encerrou a carreira no circuito principal? O mudo dos irmãos Marx era mais expressivo!

 
 
 

 


View My Stats