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Um silêncio nada
inocente
Bjorn Borg
provocou uma autêntica loucura quando
inaugurou o primeiro Vale do Lobo Grand
Champions Millennium bcp em 2001 e John
McEnroe foi um excelente padrinho da entrada
do torneio para o Merrill Lynch ATP Tour of
Champions em 2002.
O carisma
único destes grandes campeões nunca foi
superado por nenhuma das super-estrelas do
ténis que todos os anos nos visitam no
Algarve.
Mats Wilander,
Jim Courier, Pat Cash, Yannick Noah, Michael
Stich, Richard Krajicek e tantos outros, são
figuras únicas da modalidade, mas, por
qualquer razão, o público adere de forma
especial aos ‘bad boys’ do ténis… fazendo-me
lembrar quando ainda era adolescente e as
garotas olhavam sempre para os rapazes
irreverentes. Os bonzinhos nunca têm tanta
sorte!
Talvez por
isso, Pedro Frazão, o director do torneio
algarvio e presidente da Premier Sports,
decidiu trazer este ano Marcelo Rios, o
único que pode rivalizar com ‘Big Mac’ em
mau génio, agora que Jimmy Connors e Ilie
Nastase já estão velhos demais, até para os
veteranos.
Irei
seguramente falar mais vezes de Rios esta
semana, tal a capacidade que o genial
chileno tem de provocar ódios à sua volta,
mas o ‘cocktail’ de apresentação dos
jogadores à Imprensa e aos patrocinadores,
que decorreu esta tarde, em Vale do Lobo, já
deu para vos contar uma história deliciosa
sobre a personalidade peculiar deste
jogador, um dos raros nº1 mundiais a nunca
ter ganho um torneio do Grand Slam.
Como costumo
fazer com todos os jogadores que nos visitam
pela primeira vez, apresentei-me a Marcelo
Rios, explicando-lhe que sou o responsável
pelo Gabinete de Imprensa do torneio e que
iria fazer-lhe entrevistas no ‘court’ após
os encontros.
Marcelo Rios
olhou para mim e, sem esboçar qualquer
emoção, estendeu-me a mão direita para o
cumprimentar – pormenor curioso, dado
tratar-se de um “canhoto”.
Continuei o
monólogo e acrescentei-lhe que iriam ser
entrevistas rápidas, provavelmente com duas
perguntas apenas, uma em castelhano e outra
em inglês.
O meu interlocutor manteve-se impassível.
Pensei que o meu espanhol deveria estar
muito enferrujado e que ele, provavelmente,
nem teria percebido nada da lenga-lenga. Por
isso, perguntei-lhe: «OK?».
Marcelo Rios
nem tugiu, nem mugiu, mas, subitamente, vi,
com alguma lentidão, o seu braço esquerdo
subir até à altura da cintura e o dedo
polegar a esticar-se, como que respondendo
«OK».
Não há dúvida
que, parafraseando Pete Sampras, este
chileno de um raio prefere «fazer que a
raqueta fale por ele». Falar deve ser um
enorme esforço para as suas cordas vocais,
talvez sabendo que quem muito fala pouco
acerta.
O episódio
fez-me lembrar a segunda vez que Marcelo
veio a Portugal, em 1999, no Estoril Open. A
primeira foi no Maia Open, em 1994. Numa
conferência de Imprensa, perguntaram ao
director do torneio como lidava com o mau
feitio famoso de Rios e João Lagos não
esteve com meias-medidas, respondendo que,
pela primeira vez, tinha convidado um
jogador para vir ao Estoril Open e nem tinha
falado com ele durante a semana. «Todos
sabemos como ele é – prefere nem ser
incomodado e gosto que os jogadores se
sintam confortáveis no meu torneio. Por
isso, optei por nem falar com ele», disse
então o presidente da João Lagos Sports.
Mas o facto é
que, mesmo sem abrir a boca, Rios chama
sempre à atenção e, esta semana, têm chovido
telefonemas no Gabinete de Imprensa,
oriundos da América do Sul, havendo até uma
televisão chilena que veio de propósito ao
Algarve para filmar a participação daquele
que foi eleito o desportista chileno do
século XX.
Não deixo, no
entanto, de indagar-me: como é que um tipo
que entra mudo e sai calado dos torneios,
optou pela carreira de comentador televisivo
de ténis quando encerrou a carreira no
circuito principal? O mudo dos irmãos Marx
era mais expressivo!
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